Governo Temer: circo, pão e pau

Diante dessa situação, a luta de resistência deve ser a base para a constituição de um programa de emergência unitário e um movimento de caráter revolucionário, antineoliberal, antifascista e pelo socialismo.

Desmonte da Petrobrás compromete desenvolvimento do Ceará

O desmonte da maior empresa brasileira – a Petrobrás – caminha a passos largos, com a mesma desfaçatez do golpe que tinha como objetivo realizá-lo.

CIA sempre esteve de olho no petróleo brasileiro

Relatórios disponibilizados pela CIA desde o final do ano passado permitem traçar um histórico do monitoramento a respeito da exploração do petróleo brasileiro.

Carta de Snowden: Denúncia é um ato de resistência

Última carta publicada pelo ex-agente secreto estadunidense.

China: O mito do “Socialismo de Mercado”

“A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo” Lênin.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O guerreiro que morreu com 1500 índios defendendo o Brasil

Sepé Tiaraju é um dos muitos heróis brasileiros que não são reconhecidos nos livros de História do país. Sepé Tiaraju foi um guerreiro indígena brasileiro, considerado santo popular e declarado “herói guarani missioneiro rio-grandense” por lei. Chefe indígena dos Sete Povos das Missões, liderou uma rebelião contra o Tratado de Madri.

Um dos principais episódios da vida de Sepé Tiaraju é a chamada Guerra Guaranítica, na qual Sepé liderou índios guaranis na resistência contra a desocupação dos Sete Povos das Missões que os espanhóis pretendiam. A Guerra Guaranítica durou de 1753 a 1756, ano da morte de Sepé Tiaraju.

Sepé foi criado como líder e treinado pelos guerreiros Guaranis, entretanto, o advento das Missões Jesuíticas, que incluíam a região de São Gabriel (RS), onde vivia Sepé, introduziram novas configurações de forma abrupta às comunidades indígenas e gerou insatisfação das aldeias. As missões se encarregavam de implementar nas aldeias Guaranis casas coletivas, centros administrativos hispânicos, expulsão de pajés (que eram substituídos por líderes jesuítas) e o estudo religioso com fim de conversão. Além disso, alteravam a divisão das propriedades e dos trabalhos entre os indígenas.

Em 1750, foi estabelecido o Tratado de Madri entre portugueses e espanhóis. O tratado determinou que Portugal iria ceder a região da Colônia do Sacramento, hoje Uruguai, à Espanha, em troca da cessão do território dos Sete Povos das Missões. A tentativa de desocupação implicava que cerca de 50 mil indígenas fossem expulsos de suas propriedades e deslocados para outro território espanhol. Os indígenas não aceitaram a proposta e tiveram o apoio de padres jesuítas da Companhia de Jesus. A região era rica em gado e foi disputada com armas. Espanhóis e portugueses se juntaram na luta contra os índios Guaranis.

Em 07 de fevereiro de 1756, o episódio da Batalha de Caiboaté ficou conhecido como uma das piores derrotas dos índios, com 1500 mortos. Entre os mortos estava Sepé Tiaraju. Nesta batalha, Sepé disse uma frase que é hoje reconhecida historicamente e atribuída a sua figura: “Esta terra tem dono.”

A história de Sepé Tiaraju tornou-se tema literário. Entre as obras do tipo, é considerada a mais importante “Romance dos Sete Povos das Missões”, de 1975, de Alcy Cheuiche, que retrata a vida do guerreiro indígena brasileiro.

Maria Fernanda Garcia

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um verdadeiro modelo de lutador revolucionário

Excertos do discurso proferido na noite solene, em memória do Comandante Ernesto Che Guevara, na Praça da Revolução, em 18 de outubro de 1967

«O Che era uma daquelas pessoas a quem todos davam afeição imediata, pela sua simplicidade, pelo seu caráter, pela sua naturalidade, pelo seu companheirismo, pela sua personalidade, pela sua originalidade (...) daquele tipo de homens que quando é preciso cumprir uma missão difícil não espera ser solicitado para realizar a missão (...).

«Essa era uma das suas características essenciais: a disposição imediata e instantânea de se oferecer para realizar a missão mais perigosa. E isso, claro, despertou a admiração, a dupla admiração em relação àquele companheiro que lutou conosco, que não tinha nascido nesta terra, que era um homem de ideias profundas, que era um homem em cuja mente se guardavam sonhos de luta em outros países e recantos do continente e, no entanto, esse altruísmo, esse desinteresse, essa vontade de sempre fazer o mais difícil, arriscar sua vida constantemente.

«Che era um soldado insuperável; Che era um chefe insuperável; Che era, do ponto de vista militar, um homem extraordinariamente capaz, extraordinariamente corajoso, extraordinariamente agressivo. Se, como guerrilheiro, ele tinha um calcanhar de Aquiles, que o calcanhar de Aquiles era sua agressividade excessiva, era seu total desprezo pelo perigo.

«(...) Che era um mestre da guerra, Che era um artista da luta de guerrilha! (...) O artista pode morrer, especialmente quando é um artista de uma arte tão perigosa quanto a luta revolucionária, mas o que não morrerá de forma alguma é a arte à qual dedicou sua vida e à qual dedicou sua inteligência.

«(...) Ele era um homem de pensamento profundo, de inteligência visionária, um homem de cultura profunda. (...) Che reuniu como revolucionário as virtudes que podem ser definidas como a expressão mais completa das virtudes de um revolucionário: um homem de integridade, um homem de suprema honestidade, de absoluta sinceridade, um homem de vida estóica e espartana, um homem que, praticamente, em seu comportamento, não se consegue encontrar uma única mancha.

Por suas virtudes constituiu o que pode ser chamado de um verdadeiro modelo de lutador revolucionário.

«(...) É por isso que dizemos, quando pensamos sobre sua vida, quando pensamos sobre o comportamento dele, que ele era o caso singular de um homem muito raro, pois ele era capaz de combinar não apenas as características de um homem de ação, mas também de sua personalidade; homem de pensamento, de homem de virtudes revolucionárias imaculadas e de extraordinária sensibilidade humana, unido a um caráter de ferro, a uma vontade de aço, a uma tenacidade indomável.

«(...) Os escritos de Che Guevara, o pensamento político e revolucionário de Che Guevara, terão um valor permanente no processo revolucionário cubano e no processo revolucionário na América Latina. E não duvidamos que o valor de suas ideias... tem e terá um valor universal ».

Fragmentos do discurso proferido na noite solene em memória do Comandante Ernesto Che Guevara, na Praça da Revolução, em 18 de outubro de 1967.

Fidel Castro

terça-feira, 12 de junho de 2018

90 vezes Che, homenagem ao guerrilheiro em sua cidade natal

Com apresentações de livros, exposições de quadros e fotográficas e outras iniciativas, a cidade natal do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, Rosario, presta homenagem hoje a um de seus grandes filhos no 90 aniversário de seu nascimento.

Com o título de '90 vezes Che' a agenda de atividades pelos atos centrais deste aniversário em honra ao guerrilheiro heróico é organizada pelo Movimento Argentino de Solidariedade a Cuba, pelo Município de Rosario, pelo governo provincial de Santa Fé, e o Centro de Estudos Latino-americanos (CelChe), entre outros.

Como vem acontecendo desde 2 de junho, a cada dia há múltiplas homenagens e nesta terça-feira na Faculdade de Humanidades da Universidade Nacional rosarina será a abertura da exposição Che leitor, enquanto continuará pelo segundo dia a visita guiada pela cidade ‘As Impressões do Che.

O onomástico do Che será recordado na quarta-feira, dia em que se escutou seu primeiro pranto em Rosario, com um ato central para o que se espera a participação de várias personalidades entre eles o ex-presidente uruguaio José Mujica, e figuras do Brasil, Venezuela e Bolívia, entre outros países.

Em uma cidade onde ainda tentam apagar e destruir seu nome, muitos rosarinos que levam a bandeira e exemplo desse homem que sonhou por um mundo melhor, prestam durante todos estes dias homenagem ao guerrilheiro, e defendem seu legado eterno, um legado transmitido de geração em geração no continente e para além.

FONTE: Prensa Latina

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Brigada médica cubana junto a guatemaltecos em emergência nacional

A Brigada Médica Cubana na Guatemala (BMC) permanece hoje à disposição das autoridades de saúde da localidade de Escuintla, ao sul do país, um dos três mais golpeados pela erupção do vulcão de Fogo.

Em declarações à Prensa Latina, Yuri Batista, chefe da BMC, precisou que ontem até a meia-noite quatro médicos e igual número de enfermeiras apoiaram os trabalhos de atenção aos atingidos em um dos centros de evacuação de Escuintla.

Nesta segunda-feira, os 27 colaboradores da ilha que trabalham na zona se encontram bem e permanecem dando cobertura de saúde em suas comunidades e hospitais, dispostos a assumir qualquer ajuda que solicite o Ministério de Saúde guatemalteco.

A Embaixada de Cuba aqui reiterou suas mais sentidas condolências ao povo, governo e familiares das vítimas, e reforçou o compromisso de seus médicos de manter-se junto aos mais precisados neste momento difícil como o demonstrou ao longo de 20 anos de presença interrompida neste país centroa-mericano.

Ainda que Escuintla tenha sido o lugar mais golpeado pela fúria do vulcão de Fogo, também os danos se fizeram sentir em Chimaltenango e Sacatepéquez, que permanecem em Estado de calamidade pública.

Até o momento, a cifra oficial de falecidos mantém-se em 25, mas ainda continuam os trabalhos de resgate e aparecem mais vítimas à medida que os socorristas conseguem entrar em aldeias próximas ao vulcão que estão incomunicáveis sob lava, cinza e areia.

FONTE: Prensa Latina.

