Governo Temer: circo, pão e pau

Diante dessa situação, a luta de resistência deve ser a base para a constituição de um programa de emergência unitário e um movimento de caráter revolucionário, antineoliberal, antifascista e pelo socialismo.

Desmonte da Petrobrás compromete desenvolvimento do Ceará

O desmonte da maior empresa brasileira – a Petrobrás – caminha a passos largos, com a mesma desfaçatez do golpe que tinha como objetivo realizá-lo.

CIA sempre esteve de olho no petróleo brasileiro

Relatórios disponibilizados pela CIA desde o final do ano passado permitem traçar um histórico do monitoramento a respeito da exploração do petróleo brasileiro.

Carta de Snowden: Denúncia é um ato de resistência

Última carta publicada pelo ex-agente secreto estadunidense.

China: O mito do “Socialismo de Mercado”

“A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo” Lênin.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Cordel: Jesus no Pé de Goiaba


O Poeta do Absurdo,
O famoso Zé Limeira,
Que morreu há muitos anos,
Baixou na segunda-feira
Por aí numa sessão
E falou da aparição
De Jesus na goiabeira.

Nunca falta gente para
Dizer quando o mundo acaba,
Mas segundo Zé Limeira,
Desta vez ele desaba,
Pois para o mundo acabar
Só faltava alguém achar
Jesus num pé de goiaba.

Limeira disse: “Meu povo,
Me preste bem atenção:
Vai surgir uma maluca
Dizendo na ocasião
Para o povo brasileiro
E também ao mundo inteiro,
Como foi essa visão.

Seu nome é Damares Alves,
É mais doido quem crê nela,
Pois Jesus, em toda a vida,
Não caiu na esparrela
De subir em goiabeira,
Pé de coco ou de mangueira,
Cajá ou seriguela.

Segundo eu fiquei sabendo,
Durante uma seca braba
De matar cachorro a grito,
Quando a fome não se acaba,
Sem ninguém a socorrer,
Ela resolveu encher
O seu bucho de goiaba.

Procurou um pé bem grande,
Que uma grande safra deu,
Subiu no pé e duzentas
Goiabas logo comeu;
Ao ficar de bucho cheio
Sofreu um grande aperreio
E Jesus lhe apareceu.

E quando ela percebeu
Que ele queria subir,
Disse assim: ‘Não suba, mestre,
Pois o senhor vai cair.
Por favor, não suba’ – ‘Eu subo!’ –
‘Se subir, eu lhe derrubo,
É melhor não insistir!’.

E permaneceu a teima
Que quase não mais acaba,
Ela descendo e subindo
Ligeiro que nem piaba,
E brigando sem parar,
Somente para não dar
A Jesus uma goiaba.

Porém, quando o mestre viu
Que não era brincadeira
Aquela doida escanchada
Num galho de goiabeira,
Virou as costas pra ela,
Tirou seu par de chinelas,
Meteu o pé na carreira.

A doida saiu correndo,
Sem ninguém na sua frente,
Pois o Jesus que ela viu
Encantou-se de repente.
Porém ela, sem cessar,
Na carreira foi parar
Numa assembleia de crente.

Lá fez um grande discurso,
E disse: ‘Eu vi, meus irmãos,
Jesus no pé de goiaba
Trazendo um saco nas mãos.
Vou contar à freguesia
Qual foi sua profecia
Para todos os cristãos.

Ele disse que o Brasil
Ingressava numa era
De guerra e de violência,
Que ninguém jamais espera;
Vai ficar mesmo arrasado,
Porque vai ser governado
Pela velha besta-fera.

Disse que o novo governo
Será bandido e hostil,
Que o povo pobre será
Escravizado e servil,
E aquele que não for liso
Se tiver algum juízo,
Convém fugir do Brasil.

Ele também afirmou
Nessa sua profecia,
Que para algum ministério
Eu indicada seria,
Com maravilhoso ganho!
Ninguém calcula o tamanho
Que foi a minha alegria!