Lenin e a Democracia

O aniversário da morte de Lénin está sendo celebrado num momento em que, após o esmagamento militar do hitlerismo, surgiram numerosas transformações na estrutura econômica, social e política de diversos países europeus.

Nesses países, em seguida à guerra de 1939-1945 as forças da democracia se desenvolveram num ritmo impetuoso, dando uma fisionomia particular, um caráter original a cada Estado e à Democracia que lhes serve de base — democracia popular.

Essas transformações já foram objeto de estudos particulares; George Dimitrov e Stalin já se expressaram a seu respeito e Maurice Thorez concedeu sobre o assunto, uma entrevista de grande repercussão, publicada no jornal inglês — o "Times".

Considerando as proporções gigantescas da obra de Lênin, achei conveniente por ocasião desta comemoração, limitar-me ao estudo da parte de sua obra, que os modernos acontecimentos tornam mais viva e mais atual do que nunca.

E aí está a razão porque intitulei este artigo de "LÊNIN E A DEMOCRACIA".

O esmagamento do hitlerismo, que era por si mesmo, a mais absoluta negação da democracia; a parte preponderante que no seu esmagamento tomou a União Soviética, país onde a democracia existe sob a forma mais ampla, permitiu um prodigioso desenvolvimento das forças democráticas, através do mundo e, principalmente, na Europa. A classe operária, os povos da Europa desempenharam um imenso papel na luta contra o hitlerismo, lutaram com todas as suas forças pela libertação do solo nacional. Lutando nas condições mais difíceis, contra um inimigo impiedoso e armado fortemente, os povos submetidos momentaneamente ao jugo hitlerista, trouxeram uma considerável contribuição à vitória militar sobre o invasor. Sem essa contribuição, os exércitos aliados, teriam gasto muito mais tempo e necessitado muito maiores sacrifícios de homens e material antes de conseguir sucessos definitivos.

Ao contrário, nos países colocados sob o controle do Reich os Partidos da reação, mais ou menos ligados aos “trusts”, após terem preparados desde a época de paz, o triunfo de Hitler, colaboravam com este na guerra, entregavam-lhe as riquezas nacionais, para ele recrutavam combatentes e mão de obra. Dessa maneira apareciam aos olhos de seus povos, como partidos que apenas obedeciam aos seus egoísticos interesses de classe, como traidores dos interesses nacionais, de que haviam pretendido ser os mais fieis interpretes e os melhores defensores.

Por isso, não é de admirar, que no dia seguinte da derrota militar do hitlerismo, as forças democráticas e os Partidos Comunistas, que tinham podido ver mais claro e que haviam feito os maiores sacrifícios no decorrer da luta pela libertação nacional, fossem levados a desempenhar um papel predominante na vida política do país para cuja libertação haviam contribuído.
É, pois, à luz das transformações surgidas na maior parte dos países europeus, que devemos examinar os problemas da democracia, tal como eles se colocam hoje, inspirando-nos nos ensinamentos de Lénin que em sua obra, reservou um considerável lugar para a questão do Estado e da Democracia.

Lénin e a Democracia Burguesa

Foi o próprio Lénin que melhor nos fez penetrar a substância do marxismo, quando afirmou contra os seus falsificadores, do estilo de Kautsky, Bernstein e Blum, que "o marxismo não é um dogma, mas um guia para a ação".

Partindo de dados concretos, o marxismo leva em conta as transformações sobrevindas num período ou numa situação determinada, para adaptar suas conclusões às novas condições históricas.
Por mais que pensem ou que digam os mais desesperados contendores do marxismo e do leninismo, Lênin nunca subestimou a importância e o papel de democracia, mesmo burguesa, na marcha para o socialismo.

Embora mostrando o caráter de classe da democracia burguesa, Lênin não deixa por isso, de insistir sobre o caráter progressista das instituições democráticas em relação à autocracia feudal e sobre o use que dela devem e podem fazer os trabalhadores na luta por sua emancipação.

"A República burguesa, diz Lênin, o Parlamento, o sufrágio universal, tudo isso, representa um enorme progresso do ponto de vista do desenvolvimento da sociedade no mundo inteiro".
E é Lênin ainda quem afirma em sua obra "Duas Táticas":

"Para tornar o socialismo mais próximo, não há e não pode haver atualmente outro meio, senão uma inteira liberdade política, senão uma República democrática".

Assim, quando em 1934, ante a ameaça fascista, nosso Partido Comunista proclamava que a escolha não era entre capitalismo e socialismo, mas entre democracia burguesa e fascismo, ele defendia, fiei aos ensinamentos de Lênin, não somente os interesses presentes do povo e da Nação, mas também o futuro do movimento.

Mas é, certamente, na seguinte citação de Lênin, extraída de sua obra capital "O Estado e a Revolução", que melhor se pode descobrir e penetrar o sentido das transformações profundas que se processaram em alguns países europeus, logo após a segunda guerra imperialista.

Quando Lênin fala da Democracia, baseia-se antes de mais nada em seu conteúdo de classe, em seu conteúdo social. Põe em destaque o caráter dialético do desenvolvimento da democracia. Mostra a influência recíproca da democracia política sobre a democracia social e inversamente.
Eis como se exprime Lênin, no ESTADO E A REVOLUÇÃO:
"Desenvolver a democracia até suas últimas conseqüências, pesquisar as formas desse desenvolvimento, pô-las a prova na prática etc. eis uma das tarefas essenciais da luta pela revolução social.

Tomando isoladamente, nenhum democratismo produzirá o socialismo; mas na vida, o democratismo nunca será tomado isoladamente, ele será tomado em conjunto; ele exercerá uma definida influência sobre a economia, provocará transformações e por sua vez sofrerá a influência do desenvolvimento econômico, etc. Tal é a dialética da história viva".

As Transformações Democráticas nos Países da Europa Central e Oriental

Nessa genial previsão de Lénin, encontramos como que um quadro traçado por antecipação, do que se passa atualmente em certos países democráticos da Europa Central e Oriental e, embora numa escala menor, também na França, vejamos, pois, que transformações profundas, que mudanças, se processaram nesses países da Europa Central e Oriental e particularmente na Hungria, Romênia, Polônia, Tchecoslováquia, Bulgária, Iugoslávia, nos dias que se seguiram à derrota hitleriana ou no momento em que essas transformações se tornaram nítidas.

Examinemos também quais as causas gerais e particulares dessas transformações.

Vejamos inicialmente as transformações verificadas na divisão da terra em cada um desses países que são essencialmente agrícolas e onde a maioria da população retira seus recursos da agricultura.
Grande número de barões feudais e de grandes proprietários desses países foram expropriados e em certos casos suas terras lhes foram confiscadas, na medida em que haviam colaborado com os nazis ou haviam pertencido à minorias étnicas alemães.

Vejamos num relato sumário, quais os resultados dessa nova divisão das terras nos países da Europa Central e oriental.

A reforma agrária foi realizada na Hungria em março de 1945, antes mesmo da libertação do território húngaro. Sobre o volume total de terras tornadas disponíveis pela reforma agrária, 2.710.000 geiras foram distribuídas a 550.000 pessoas, sendo os beneficiários, empregados de fazendas, trabalhadores agrícolas, pequenos proprietários, artesãos que se ocupavam na agricultura. Foi concedida prioridade para obtenção das terras divididas aos soldados, ex-partisans, inválidos, etc.
Idênticas medidas, na Polônia, onde foram redistribuídas 1.341.213 hectares a trabalhadores agrícolas sem terra ou a camponeses que dispunham de pouca terra.

Na Romênia, em conseqüência da reforma agrária que teve lugar em março de 1945, a propriedade acima de 100 hectares, caiu de 37,2% para 9,8% da superfície total das terras aráveis.

Na Tchecoslováquia, a reforma agrária incidiu sobre 3.000.000 de hectares, sendo 7.480.000 de acres de terras aráveis e florestas correspondentes a 250.000 explorações agrícolas, quase todas de origem alemã.

Embora a Bulgária tenha sido sempre um país onde predominavam os pequenos proprietários, as expropriações e os confiscos foram realizados baseando-se na lei búlgara da reforma agrária: — "A terra deve pertencer a quem a trabalha".

Enfim na Iugoslávia, o fundo agrário comporta um total de 417.789 hectares, dos quais 237.737 já foram repartidos entre os beneficiários operários agrícolas e pequenos proprietários, tendo-se concedido prioridade aos operários combatentes, aos partizans, aos inválidos e às famílias que mais sofreram em conseqüência da invasão alemã.

Dessa maneira, a fisionomia do campo, nos países da Europa Central e Oriental, mudou consideravelmente após a derrota do hitlerismo.

Onde dominavam anteriormente os barões feudais e grandes proprietários, sobre uma grande massa de camponeses analfabetos e miseráveis privados de terra ou que possuíam insuficientes extensões de terra, começou a se constituir uma nova classe de proprietários: operários agrícolas, empreitados de fazendas, pequenos proprietários, que não possuíam outrora senão os próprios braços e sua força de trabalho e um ou outro insignificante canto de terra.

Essas notórias modificações na repartição da propriedade, constituiu, pois, um grande progresso social e seus resultados não se fizeram esperar. O operário agrícola, o empregado da fazenda, o pequeno proprietário que teve seu canto de terra aumentado, todos passam a trabalhar o solo com mais cuidado, mais entusiasmo, porque sabem que receberão desse trabalho, uma remuneração direta.
É assim, para não citar senão um exemplo, que na Romênia, após a reforma agrária, as terras semeadas que atingiam apenas 5.843.908 hectares em 1944, se elevaram a 7.767.000 hectares em 1945.

Se levarmos em conta que as medidas de expropriação e confisco da terra, nos países da Europa Central e oriental (balcânica), foram completadas pela nacionalização da grande e média indústria, em escala mais profunda do que a realizada na França, será fácil compreender que os Partidos democráticos, artífices essenciais dessas transformações sociais, tenham conseguido o apoio total do povo.

Mas essas transformações só se tornaram possíveis, pela luta decidida dos (Partidos Comunistas e das forças progressista desses países, contra o invasor hitlerista e pela independência.

É a essa situação que se explica de maneira notável o seguinte julgamento de Lênin:
"...ele (o democratismo) exercerá igualmente sua influência sobre à economia e estimulará a transformação..."

E não é preciso, senão consultar o quadro impressionante, publicado pela "France Nouvelle", de 23 de novembro, sob o título de "As eleições na Europa e o desenvolvimento do movimento democrático", para se constatar que é nos países que acabamos de citar que a vitória dos partidos democráticos, foi mais brilhante.

As recentes eleições na Polônia apenas confirmaram brilhantemente essa constatação. Lénin previra a inevitabilidade desse processo quando falando do democratismo escreveu no "O Estado e a Revolução":

"...e por sua vez (o democratismo) sofrerá a influência do desenvolvimento econômico..."

Uma Democracia de Novo Tipo: A Democracia Popular

Compreende-se assim, que a democracia instituída nos países da Europa Central e Oriental, seja uma democracia de novo tipo: — uma democracia popular que toma um caráter cada vez mais social.
Falando dos meios de desenvolvimento da democracia popular na Polônia, o camarada Gomulka Wieslaw, secretário do Partido Operário Polonês, definiu a democracia popular da seguinte maneira:
"Nossa democracia contém muitos elementos da democracia socialista e muitos elementos da democracia liberal burguesa, da mesma forma que nosso regime econômico contém ao mesmo tempo elementos do regime socialista e do regime capitalista: damos à nossa democracia o título de Democracia Popular e definimos nosso regime social como um regime de democracia popular. Nossa democracia é o regime social que estamos edificando e consolidando não tem precedentes na história (sublinhado pelo autor). A experiência mostrou que eles saíram vitoriosos das provas a que foram submetidos. Não somos um país de regime capitalista típico, porque nossas indústrias-chaves, nossos bancos, nossos meios de transporte e comunicação, foram nacionalizados. Mas também, não temos um regime socialista porque o setor da produção não socialista, ocupa em nossa economia um lugar considerável. Reconhecemos a necessidade e a utilidade da iniciativa individual e das formas de produção não socializadas, num setor da produção industrial, rejeitamos a coletivização da economia agrícola. No entanto criamos as condições que nos permitem regular a produção do setor não socializado, conforme as necessidades da economia nacional."

Tendo assim definido o que é a democracia popular, o problema que se coloca é o de seu futuro, de suas possibilidades de desenvolvimento e do papel que ela deve desempenhar na marcha para o socialismo.
 
George Dimitrov, o herói de Leipzig, antigo e eminente secretário da Internacional Comunista, já respondeu a essa questão.

Constatando o desenvolvimento impetuoso das forças democráticas em certos países da Europa, levando em conta também, as novas condições objetivas do mundo atual que não é mais o de 1939, levando em conta também a experiência adquirida pelo proletariado, através de suas lutas, escreveu Dimitrov:

"A democracia popular não é nem socialista nem soviética. Ela é a passagem da democracia ao socialismo. Ela cria as condições favoráveis ao desenvolvimento do socialismo por um processo de lutas e de trabalho. Cada país passará ao socialismo, por seus próprios caminhos. A vantagem da democracia popular é que essa passagem tornou-se possível sem a ditadura do proletariado. Tal resultado é devido ao exemplo da União Soviética e às lições de todas as lutas travadas no mundo pelo proletariado."

É incontestável que especialmente na Bulgária, as forças democráticas que tomaram parte ativa na obra de libertação nacional, foram suficientemente poderosas para impor uma verdadeira depuração que contribuiu decisivamente para quebrar o antigo aparelho do Estado reacionário E era isso que frisava Stalin em sua entrevista com a delegação trabalhista britânica, em agosto de 1945:
"Os marxistas-leninistas, declarou ele, segundo o relatório de Morgan Phillips publicado no "Daily Herald", de 22 de agosto de 1946, os marxistas-leninistas não pensam que esse caminho seja o único que permita chegar ao socialismo."

Era enfim o que lembrava Maurice Thorez em sua entrevista sensacional no "Times":
"Os progressos da democracia através o mundo, apesar das raras exceções que confirmam a regra, permitem encarar, para a marcha do socialismo, caminhos diferentes dos que foram seguidos pelos comunistas russos."

Alguns dos nossos adversários pretenderam ver nessa declaração, não se sabe que manobra, que manifestação de oportunismo destinada a acalmar os que se assustavam com a participação dos comunistas no Governo ou com a ascensão de um comunista à direção dos negócios públicos.
Na verdade, Maurice Thorez não fez senão dar uma forma concreta, adotada às circunstâncias presentes à sua declaração feita no Comitê Central de Ivry de 21 de janeiro de 1945, no 21.° aniversário da morte de Lênin:

"A situação é nova, nossos métodos são diferentes."

Desejamos examinar esse problema, à luz de um exemplo concreto, mostrando os novos caminhos que se abrem para atingir o socialismo.

Esse exemplo é a democracia popular polonesa. E o melhor modo de fazê-lo é tomar emprestado ao camarada Gomulka-Wieslaw os trechos essenciais da argumentação por ele desenvolvida ante a Assembléia dos militantes do Partido Operário Polonês e do Partido Socialista Polonês, ligados pelo Pacto de Unidade e Coordenação, em Varsóvia a 30 de novembro de 1946:

"Certas pessoas repetem constantemente — declara Gomulka —, que o Partido Operário Polonês se inclina para a ditadura do Proletariado e que tenciona chegar ao socialismo pelos mesmos caminhos seguidos pela União Soviética. É desnecessário demonstrar que os que fazem esses comentários não só ignoram todo o marxismo e não sabem tirar as conclusões que a comparação das diferentes épocas históricas nos impõem, mas o fazem com o fim essencial de deformar os fatos políticos e para conseguir lançar com maior facilidade a luta contra nosso Partido."

Em seguida Gomulka distingue o que diferencia os caminhos do desenvolvimento da Polônia e os da União Soviética. As transformações sociais e políticas se realizaram na Rússia por meio de uma revolucão sangrenta enquanto que na Polônia essas transformações tiveram lugar de maneira pacífica.
A União Soviética teve que passar pela etapa da ditadura do proletariado, enquanto que a Polônia não conheceu essa etapa e pode evitá-la.

Na União Soviética, o poder é exercido pelo Conselho de Delegados, isto é, pelos Soviets, que reúnem as funções legislativas e as funções executivas e são uma forma do poder socialista. Na Polônia, as funções legislativas e executivas são separadas e o poder está baseado na democracia parlamentar.

Essas diferenças não surgiram da vontade subjetiva de alguns homens ou da linha política dos partidos que atuam na Polônia ou na URSS.

Foi a relação interna e externa das forças das classes, tal como se apresentou no momento da revolução russa e tal como existe hoje na Polônia ou como existia no momento da tomada do poder pela democracia, que decidiu as vias diferentes do desenvolvimento na Polônia e na Rússia.

Na Rússia, a revolução tornou-se necessária devido ao poderio do tzarismo e à força do capitalismo mundial, ou de outra maneira, devido à fraqueza da democracia mundial. Na Polônia, em 1944, a classe operária e as massas trabalhadoras polonesas não precisaram usar meios violentos para pôr abaixo os barões feudais e os grandes capitalistas, porque eles estavam fracos, politicamente comprometidos e isolados; por isso puderam ser afastados por outros meios.

A fraqueza dos barões e capitalistas poloneses provinha do fato de que, no momento em que a democracia tomava o poder, não havia no país um aparelho estatal para lutar contra ela É verdade que eles tinham de seu lado, diversos grupos reacionários e fascistas, mas não representavam esses grupos uma força suficiente para se opor com eficácia às forças democráticas. A destruição do aparelho estatal reacionário provocada pela catástrofe de setembro de 1939 e o caráter completamente ilusório do aparelho de delegação do Governo de Londres no país foram a primeira causa que permitiu pôr abaixo, de maneira pacífica, a reação na Polônia.

Na ocasião da libertação do solo polonês, o poder se encontrava simplesmente nas ruas. Foi a democracia que o tomou porque ela se mostrou mais forte do que a reação.

Ao lado dessa primeira causa, houve outras; uma grande parte da reação estava comprometida perante o povo pela catástrofe de setembro de 1939 e pela política anti-soviétíca orientada pelo Governo dos Emigrados. Muitos tinham fugido da Polônia, com os alemães ou mais tarde, para organizar e preparar na emigração, as forças para lutar contra a democracia na própria Pátria.
Por outro lado, a derrota hitlerista e as vitórias do Exército Vermelho encheram de medo a reação, tornando-a inapta a lutar eficazmente contra a democracia, Além disso, tomando o poder, a democracia polonesa, não se chocou senão com a sua inclusão no index por parte da reação mundial que, de início, não quis reconhecer o governo democrático da Polônia nova. No entanto a luta contra a democracia na Polônia, por parte dos círculos imperialistas estrangeiros se limitou a sustentar a atividade dos grupos divisionistas reacionários. Essa situação favorável à democracia polonesa é devida ao crescimento das forças da democracia mundial que se seguiu à derrota militar do fascismo. Essas forças são hoje muito maiores que no momento da queda do tzarismo na Rússia. A reação mundial não está em condições de organizar uma ajuda considerável a seus amigos poloneses, a relação de forças políticas em seus próprios países não lhes permite essa ajuda.

Enfim, na Polônia, as forças democráticas foram levadas ao poder pelo ascenso produzido pela luta de libertação nacional, enquanto a reação polonesa se opunha por motivos bem compreensíveis, à luta armada contra a Alemanha e se comprometia dessa maneira, aos olhos do povo polonês e da opinião democrática mundial.