Ele disse tanta coisa,
Antes de dizer adeus,
Por exemplo: que o povão,
Conforme os dizeres seus,
Com Mais Médicos falido,
Será agora assistido
Pelo médium João de Deus.

E foram tantas palavras,
Que não consigo lembrar.
A visão foi muito rápida,
Não pude tudo gravar.
Só sei que o mestre profundo
Garantiu que o fim do mundo
É quando o mundo acabar’”.

Não se sabe se é mentira
Ou história verdadeira.
Na bíblia não consta nada
De Jesus em goiabeira.
Contudo, convém lembrar:
Não se deve duvidar
Do poeta Zé Limeira.

Salve o Natal e Jesus,
Seu exemplo justo e sério!
Este cordel não pretende
Fazer nenhum vitupério,
Pois só visa unicamente
Mostrar o tipo de gente
Do futuro ministério.

Pedro Paulo Paulino

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

CORDEL: ABC DO TOURO AFOGADO

AFOGADO é o meu nome.
Lancei-me às ondas do mar.
Meu sonho era viver livre,
Sem ninguém pra me abusar.
Fugi, vivi cinco dias
Fora das baias sombrias.
Ninguém pôde me pegar.

BARBATÃO do novo século,
Não me rendo ao cativeiro.
Sou parente do Boi Prata,
Do Espácio, do Mandingueiro.
O Mão de Pau eu copio,
Do Rabicho sigo o fio,
Não dou cartaz a vaqueiro.

CONTO aqui, neste ABC,
O caso que sucedeu,
Quem foi o Touro Afogado
Como viveu e morreu:
Tinha três anos de idade,
Nasceu preso, isso é verdade,
Porém, livre faleceu.

DESTINADO a procriar,
Tantos bezerros gerei
Que a conta total de filhos
É coisa que eu nunca sei.
Centenas de bois criados,
Mil embriões congelados,
Aos quais meus genes passei.

EMBORA tamanha prole
De mim veio a existir,
Nenhuma vaca sequer
Jamais eu pude cobrir,
Pois sempre no ato do coito
Surgia um peão afoito
Pro meu sêmen extrair.

FALTA de água ou de comida
Não passei na Gameleira.
Mas ração e suplementos
Regrados a vida inteira
É coisa que dá gastura.
Enfim, solto na verdura
Pastei pela vez primeira.

GRANDE foi minha alegria
Quando fui a Salvador.
Sempre quis ver a cidade.
Como alguém do interior
Meu sonho era ver o mar,
Em suas águas banhar
E sentir o seu sabor.

HORA que eu ia descendo
De cima do caminhão
Para ser vendido ali,
No parque de exposição,
O tratador descuidou
E como mãe me ensinou
Da sorte não abri mão.

INVESTI com toda a força
De zebu de que disponho
Puxando a corda da mão
Do condutor que, bisonho,
Soltou-me sem resistir
E quando me viu fugir
Soltou um grito medonho.

JÁ pensou se todo bicho
Que tem força mas é manso
Pudesse raciocinar,
Fazendo um simples balanço
Do potencial que tem?
Não teria pra ninguém,
Gente não tinha descanso!

LIVRE de cordas, cabresto,
Desembestei pelas ruas
Até que logo avistei
Um par de alvas dunas, nuas
Com alguns pontos de relva
E uma pequena selva
Que no chão unia as duas.

ME embrenhei naquelas matas
Comendo o pasto praiano.
Comi que me repastei
Fora de controle ou plano.
Comi só vegetação,
À noite deitei no chão.
Dormi sob o céu de Urano.

NADA igual ao que deixei
Em Teodoro Sampaio.
Pensei, no dia seguinte,
“Naquela prisão não caio;
Não voltarei pra fazenda,
Vivo solto ou viro lenda!
Peguei gosto nesse ensaio”.

OUTRA coisa é viver solto,
De acordo co’ a natureza.
Quem é preso não conhece
Alegria nem beleza.
Todo curral é prisão,
Campo de concentração,
Reino de dor e tristeza.

PENSE num bezerro novo
Que da vaca é apartado
Muitas vezes logo após
Que ao mundo vem. O coitado
Bebe leite em mamadeira
Enquanto a matriz leiteira
Só produz para o mercado.