Não é necessário prolongar mais essa demonstração para se julgar as diferenças fundamentais que se apresentaram entre a situação da Rússia em 1917 e a da Polônia em 1944 e que explicam porque a Polônia possa se dirigir para o socialismo por caminhos diferentes dos que tiveram que escolher os comunistas russos. É o momento de relembrar, para concluir essa parte de nosso estudo, a declaração de Dimitrov:

"Cada País passará ao socialismo por seu próprio caminho."

A França Encontrará Seu Próprio Caminho

Maurice Thorez retomou essa mesma idéia em sua entrevista de 18 de novembro de 1946, publicado no "Times":

"Sempre pensamos e declaramos que o povo francês, com sua gloriosa tradição, encontra por si mesmo, seu caminho para conquistar mais democracia, progresso e justiça social." 

No X Congresso de nosso Partido (junho de 1945), Thorez traçara o quadro da democracia tal como a concebem os comunistas e a maioria do povo francês:

"Parece que a palavra democracia, não tem o mesmo sentido para todos. Alguns sonham uma democracia no gênero ateniense ou melhor ainda no gênero espartano. Uma democracia para os privilegiados, para os proprietários de escravos. Nós temos o conceito de democracia tal como a definia Condorcet, uma democracia em que "todas as instituições sociais devem ter por finalidade o melhoramento social, moral, intelectual e físico da classe mais numerosa e mais pobre."
A democracia é uma criação contínua. Já na época da Frente Popular, nossas Assembléias, nossos Congressos, insistiam que os Republicanos unidos, conferiam todo o seu valor ao belo nome de República. A Frente Popular conseguindo para as massas a realização de suas reivindicações de ordem econômica, política e cultural, constituía um novo progresso da democracia. Hoje, ao lado da imensa maioria dos franceses, concebemos uma democracia, desembaraçada de "trusts", uma democracia onde não há lugar para os grupos e para os homens que serviram Hitler e traíram a França."

Entretanto, basta que lembremos as condições concretas que permitiram à Polônia atingir à democracia popular (condições bem semelhantes às que se verificaram na Tchecoslováquia, Hungria, Iugoslávia, Romênia e Bulgária) para compreender que as condições da França são bastante diferentes, como diferentes são as dos países da Europa Ocidental que participaram na luta contra o hitlerismo e no seu esmagamento militar.

Resta no entanto o fato de que as forças democráticas na França se reforçaram consideràvelmente, que o Partido Comunista Francês que tomou parte ativa e preponderante na Resistência e na luta de libertação nacional, conquistou uma posição de primeiro plano, reunindo em torno de si perto de seis milhões de eleitores.

Por outro lado, se é verdade que os "trusts" conservaram o essencial de seu poder, os antigos partidos reacionários e os que ligaram sua sorte à antiga política muniquista, perderam uma grande parte da autoridade e da influência que exerciam sobre importantes setores do povo francês. E os que os substituíram com outros nomes, são obrigados a mascarar suas ambições reacionárias sob uma fraseologia social e democrática que leva em conta as aspirações da massa a conquistar mais democracia, mais bem estar social e à paz.

É a homenagem que o vício presta à virtude. E no entanto, foram dados passos importantes no caminho da renovação e do alargamento da democracia. Nossa democracia exposta aos ataques furiosos da reação toma um caráter mais e mais social.

A retomada de algumas empresas do patronato que tinha colaborado e traído os comitês de direção; a constituição de comitês de Empresa; o estabelecimento de um sistema completo e progressivo de segurança social; as nacionalizações das minas de carvão, das fábricas de gás, das empresas de eletricidade, estradas de ferro, de um certo número de companhias de seguros, de Bancos e do Crédito, são sem dúvida uma prova de que o democratismo, como afirmava Lênin:
"...exercerá igualmente sua influência sobre a economia, etc., estimulando sua transformação."
Os progressos da democracia afirmaram-se ainda entre nós, por medidas de progresso social como, por exemplo, o Estatuto da Função Pública — e enfim pela votação da Constituição de 15 de outubro que mostra um progresso evidente sobre a Constituição de 1875 em razão dos princípios novos que nela são estabelecidos, em razão mesmo da derrota que ela infligiu às forças da reação que queriam o renascimento do Senado. Enfim o voto das mulheres e a redução do limite da maioridade para 20 anos alargaram consideravelmente o corpo eleitoral, permitindo ao sufrágio universal praticado na França, merecer com mais razão o seu nome.

Unidade Operária, Fator Decisivo da Luta Pela Nova Democracia

Certamente a obra realizada teria sido mais considerável e mais progressista se o Partido Socialista tivesse consentido em desenvolver uma ação comum com o Partido Comunista em vez de "namorar" com o M.R.P. e se ele tivesse aceito as propostas de unidade orgânica que nos levariam à constituição do Grande Partido Operário Francês.

Porque o que fez a força da democracia popular nos países da Europa Central e Oriental, foi o entendimento realizado entre os comunistas e socialistas desses países tendo em vista uma ação comum.

Falando das condições que permitiram à Polônia de conquistar uma democracia popular, declarou o camarada Gomulka:

"A unidade de ação de nossos dois Partidos e a ação coordenada de todos os Partidos democráticos em uma frente democrática comum, são indispensáveis em primeiro lugar para quebrar a resistência da reação. Se admitimos as possibilidades de um caminho polonês, livre de convulsões revolucionárias violentas, isso não quer dizer que o desenvolvimento e o progresso se possam realizar sem nenhuma luta em geral."

Dimitrov havia insistido sobre esse aspecto dialético do futuro da democracia popular:
"A passagem da democracia ao socialismo não é uma coisa doce. Ela não se desenvolve por um caminho calmo, mas por um caminho íngreme e cheio de obstáculos. Sem luta não haverá resultados. Se a democracia pára ou recua, ela dá lugar à reação e ao fascismo."
Meditemos sobre esse ensinamento, escutando ainda a advertência que nos fazia Maurice Thorez, em sua entrevista no "Times":

"No entanto a História mostra que não há progresso sem luta. Não há caminhos completamente livres pelos quais os homens possam avançar sem esforço. Tem sido sempre necessário sobrepujar obstáculos. É o próprio sentido da vida."

Tais são, nos parecem, embora o assunto não esteja nem de longe esgotado porque ele é de uma riqueza incomparável — as lições que convinha tirar dos aspectos atuais do problema da democracia em alguns países da Europa, à luz dos ensinamentos de Lênin.

Referindo-se a uma declaração de Engels, escrevia Lénin no "O Estado e a Revolução"
"que nos países republicanos ou de uma grande liberdade, pode-se conceber (somente conceber) uma revolução pacífica para o socialismo.”

Nosso grande Dimitrov diz:

"Se a democracia pára ou recua, ela dá lugar á reação ou ao fascismo."

Maurice Thorez proclama:

"os progressos da democracia através do mundo, apesar das raras exceções que confirmam a regra, permitem considerar para a marcha do socialismo, outros caminhos diferentes dos que foram seguidos pelos comunistas russos."

Conclusão: Não Há Progresso Sem Luta

O representante do Partido Operário Polonês afirma:

"A reação não se submete nunca por sua própria vontade, não cede nunca suas posições sem luta, e continuará a lutar para retomar as posições perdidas, enquanto suas forças lhe permitirem. Essa luta entre a democracia e a reação não cessou entre nós, desde a renascença da Polônia."
Eis o que não devemos jamais esquecer. E se tínhamos tendência a desprezar esse ensinamento, a ofensiva enlouquecida da reação na França para tentar impedir os comunistas de ter um de seus delegados na direção ao governo ou de ao menos ser membro desse Governo, a atividade dessa mesma reação para conseguir a revisão de nossa constituição num sentido reacionário e para destruir a obra de progresso social realizada após a libertação, deveriam ser suficientes para nos convencer que a renovação e o alargamento de nossa democracia que nos conduzirá ao socialismo "por caminhos diferentes dos que foram seguidos pelos comunistas russos" não pode ser obtido sem luta, sem combate. Lutar para fazer penetrar na vida o programa de Puteaux, realizar a unidade das forças operárias e republicanas, utilizar as relações mais fraternais que se criaram nos últimos tempos entre socialistas e comunistas para fazer progredir a idéia do Partido Operário Francês que "será o guia de nossa democracia nova e popular (entrevista de Maurice Thorez no "Times")" tal é a tarefa que neste aniversário da morte de Lénin, nos impõe a fidelidade aos seus ensinamentos.

Raoul Calas

FONTE: Revista Mensal de Cultura Política nº 6 - Janeiro de 1948. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Decadência do Futebol como Consequência do Avanço do Capitalismo

A perversidade inerentemente degragante do sistema capitalista, deploravelmente redutor da existência no planeta, pode ser facilmente entendida a seguir por dizer respeito à tão declarada paixão global: envolve o nível vertiginosamente descendente do futebol mundial há mais de três décadas.

Esta modalidade esportiva começou a se transformar, proporcionalmente muito mais que as outras no mesmo período, em um bilionário negócio transnacional, fonte de lucro fácil e exorbitante para empresários e dirigentes a partir do final dos anos de 1970 e início dos de 1980 através, sobretudo, das negociações em massa de jogadores ao exterior especialmente os do chamado Terceiro Mundo, particularmente atletas sul-americanos, exportados aos financeiramente poderosos clubes europeus.

Concomitantemente, e nem poderia ser diferente, acabou florescendo também a indústria do marketing esportivo como complemento a este emergente mercado que “revolucionava” o futebol mundial, transformando a tudo e a todos – inclusive atletas – em meras marcas esportivas a serem exploradas pela mídia e por empresários, produtos comercializáveis acima de tudo ainda que se tratassem de vidas humanas.