QUANTAS vezes eu não vi
Uma bezerra parida
Que adoeceu por estar
Longe da mamãe querida!?
Morreu berrando por ela,
Virou carne de vitela
E no quilo foi vendida.

RESPONDI a tais abusos
Enfrentando o desatino.
Não aceitei a miséria
Que o nelore zebuíno
Está fadado a sofrer.
Nisso eu preferi correr
Cinco dias sem destino.

SAÍ do caminhão velho
Pelas estradas de asfalto,
Ganhei as matas da praia,
Nas areias subi alto,
Vi as luzes, carros, casas,
Aviões com suas asas,
Gente, confusão, assalto...

TRATEI de manter distância;
Vez por outra aparecia
Para observar de perto
O movimento que havia.
Foi quando alguns cavaleiros
Da polícia e vaqueiros
Estragaram o meu dia.

UMA bonita carreira
Dei nos cavalos ferrados.
Tomei o rumo da praia
Com eles atrás, pegados.
De repente, que visão:
Vi aquela imensidão
De rolos d’água salgados.

VACILEI por um instante
Vendo eles atrás de mim,
Mas estava decidido
A não terminar assim,
Como rês presidiária
Da indústria agropecuária
Aguardando pelo fim.

XEQUE-MATE: entrei nas águas
E mar adentro nadei.
Não divisei terra ao longe,
Também não me preocupei
Quando as ondas me levaram.
Meu corpo do mar tiraram,
Mas, enfim, me libertei.

ZELEI pela liberdade,
Padeci com dignidade,
Me espostejaram, verdade,
Mas já não estava vivo.
Morto, sim, nunca cativo,
Digo adeus à Gameleira.
Adeus vaquinha leiteira,
Adeus bezerros do estrado.
Assina o Touro Afogado,
Alma livre e altaneira.






Eduardo Macedo.

Fortaleza, novembro de 2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

Medicina cubana: Luz e esperança para o mundo.

Hoje é o Dia da Medicina Latino-Americana, motivo de satisfação e orgulho para nossos profissionais de saúde; exemplos de sacrifício, altruísmo e solidariedade.

A data está em estreita ligação com Cuba, porque este 3 de dezembro é o nascimento do eminente cientista Carlos Jota Finlay, descobridor do agente transmissor da febre amarela. É também um momento especial para homenagear o especialista sênior em saúde, Fidel, criador do Programa Médico e Enfermeiro da Família, com atendimento médico mais personalizado e acessível, abordagem preventiva e maior alcance social.

A baixa taxa de mortalidade infantil, a eliminação de doenças evitáveis por vacinação, sendo o primeiro país do mundo a certificar a eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis congênita e mais a presença de milhares de colaboradores em mais de 60 nações são sucessos da medicina cubana.

Garantidores da saúde e da vida


Entregando o melhor de si aos seus pacientes, a quem olham nos olhos e tocam com humildade, sendo capazes de animar a alma de milhões, não apenas salvando vidas e curando doenças, mas evitando-as, nossos profissionais de saúde chegam ao Dia de Medicina Latino-Americana

Formados com alta qualidade, altos valores éticos, humanistas e revolucionários, eles, em 55 anos de cooperação médica internacional com realizações inquestionáveis, mostraram sinais de abnegação, solidariedade e heroísmo.

Hoje, quando nossos colaboradores cumpriram com sucesso sua missão em lugares onde não havia assistência médica no Brasil, voltaram com dignidade e com a cabeça erguida.

Quando eles retornam mais do que os médicos com uma experiência revolucionária e humana que os ampliou. Sentimos mais orgulho do valor da medicina cubana, luz de esperança para o mundo.

FONTE: Rádio Reloj.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Bolsonaro, o Fiel Escudeiro de Trump

Assim como nos tempos de ditadura militar, o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, quer converter-se no principal aliado dos EUA na América Latina.

A reaproximação proporcionada pelo chefe do novo governo que assumirá o poder em 1º de janeiro é uma mudança radical na política externa que foi planejada até agora no Palácio do Planalto.