A alma do marketing esportivo, que acabou virando até carreira universitária no início do século XXI, é vender marcas, imagens de atletas e de clubes de futebol ao público e ao próprio mercado, é claro. Alguém já notou que grandes pernas-de-pau, clubes falidos, desorganizados e dirigentes de futebol dos mais incompetentes e picaretas em muitos casos são, “misteriosamente”, idolatrados por jornalistas e alguns tietes a mais? Pois é. Trata-se da elitização bandida e completamente ilusória do futebol, no sentido que nem sempre – ou na minoria das vezes, até – premia o melhor, mas inevitavelmente os interesses do mercado.

Diante disso tudo, o assunto principal dos “debates” futebolísticos contemporâneos (igualmente empobrecidos pelo sistema) já não era mais a graça do futebol, o bem-estar de atletas e torcedores, a justa elaboração de torneios e calendários das competições esportivas, mas sim como estes poderiam melhor se adequar ao lucro financeiro.

O foco passou a ser o quanto o futebol pode ser rendoso aos burocratas que regem o esporte, a empresários de atletas e de marcas esportivas, e aos principais meios de comunicação em nada preocupados com a qualidade dos espetáculos esportivos em primeiro lugar, passando desapercebido do grande público o quanto o futebol tem se nivelado por baixo, cada vez mais.

Não por mera coincidência, já em meados da década de 1980 o mundo passou a assistir desoladamente à queda vertiginosa da qualidade dos jogos de futebol, vendo logo sua denominada era romântica que se estendia por quase meia década desmanchar-se no ar. Tal ciclo foi encerrado na Copa do Mundo do México em 1986, com o futebol já em visível decadência técnica.

No caso particular do Brasil, logo em maio de 1985 já se sentia os efeitos nefastos da globalização do mercado do futebol: em 1985, enquanto se preparava para o Mundial do ano seguinte com Evaristo de Macedo no comando técnico, entre uma série de jogos sofríveis veio a primeira derrota para a então fraquíssima Colômbia, até então sem nenhuma tradição no futebol sul-americano: 1-0 em Bogotá, onde a seleção “canarinho” levou um “vareio”. Ali, sinais bastante claros já eram dados de que o futebol estava se nivelando por baixo e o Brasil viria a colecionar, nos anos seguintes, derrotas inéditas no cenário esportivo internacional.

Eis que após uma participação com bons jogos na Copa do México no ano seguinte, quando o Brasil do brilhante técnico Telê Santana em determinados momentos fez lembrar o futebol espetáculo de anos anteriores, tendo perdido injustamente nos pênaltis para a boa França, veio a Copa América de 1987 no Chile: a melancólica participação da “amarelinha”, que já havia desfilado como melhor seleção do mundo por várias décadas, foi finalizada ainda na primeira fase com estrondosa, vergonhosa derrota para os donos da casa:4-0 para os chilenos.

A Copa seguinte, em 1990 na Itália, do primeiro ao último jogo marcou o início da nova era de apresentações futebolísticas patéticas, sem a menor graça em sua grande maioria que em nada lembravam um passado que enchia os olhos e os corações de paixão em todo o mundo. Mesmo naqueles que outrora se haviam consagrado como grandes clássicos mundiais, já se havia instalado a pateticidade o notável desfile de interesses mercadológicos que afetavam diretamente a qualidade dos jogos e, paradoxalmente, retiravam o interesse das pessoas.

Nas Eliminatórias de 1993 para a Copa do ano seguinte, a ser disputada nos Estados Unidos, também marcada pelo baixo nível técnico, outra derrota histórica do Brasl: 2-0 para a fragilíssima Bolívia em La Paz; mais uma apresentação de uma longa série, para trás e adiante, que em nada fazia lembrar a velha seleção brasileira a não ser a cor do uniforme. E mais: o Brasil, sempre muito forte politicamente junto à dona FIFA dos negócios tão bilionários quanto obscuros, recebeu naquela competição, como é tradicional na história, uma mão bastante amiga das arbitragens para chegar à disputa nos EUA, o que se repetiria gritantemente em Eliminatórias posteriores.

Um relance interno: quem não se lembra – e sente saudades – dos campeonatos estaduais até meados da década de 1980, especialmente do Paulista com seus belos clássicos e jogos pelo interior do Estado? Guarani, Ponte Preta, Bragantino, Inter de Limeira, Ferroviária, São Bento, Taubaté, XV de Piracicaba, Portuguesa Santista, XV de Jaú, América, Juventus, Paulista, Noroeste, Marília, Santo André, São José, Botafogo, Comercial, Taquaritinga, Francana, Prudentina, União São João, Ituano, Novorizontino, Rio Branco, Mogi-Mirim… Como eram apaixonantes aqueles jogos, e o quanto era complicado a qualquer equipe grande, de São Paulo e do Brasil, jogar contra esses clubes! E quantos jogadores cada um desses clubes revelou ao longo da história! Um tempo que, lamentavelmente, já se foi há muito.

Saindo novamente das fronteiras esportivas brasileiras: a Taça Libertadores dos anos de 1960, 70 e 80, que reunia apenas campeão e vice de cada país sul-americano, era outro espetáculo à parte, jogo a jogo. Outra saudosa paixão, por mais que de vários anos ara cá, exatamente em nome dos interesses financeiros, inchem a competiççao continental com jogos caça-níquies, sem a menor graça mesmo envolvendo os históricos grandes clássicos.

E essa tendência apenas piora ano a ano tanto quanto, claro sinal dos tempos, a empáfia desses atletas-produtos contemporâneos cujas “personalidades” não fazem, em nada, lembrar aquelas dos jogadores das épocas áureas do futebol quando dava gosto ouvi-los falar, era prazeroso conversar e ouvir entrevistas de atletas daquela época à áltura da paixão com que jogavam bola (Zico, Sócrates, Falcão, Pita, Zenon, Casagrande, Basílio, Edu Marangon, Careca, Silas, Ademir da Guia, Dudu, Afonsinho, Luís Pereira, Evair, Pelé, Murici Ramalho, Chicão, Leandro, Andrade, Júnior, Roberto Dinamite, João Leite, Reynaldo, Oscar, Dario Pereyra, Rivellino, Tostão, Gerson, Carlos Alberto Torres, Jairzinho, Clodoaldo, Nilton Santos, Zagallo, Zito, Garrincha, Bellini etc), entresistecendo uma comparação com as figuras dos perfeitos idiotas dos tempos atuais.

Vale ressaltar que também se deve ao sistema capitalista a feroz briga entre jornalistas esportivos pelo famoso jabá, isto é, uma porcentagem financeira “presenteada” por empresários e cartolas àqueles que valorizam, artificialmente, seus atletas de estimação em comentários na TV, no rádio e na mídia impressa, cada vez que uma negociação é efetivada.

E a própria qualidade dos jornalistas acabou afetada por essa maximização do capitalismo no esporte: são simplesmente incomparáveis os grandes especialistas em futebol do passado – com alguns remanescentes hoje, tais como como Jorge Kajuru, José Trajano e Juca Kfouri -, que além da maestria em analisar a modalidade esportiva ainda colocavam no contexto de suas ideiais questões políticas e sociais como deve ser, em relação aos aloprados do presente, panfletários e polemizadores mais rasos que palram o dia inteirinho sobre futebol, sem acrescentar absolutamente nada a não ser expor sua própria imbecilidade, a mais evidente ausência da visão de mundo e do próprio esporte.

E como esporte tem tudo a ver com sociedade e política, conforme o óbvio sugerido acima, tal sistema ratificado por jornalistas alienados e elitistas acaba também retirando a identidade nacional do futebol, além de afastar os setores populares, as massas de torcedores apaixonados dos estádios, transformados em “arenas” com shopping centers, boates etc.

Edu Montesanti

FONTE: Global Research

É possível eliminar a pobreza rural?

 A miséria na roça persiste como um dos grandes desafios que deve vencer a humanidade no intuito de atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em 2030.

Conforme especialistas das Nações Unidas, com um número estimado de 815 milhões de pessoas no mundo todo que ainda padecem fome crônica (deles 750 milhões no campo) e mais outros milhões que vivem na pobreza, ainda fica muito por fazer.

Os especialistas afiram que as metas para pôr fim à pobreza e atingir o objetivo da fome zero para 2030 só seria possível caso se fomentar um crescimento econômico mais inclusivo, notadamente na roça.

Sobre isso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), estima que o desenvolvimento rural tenha sido, e será fundamental para eliminar a fome e a pobreza. O organismo internacional considera que para reduzir a pobreza é preciso iniciar transformações e estas devem se centrar no indivíduo, em termos de educação, saúde, cultura e bem-estar, conseguindo reter assim à população na zona.

Argumentam por exemplo, que no passado as transformações numa economia apoiada na agricultura para uma que se apóia na indústria e os serviços geraram uma migração a grande escala do meio rural ao urbano.

Além disso, a industrialização, principal fator impulsionador das anteriores transformações, não se está produzindo na maioria dos países da África subsaariana, e fica atrasado na Ásia meridional.

A rápida urbanização da África subsaariana não foi acompanhada de um crescimento comparável nos setores manufatureiro e dos serviços modernos.

Assim, aqueles que abandonam a agricultura de baixa produtividade passam principalmente a se dedicar a atividades informais em serviços de escasso rendimento nas zonas urbanas.

O FUTURO, ELEMENTO NA EDUCAÇÃO

Nos próximos decênios, a África subsaariana em particular se enfrentará a grandes aumentos de sua população jovem e ao desafio de encontrar-lhes emprego.

Prevê-se que desde esta altura até 2030 a população desse continente e da Ásia, crescerá de cinco bilhões 600 milhões de indivíduos a mais de seis bilhões e 600.

Segundo cálculos, além disso, nesse período o número de pessoas em idades entre 15 e 24 anos aumentará aproximadamente em 100 milhões. Quase todo este incremento se produzirá na África subsaariana e, notadamente nas zonas rurais.

Com um crescimento sem precedentes de suas populações jovens, muitos países de receitas baixas se enfrentarão ao desafio de proporcionar emprego decente aos milhões de seres que se inserem aos seus mercados trabalhistas.

Neste sentido, a FAO alerta que 500 milhões de pequenos agricultores do mundo correm o risco de ficar atrasados nas transformações estruturais e rurais.

Adverte, aliás, que os agronegócios que dominam os mercados mundiais de insumos oferecem poucos incentivos à criação de tecnologias para os pequenos agricultores de escassos recursos dos países em desenvolvimento.

Contudo, os agricultores em pequena escala e os da agricultura familiar produzem 80 por cento do fornecimento de alimentos na África subsaariana e na Ásia, e se necessitam urgentemente investimentos para melhorarem sua produtividade.

Especialistas coincidem em que em inúmeros países de receitas baixas e médias, a pobreza e suas conseqüências (a fome e a desnutrição) se acrescentam pelo rápido crescimento demográfico, a mudança climática e outras questões globais que agravam a situação e obstam o desenvolvimento rural.

Reconhecem igualmente que o descuido oficial e a falta de políticas públicas adequadas são os principais responsáveis pela miséria e desproteção dos moradores das zonas rurais.

Segundo o Banco Mundial, no planeta há uns dois bilhões de pobres e não menos de 700 milhões ainda classificam na extrema pobreza. Desta cifra quase 75 por cento vive nas zonas rurais e depende da agricultura para sua subsistência e segurança alimentar.

Também, freqüentemente se vê condicionada pelo acesso limitado aos recursos, serviços, tecnologias e opções econômicas, diminuindo a produtividade agrícola e as ganâncias nas zonas rurais.

Recentemente o diretor geral da FAO, José Graziano Da Silva, asseverou que mediante o apoio à agricultura familiar é possível transformar um setor que se viu envolvido negativamente com a questão da fome e se tornando parte da solução.

Para reduzir a pobreza rural, o organismo pede em primeiro lugar abordar as limitações estruturais às que se enfrentam as famílias agrícolas pobres, aumentando seu acesso aos recursos naturais e outros bens.

Também tenciona ajudar a melhorar sua capacidade para gestar os riscos e aumentar sua produtividade, envolver a agricultura em pequena escala aos mercados e sistemas alimentares, e impulsionar a pesca como fonte de proteínas sadias e de empregos e ingresso.

Do mesmo jeito, criar emprego não agrícola decente para a população pobre na agricultura e a economia rural não agrícola; estabelecer sistemas de amparo social e ampliá-los, fomentar infra-estruturas de energia, transporte, água e saneamento.

Em recente foro da FAO sobre a América Latina e o Caribe, decorrido em Montego Bay, Jamaica, no qual participaram mais 600 funcionários e especialistas desse e outro organismo se assinalou que o investimento na agricultura em pequena escala impacta mais na redução da pobreza que noutros setores.

Roberto Salomón

FONTE: Prensa Latina

terça-feira, 29 de maio de 2018

Dez previsões de Karl Marx que definem o século XXI

CADA vez que ressoam os alarmes de uma crise econômica, disparam-se as vendas dos livros de Karl Marx. E é que poucos como este pensador alemão do século XIX, perceberam o funcionamento do capitalismo e suas consequências para a humanidade.

Ainda que a maquinaria hegemônica tente anular as análises de Marx e decretar a morte das ideias às quais dedicou sua vida, o marxismo resiste a prova do tempo e confirma sua validez, não só como método para entender o mundo, mas também como ferramenta para transformá-lo.

Completando-se se dois séculos após o seu nascimento, o jornalGranma Internacional partilha dez previsões de Karl Marx que estão marcando o ritmo do século XXI.

1. A CONCENTRAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO DO CAPITAL

No livro O Capital, sua obra de topo, Marx define o método de reprodução das riquezas no capitalismo e prevê a tendência de se concentrar e centralizar.

Se o primeiro aspeto se refere à acumulação da mais-valia — o extra do trabalho dos operários, que é apropriado pelo proprietário — o segundo termo consiste no aumento do volume do capital, em consequência da mistura de vários capitais em um, quase sempre pelo resultado das falências ou as crises econômicas.

As implicações desta análise são demolidoras para os defensores da capacidade da «mão cega do mercado» para distribuir as riquezas.

Tal como previu Marx, uma das características do capitalismo no século XXI é a crescente diferença entre ricos e pobres. Segundo o último relatório da Oxfam, 82% da riqueza mundial gerada durante 2017 ficou nos bolsos de 1% mais rico da população, entretanto 50% mais pobre — 3.7 bilhões de pessoas — não recebeu nada deste crescimento.

2. A INSTABILIDADE DO CAPITALISMO E AS CRISES CÍCLICAS

O filósofo alemão foi um dos primeiros que percebeu que as crises econômicas não eram erros do sistema capitalista, mas sim uma das suas características intrínsecas.

Ainda hoje se tenta vender uma ideia bem diferente.

Contudo, desde a queda da bolsa de 1929 até a crise dos anos 2007 e 2008, há uma clara linha de comportamento que seque as diretrizes traçadas por Marx. Daí que, inclusive, os magnatas de Wall Street terminem apelando às páginas de O Capital para acharem algumas respostas.

3. A LUTA DE CLASSES

Talvez uma das ideias mais revolucionárias do marxismo fosse sua compreensão de que «a história de todas as sociedades até hoje, é a história da luta de classes», como se lê no Manifesto Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, no ano 1848.

Essa tese pôs em crise o pensamento liberal. Para Marx, o Estado capitalista é mais uma ferramenta da classe hegemônica para dominar o resto, ao tempo que se reproduzem seus valores e sua própria classe.

Século e meio depois, ainda se estão travando as lutas sociais entre 1% que segura as rédeas do poder e os outros 99%.

4. O EXÉRCITO INDUSTRIAL DE RESERVA

O capitalista, segundo Marx, tem a necessidade de manter baixos os salários para aumentar a produtividade. Isso pode consegui-lo sempre que houver algum trabalhador que espera ocupar a posição daquele que não aceita as condições. Este mecanismo foi chamado de «Exército industrial de reserva».

Embora as lutas sociais e sindicais, desde o século XIX até hoje, mudassem parte dessa situação, sobretudo, nas nações desenvolvidas, a procura de baixos salários continua sendo uma constante do setor empresarial.

Durante o século XX as grandes companhias manufatureiras da Europa e os Estados Unidos migraram para a Ásia, procurando força de trabalho qualificada e disposta a cobrar menos.

Embora governos recentes tentassem mostrar uma suposta perda de empregos nesse processo, tal como acontece com a administração de Donald Trump, nos Estados Unidos, certamente as companhias conseguiram manter suas altas taxas de crescimento graças à exploração dessa mão de obra barata.

Relativamente aos salários, estudos atuais demonstram que seu poder aquisitivo, em termos do que realmente se pode comprar e não do seu valor nominal, vem decrescendo, nos últimos 30 anos, nos países ocidentais.

E essa diferença ainda é maior entre os executivos e os empregados inferiores.

Segundo um artigo publicado pela revista britânica The Economist, ao passo que o pagamento dos trabalhadores em países como os Estados Unidos se paralisa, o salário dos máximos executivos aumenta significativamente: agora cobram 40 vezes mais do que a média a obter lucros 110 vezes mais.

5. O PAPEL NEGATIVO DO CAPITAL FINANCEIRO

Se bem Marx descreve os mecanismos de exploração inerentes ao processo de acumulação do capital, é especialmente crítico com o capital financeiro, aquele que não tem um referente direto material na economia, mas que é criado de forma fictícia, como pode ser uma nota promissória ou uma obrigação da dívida.

Na época de Marx nem se podia pensar no nível de desenvolvimento que viria a atingir este setor da economia na modernidade, graças ao uso de computadores para realizar transações financeiras à velocidade da luz.

A especulação e a elaboração de complexos mecanismos financeiros — como os chamados de subprime, que deram pé à crise de 2007-2008 — são atualmente, uma veraz confirmação das preocupações de Marx.

6. A CRIAÇÃO DE NECESSIDADES FALSAS
O século XIX ainda não havia visto o aparecimento da avalanche de propaganda comercial no rádio e na televisão, e muito menos os mecanismos modernos para personalizar as mensagens publicitárias na Internet, mas já Marx previa a capacidade do sistema capitalista para gerar alienação e necessidades falsas entre as pessoas.

«O alcance dos produtos e as necessidades se tornam uma espécie de estimativa e confabulação da servidão de sofisticados apetites imaginários, desumanos e inaturais», previu Marx, há mais de 150 anos.

No mundo atual os telefones se tornam obsoletos em alguns meses e a publicidade é responsável por convencer os clientes a comprarem o seguinte modelo. No entanto, os aparelhos eletrodomésticos saem com a obsolescência programada para deixar de funcionar aos poucos anos e criar a necessidade da sua renovação.

7. A GLOBALIZAÇÃO

«Encorajada pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade o mundo todo. Necessita penetrar por todas as partes, estabelecer-se em todos os locais, criar inúmeras formas de comunicação», asseveraram Marx e Engels no Manifesto Comunista.

Sua percepção da globalização dos mercados, acompanhada pela imposição de uma cultura determinada pelo consumo, não poderia ser mais exata.

8. O PAPEL DE PROTAGONISTAS DOS MONOPÓLIOS

Ao mesmo tempo, essa tendência é acompanhada da criação de monopólios transnacionais. Se bem que a teoria econômica liberal clássica assumia que a concorrência manteria a variedade de proprietários, Marx foi um passo mais adiante e identificou a tendência do mercado à fusão, com predominância da lei do mais forte.