Nessa estratégia pró-ianque, que tem muita subserviência, Bolsonaro procura diminuir a influência econômica chinesa no Brasil e se aproximar de Israel. É uma cópia da política do Departamento de Estado, porque o presidente eleito quer ser mais trumpista do que o próprio Trump.




UMA PARTICIPAÇÃO ATIVA

Ninguém menos que John Bolton, Conselheiro Nacional de Segurança da Administração Trump, reuniu-se com Jair Bolsonaro.

Ninguém queria dar muitos detalhes do que falavam, mas, como esperado, o assuntos preferidos foram Cuba e Venezuela.

Foi uma reunião de uma hora em que, além de café da manhã juntos na casa do novo presidente brasileiro, ambos concordaram que esperam que Brasília e Washington façam "parceria ativa".

Isso é enigmático, mas, certamente, a nova política externa brasileira tem a intenção de ser um parceiro confiável e leal. Assim, sem tomar o poder ainda, o novo governo do Brasil marca um caminho de aproximação para os Estados Unidos, um caminho que é consistente com a intenção de Bolsonaro de se tornar o fiel escudeiro de Trump.

FONTE: Rádio Reloj.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A crucificação de Julian Assange

O santuário de Julian Assange na Embaixada do Equador em Londres foi transformado numa pequena câmara de horrores. Ele foi em grande medida desligado de comunicações com o mundo exterior durante os últimos sete meses. Sua cidadania equatoriana, que lhe fora concedida ao pedir asilo, está em vias de ser revogada. Sua saúde está debilitada. Os cuidados médicos de que precisa estão a ser negados. Seus esforços por reparação legal têm sido invalidados por leis da mordaça (gag rules), incluindo ordens equatorianas de que ele não pode tornar públicas suas condições no interior da embaixada que combate pela revogação da sua cidadania equatoriana.

O primeiro-ministro australiano Scott Morrison recusou-se a interceder em favor de Assange, um cidadão australiano, apesar de o novo governo no Equador, liderado por Lenin Moreno – o qual considera Assange como um "problema herdado" e um obstáculo para melhores relações com Washington – estar a tornar insuportável a vida do fundador da WikiLeaks na embaixada. Quase diariamente, a embaixada está a impor condições mais duras a Assange, incluindo fazer-lhe pagar suas contas médicas, impor-lhe regras misteriosas sobre como ele deve cuidar do seu gato e exigir-lhe que cumpra uma variedade de serviços de limpeza degradantes.

Os equatorianos, relutantes em expulsar Assange depois de lhe concederem asilo político e de lhe concederem cidadania, pretendem tornar a sua existência tão desagradável que ele concordará em abandonar a embaixada para ser preso pelos britânicos e extraditado para os Estados Unidos. O antigo presidente do Equador, Rafael Correa, cujo governo concedeu asilo político ao editor da WikiLeaks, descreve as actuais condições de vida de Assange como "tortura".

Sua mãe, Christine Assange, disse num apelo recente em vídeo , que "Apesar de Julian ser um jornalista que ganhou numerosos prémios, muito amado e respeitado por corajosamente revelar graves crimes e corrupção em alto nível no interesse público, ele agora está sozinho, doente, em sofrimento – silenciado em confinamento solitário, desligado de todo contacto e a ser torturado no centro de Londres. A jaula moderna dos presos políticos não é mais a Torre de Londres. É a Embaixada do Equador".

"Aqui estão os factos", prossegue ela. "Julian tem estado detido há cerca de oito anos sem acusação. Exactamente. Sem acusação. Durante os últimos seis anos, o governo do Reino Unido recusou o seu pedido de acesso a necessidades básicas de saúde, ar fresco, exercício, luz do sol para obter vitamina D e acesso a cuidados dentários e médicos adequados. Em consequência, sua saúde deteriorou-se gravemente. Os médicos que o examinaram advertiram que as condições da sua detenção ameaçam a sua vida. Um assassinato lento e cruel está a ter lugar diante dos nossos olhos na embaixada em Londres".