Grandes conglomerados da mídia, companhias telefônicas e petroleiras são alguns dos exemplos atuais do processo descrito pelo marxismo.

9. A TENDÊNCIA SUICIDA DO CAPITALISMO
«Tudo o que é sólido se esvai no ar», resulta uma das reflexões mais pré-claras acerca do capitalismo no Manifesto Comunista.

Marx e Engels perceberam a natureza criativa e, ao mesmo tempo, autodestrutiva do capitalismo, o qual, na procura de produtividade ao preço que for, impõe um ritmo desumano de produção e consumo.

É precisamente essa tendência a que atualmente tem nosso planeta à beira do colapso.

É uma realidade cientificamente demonstrada o impacto do homem no aumento da temperatura global, embora alguns presidentes, como o dos Estados Unidos, continuassem negando.

10. A CAPACIDADE REVOLUCIONÁRIA DOS EXPLORADOS

O maior impacto de Marx na história não foi sua profunda analise acerca das contradições do capitalismo, mas seu apelo à construção de um novo tipo de sociedade: o comunismo.

Sua mensagem acerca de que as classes exploradas têm a capacidade de se revoltarem contra a opressão e a inequidade fez mudar para sempre o século XX e inspirou revoluções na Rússia, China, Vietnã e Cuba, entre outros países. Seu apelo à unidade das classes exploradas mantém plena vigência no século XXI.

Sergio Alejandro Gómez

FONTE: Granma Internacional

O Che e a economia mundial

As investigações quanto ao pensamento de Ernesto Che Guevara sobre a economia são numerosas, mas raras são aquelas que abordam a sua dimensão respeitante à economia mundial* . De facto, este aspecto é frequentemente deixado de lado, relegado a um plano secundário em relação às posições que ele exprimiu a propósito da política internacional e portanto também compreendido – até mesmo manipulado, tanto para opô-lo artificialmente a Fidel Castro como para virá-lo contra a URSS.

O Che não era economista (de formação acadêmica); talvez tenha sido isto que lhe permitiu pensar tomando vias heterodoxas, recolocar em causa verdades estabelecidas em economia, aventurar-se em reflexões originais e corajosas na época. A realidade das suas responsabilidades no seio da direção da revolução cubana (comandante militar, dirigente do Banco Central, ministro da Indústria, ...) obrigou-o a articular, nesta dimensão internacional, a dimensão nacional das questões estudadas. Seu pensamento sobre a política internacional não pode ser separado daquele sobre a economia mundial.

Comecemos por um ponto crucial: o Che apoia-se, nos seus raciocínios, sobre o aparelho teórico-prático do marxismo-leninismo. Ele era, agrade-se ou não, comunista. Mas ele manifestou muito cedo uma certa inquietação face à insuficiência do socialismo realmente existentes para desenvolver seus próprios mecanismos econômicos para reforçar a sua posição na competição que lhe impunha o sistema capitalista, dominante à escala mundial. Ele disse certa vez: "pertenço pela minha formação ideológica ao campo dos que pensam que a solução para os problemas do mundo encontra-se atrás da cortina de ferro". Mas não hesita em criticar a utilização não crítica de relações mercantis e monetárias no quadro das reformas postas em ação na URSS na década de 1960 – como igualmente também o fez Fidel, por exemplo, no seu discurso do 6º aniversário da revolução cubana (1965). É nesta óptica que é preciso interpretar os apelos lançados pelo Che aos países socialistas para apoiarem os países do Terceiro Mundo e para formarem em conjunto uma frente comum, a fim de modificar as relações de forças mundiais em favor do bloco progressista, em particular para fornecer aos países que acederam à independência os meios de disporem de um escudo de proteção face à agressividade do imperialismo.

O Che certamente rejubilava-se com a divisão do sistema mundial – e com o enfraquecimento das posições capitalistas – após o acesso à independência política de países do Terceiro Mundo; mas também se mostrava preocupado frente às grandes dificuldades destes países para consolidar a sua independência política, tão pungente como era a dependência econômica em relação às suas antigas potências coloniais. No seu discurso de Argel de Fevereiro de 1965, pronunciado por ocasião do 2º Seminário Econômico Afro-Asiático, o Che declara: "Cada vez que um país se liberta, isto é uma derrota para o sistema imperialista mundial, mas o facto de chegar a arrancar-se deste sistema não pode ser considerado como uma vitória pela simples proclamação da independência, ou mesmo o triunfo de uma revolução pela armas: não há vitória senão quando a dominação imperialista cessa de se exercer sobre um povo".

Compreender isto exige por em interação as dimensões nacional e internacional, pois a base nacional dos países em causa é o subdesenvolvimento. O Che assim o define: "Um anão com cabeça enorme e o peito estreito é 'subdesenvolvido' no sentido de que as suas pernas fracas e seus braços curtos não são proporcionais ao resto da sua anatomia. O subdesenvolvimento é o produto de um fenômeno teratológico [ou seja, relativo à ciência das anomalias da organização anatômica, congênita e hereditária, dos seres vivos... o Che também era médico!] que distorceu seu desenvolvimento. Eis o que somos, nós que somos qualificados com tanta delicadeza como 'subdesenvolvidos': países coloniais, semi-coloniais e dependentes, países cujas economias foram deformadas pela acção imperial, a qual desenvolve anormalmente ramos industriais e agrícolas em complemento da sua própria economia imperial. O subdesenvolvimento, ou desenvolvimento disforme, implica perigosas especializações no setor das matérias-primas, que mantêm nossos povos sob a ameaça da fome. Nós os "subdesenvolvidos" somos também os países da monocultura, da mono-produção, do mono-mercado".

Portanto o Che não caracteriza somente a realidade sócio-econômico dos países do Terceiro Mundo na sua componente interna; ele explica também os fatores que condicionam esta situação no plano internacional, na sua componente externa. Estes países são deformados, diz ele, porque são explorados. Isto é uma contribuição teórica, em relação ao corpus da economia do desenvolvimento dos anos 1950. Mas é também, num certo sentido, um avanço em relação ao próprio Marx, na medida em que, por longo tempo, Marx e Engels acreditaram que a expansão mundial do sistema capitalista, irremediável, conduziria a homogeneizar o mundo, para nele generalizar a esta escala global a oposição de classes burguesas / proletárias, ou seja, o antagonismo fundamental. Ainda que Marx e Engels tenham, em certos casos, tentando articular exploração de classes e dominação de nação a nação. Ao insistir sobre esta dominação internacional o Che é pois, neste sentido, muito leninista.

Segundo a definição do subdesenvolvimento que ele propõe, as economias do Terceiro Mundo não são apenas deformadas – caso em que diversas soluções poderiam então ser encontradas. O que é mais grave é que estas economias são dependentes e que a sua dominação do exterior determina a reprodução das condições que engendram e explicam o subdesenvolvimento. De facto, este subdesenvolvimento não é senão a forma distorcida que toma no Sul o desenvolvimento nos países capitalistas do Norte. A natureza do sistema capitalista é portanto contraditória: este sistema produz no mesmo movimento desenvolvimento num pólo e subdesenvolvimento no outro pólo. Para o Che, era preciso em consequência insistir sobre a necessidade da independência econômica dos países do Sul como meio de impedir a sua recolonização econômica ou neo-colonização pelo Norte.

Mas é preciso compreender os mecanismos específicos do neocolonialismo, que sabe reconhecer a independência de Estados, formais, permanecendo dependentes. Numa conferência de 20 de Março de 1960 para a "Universidade Popular", em Cuba, o Che diz: "Os conceitos de soberania política e nacional permanecem ficções se não se produz também a independência econômica". Ele percebe a importância maior da contribuição dos países socialistas ao esforço dos países do Terceiro Mundo para atingir esta independência econômica. É isto que o leva a dizer: "O desenvolvimento dos países subdesenvolvidos deve custas aos países socialistas...". Esta citação é frequentemente apresentada, mas truncada, e sobretudo desviada com a intenção de apresentar um Che oposto aos países socialistas da época, hostil à URSS. De facto, insiste ele, pouco tempo depois, sobre a responsabilidade que cabe também aos países do Terceiro Mundo de chegar à independência econômica e contribuir para consolidar as forças revolucionárias, acrescentando: "... mas estes países subdesenvolvidos devem também mobilizar-se e empenhar-se resolutamente no caminho da construção de uma sociedade nova. Não seria possível ganhar a confiança dos países socialistas tentando encontrar um equilíbrio entre capitalismo e socialismo, utilizar estas duas forças em contrapeso uma da outra para extrair algumas vantagens da sua colocação em concorrência". Eis o que também está claro desde o princípio da citação – ainda que esta clareza perturbe alguns...

Ele também analisa os instrumentos utilizados pelo imperialismo para submeter e explorar estes países do Terceiro Mundo e sublinha o papel dos investimentos estrangeiros na tomada de controle dos recursos naturais do Sul, ou o da troca desigual no comércio mundial. Assim, pode ser considerado precursor das ideias terceiro-mundistas de defesa da soberania do Sul sobre suas atividades econômicas – reivindicação que se generalizou a seguir, nos anos 1970. Ele põe igualmente ênfase no problema da dívida externa, no princípio da década de 1960, antecipando a crise que explodirá 20 anos mais tarde. Isto é uma outra contribuição do Che.

Por ocasião da 1ª reunião do CNUCED , em 1964 em Genebra, denuncia os princípios – fictícios segundo ele – da igualdade formal entre países, da reciprocidade nas relações comerciais, assim como a injustiça da ordem econômica mundial, cuja transformação exige. Propõe estabelecer uma ligação entre preços das matérias-primas e pagamentos de dividendos e de juros que antecipa a ideia da indexação dos preços das matérias-primas sobre os dos produtos manufaturados, que a CNUCED em breve iria promover.

A chave do raciocínio de Ernesto Guevara é a identificação entre luta contra o subdesenvolvimento, luta contra o imperialismo e luta contra a ordem mundial tal como ela é. Segundo ele, a ultrapassagem do subdesenvolvimento não pode ser separada do anti-imperialismo, pois o imperialismo é o obstáculo que reproduz a dependência do Sul. Mas, ao mesmo tempo, não se pode lutar contra o imperialismo sem quebrar, concretamente, os instrumentos de exercício do seu poder. Eis porque ele apela a uma "nova ordem mundial" e – para chegar a esta transformação – a uma unidade do Terceiro Mundo. Em Argel, em 1965, declara: "Se o inimigo imperialista estado-unidense ou não importa qual outro, prossegue sua acção contra as nações subdesenvolvidas e os países socialistas, uma lógica elementar exige a necessidade da aliança dos povos subdesenvolvidos e dos países socialistas". E portanto, "se não houvesse outro fator de união, o inimigo comum deveria constituir um".

Chegamos agora a um ponto delicado, que é preciso abordar para afastar um mal-entendido. A importância que o Che concedeu às relações Norte-Sul levou alguns comentadores a leituras erróneas do seu pensamento; como quando se fez acreditar que, segundo ele, a verdadeira contradição não residiria entre capitalismo e socialismo, mas entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. É preciso entender que, se o Che sublinhou muitas vezes o papel determinante das relações Norte-Sul, ele não fez desaparecer com isso as relações de classes. Já o disse: o Che era comunista, marxista-leninista. Seus escritos e discursos tendem todos para o objetivo do advento do socialismo mundial. Nisto, ele é muito marxista. Pois é difícil, senão impossível, apreender o pensamento de Marx, político mas também teórico, sem o conectar sistematicamente a esta convicção da vitória mundial do socialismo.

Mas o Che põe os países socialistas diante da sua responsabilidade. Ele estava consciente da exigência de consolidar as posições do socialismo mundial e critica as acções que corriam o risco de afastar os países subdesenvolvidos do socialismo. Ele fala mesmo de troca desigual entre países socialista e Terceiro Mundo, assim: "Se estabelecemos este género de relações [de troca desigual] entre estes dois conjuntos de países, deveremos convir que os países socialistas são, de uma certa maneira, cúmplices da exploração imperial. Pode-se argumentar que o montante das trocas com países subdesenvolvidos representa uma parte insignificante do comércio exterior destes países. Isto é perfeitamente verdadeiro, mas não elimina o caráter imoral da troca". E a concluir: "Os países socialistas têm o dever moral de liquidar toda cumplicidade com os países exploradores ocidentais". Era corajoso. Mas isso não faz do Che, longe disso, um inimigo da URSS. Pois isto não foi a realidade. O Che não é mais complacente, ou menos crítico, em relação aos países do Terceiro Mundo, aos quais se dirige para que liquidem sobre seus territórios as ferramentas de exercício do poder efetivo do imperialismo e para que decidem "empenhar-se resolutamente no caminho da construção" do socialismo. A tarefa histórica dos povos do Sul consiste pois em eliminar as bases do imperialismo nos seus países, ou seja, todas as fontes de lucros, de extração de matérias-primas ou de abertura dos mercados.

Para o Che, o inimigo é o imperialismo, considerado em simultâneo como um sistema mundial – assim como ele o diz na sua mensagem à Tricontinental: "O imperialismo é um sistema mundial, última etapa do capitalismo, que se trata de vencer por uma grande confrontação mundial", e como sistema dinâmico, adaptando-se às condições cambiantes do mundo e utilizando ferramentas sempre inovadoras a fim de atingir seus objetivos de destruição dos países do Sul – é o que declara na conferência da Organização dos Estados Americanos de 1961. Daí a sua estratégia revolucionária: a luta dos povos deve ser multidimensional, global, longa, mobilizar todos os países explorados pelo imperialismo, posicionar-se sobre todos os terrenos. Os imperialismo, o estado-unidense primeiro, é o inimigo comum da humanidade e, frente a ele, os países socialistas e os progressistas devem-se unir, quaisquer que sejam suas divergências pontuais. Tais divergências são uma fraqueza mas, sob os golpes do imperialismo, a união impor-se-á.

Cinquenta anos se passaram desde a morte do Che. O mundo mudou enormemente desde então, mas o essencial do seu pensamento sobre a economia mundial conserva, creio, sua atualidade e pertinência. 

Rémy Herrera (**)

(*) Citamos aqui, além da Obras Escogidas do próprio Che, editadas pelas Ediciones Ciencias Sociales (Havana), os trabalhos do grande economista cubano Silvio Baro, ao qual o presente artigo muito deve e que lhe é dedicado.
(**) Investigador do CNRS, Centre d'Économie de la Sorbonne.

Variantes de golpes suaves e coincidências da direita

Os últimos anos na América Latina têm sido marcados por uma ofensiva neoliberal contra os governos progressistas que mobilizaram os povos da região em busca da integração, da justiça social e redução da pobreza.

Diante desta onda de mudanças em favor das grandes maiorias produziram-se vários tipos de 'golpes suaves' liderados pelas direitas nacionais na execução de um esquema traçado há anos pelos estrategas da Agência Central de Inteligência (CIA) em Washington.

O velho 'Plano Condor', executado por governos ditatoriais na década dos anos 70 e 80, conseguiu eliminar fisicamente muitos dirigentes da esquerda regional e desarticular partidos políticos e organizações progressistas na América do Sul.

A reação popular ante estes crimes reverteu a situação no final do século passado e início do atual e colocou no poder, mediante o mecanismo eleitoral, governos progressistas na Venezuela, Argentina, Brasil, Equador, Bolívia, Paraguai, Nicarágua e El Salvador.

Sem ignorar erros na condução de alguns destes processos, no Brasil a direita conseguiu derrubar o governo de Dilma Rousseff através de um golpe judicial e pretendem agora impedir a candidatura do ex-presidente Lula da Silva com um julgamento e condenação sem provas.

A Argentina, que saiu de uma longa noite neoliberal com os presidentes Néstor Kirchner e Cristina Fernández, perdeu as eleições em 2015 enfrentando o candidato empresarial Mauricio Macri, que derrubou as conquistas populares alcançadas e colocou o país em crise novamente.

Com diferentes variantes, a direita retornou a posições de governo no Paraguai, e, mediante o mecanismo eleitoral, alianças e movimentos populares revolucionários cederam cargos e posições a partidos tradicionais e empresários no Equador e em El Salvador.

Na Nicarágua, o governo da Frente Sandinista, eleito com alto apoio popular nas eleições de 2016, com mais de 70 por cento dos votos válidos, enfrenta hoje uma profunda crise que tem conseguido desestabilizar o país e romper a habitual tranquilidade da população.

Venezuela, apesar da guerra econômica e das tentativas de golpe de Estado e desestabilização que enfrenta desde a chegada ao poder, pela via eleitoral, do presidente Hugo Chávez em 1998, conseguiu este mês a reeleição do presidente Nicolás Maduro, com 68 por cento de votos e seu povo se mantém firme na defesa de suas conquistas.

E Bolívia, país que lidera o crescimento econômico na América do Sul durante os últimos anos e possui impressionantes cifras de redução da pobreza, enfrenta desde 2006 tentativas da direita para dividir o país e impedir a reeleição popular de Evo Morales em 2019.

Cabe se perguntar: Quais são os traços comuns que estabelecem um padrão neste novo Plano Condor cujo novo objetivo não é matar dirigentes, mas desmoralizá-los ou desabilitá-los para continuar no poder?

Um primeiro aspecto da cartilha de Washington é a expansão e sobreposição de conflitos que impeçam os governos progressistas se concentrar nos objetivos transformadores que reivindicam as massas populares ao elegê-los.

Ao surgir um conflito, de maneira incrivelmente 'coincidente' os principais meios de comunicação, em poder da direita, propiciam potenciá-lo, e antes que este chegue ao seu clímax a direita faz surgir um novo conflito, e assim sucessivamente.

Um segundo ponto é buscar pretextos para desqualificar moralmente os dirigentes populares, em especial os líderes dos processos de mudança social e seu meio, mediante tentativas de vinculá-los a atos de corrupção, imoralidade ou inaptidão para governar.

O princípio exposto por Joseph Goebbels, ministro de Propaganda de Adolf Hitler, de que uma mentira repetida mil vezes acaba por ser considerada verdade, é o mecanismo utilizado para esse objetivo, agora com o domínio que têm das redes sociais que manipulam o perfil de todos os seus usuários para influir melhor na matriz de opinião.

Um terceiro ponto comum é a 'fabricação' de mártires dos protestos sociais, cujas mortes na Venezuela foram comprovadas como obra de franco-atiradores dos opositores contra seus próprios seguidores para imputar o crime às forças policiais ou aos defensores do governo.

O quarto aspecto comum nas receitas de Washington reveladas em vários documentos públicos é romper a tranquilidade da população e semear o terror através de grupos organizados: 'guarimbas' na Venezuela, 'maras' em El Salvador ou ligas na Nicarágua, entre outras formas de promover violência.

O quinto e não menos importante, é o respaldo de organismos internacionais e do governo dos Estados Unidos para boicotar as tentativas integracionistas regionais e ameaçar com sanções os governos progressistas, aplicando a clássica 'cenoura e o garrote'.

O financiamento exterior e das direitas locais às tentativas desestabilizadoras pretende ocultar-se sob o manto de 'apoios populares' e o indispensável 'manto protetor' dos meios de comunicação, propriedade da direita ou comprometidos com ela.

Muitas arestas tem este novo Plano Condor. O tema está aberto.

FONTE: Prensa Latina