"Em 2016, após uma investigação profunda, as Nações Unidas determinaram que os direitos legais e humanos de Julian haviam sido violados em múltiplas ocasiões", disse ela. "Ele tem estado detido ilegalmente desde 2010. E a ONU ordenou a sua imediata libertação, passagem segura e compensação. O governo do Reino Unido recusou-se a cumprir a decisão da ONU. O governo dos EUA tornou a prisão de Julian uma prioridade. Eles querem contornar uma protecção dos EUA de jornalistas sob a Primeira Emenda acusando-o de espionagem. Eles não se detêm diante de nada para consegui-lo".

"Em consequência do assalto estado-unidense ao Equador, agora o seu asilo está sob ameaça imediata", disse ela. "A pressão dos EUA sobre o novo presidente do Equador resultou em Julian ser colocado num confinamento estrito e severo durante os últimos sete meses, privado de qualquer contacto com sua família e amigos. Só os seus advogados podiam vê-lo. Duas semanas atrás, as coisas pioraram substancialmente. O antigo presidente do Equador, Rafael Correa, que correctamente concedeu asilo político a Julian diante das ameaças dos EUA contra a sua vida e liberdade, advertiu publicamente, quando o vice-presidente Mike Pence visitou recentemente o Equador , que estava a ser feito um acordo para entregar Julian aos EUA. Ele declarou que como os custos políticos de expulsar Julian da sua embaixada eram demasiado altos, o plano era destruí-lo mentalmente. Um novo e impossível protocolo desumano foi implementado na embaixada para torturá-lo a tal ponto que ele quebrasse fosse forçado a abandoná-la".

Assange foi outrora festejado e cortejado por algumas das maiores organizações de media do mundo, incluindo The New York Times e The Guardian, pela informação que ele possuía. Mas uma vez que este tesouro de documentação material dos crimes de guerra dos EUA, grande parte proporcionada por Chelsea Manning , foi publicado por estes media ele foi posto de lado e demonizado. Um documento escapado do Pentágono, preparado pelo Cyber Counterintelligence Assessments Branch e datado de 08/Março/2008, revelou uma campanha de propaganda negra para desacreditar a WikiLeaks e Assange. O documento dizia que a campanha de enlameamento deveria procurar destruir o "sentimento de confiança" que é o "centro de gravidade" da WikiLeaks e enegrecer a reputação de Assange. Isto em grande medida funcionou. Assange é especialmente caluniado por publicar 70 mil emails hackeados pertencentes ao Democratic National Committee (DNC) e a altos responsáveis do Partido Democrata. Os democratas e o antigo director do FBI, James Comey, disseram que os emails foram copiados das contas de John Podesta, presidente da campanha da candidata democrata Hillary Clinton, por hackers do governo russo. Comey disse que as mensagens provavelmente foram entregues à WikiLeaks por um intermediário. Assange disse que os emails não foram providenciados por "actores estatais".

O Partido Democrata – procurando atribuir a culpa pela sua derrota eleitoral à "interferência" russa ao invés da grotesca desigualdade de rendimento, à traição da classe trabalhadora, à perda de liberdades civis, à desindustrialização e ao golpe de estado corporativo que o partido ajudou a orquestrar – ataca Assange como um traidor, embora ele não seja um cidadão americano. Nem tão pouco seja um espião. Ele não está impedido por qualquer lei que eu esteja consciente de manter segredos do governo dos EUA. ele não cometeu um crime. Agora, narrativas em jornais que outrora publicaram materiais da WikiLeaks centram-se no seu comportamento alegadamente desmazelado – o que não é evidente durante visitas que lhe fiz – e como ele é, nas palavras de The Guardian, um "hóspede não bem vindo" na embaixada. A questão vital dos direitos de um editor e de uma imprensa livre são ignorados com sarcasmo e com assassinato de carácter.

Em 2012 foi concedido asilo a Assange na embaixada para evitar extradição para a Suécia a fim de responder a perguntas acerca de alegações de ofensa sexual que foram finalmente abandonadas. Assange temia que uma vez na custódia da Suécia seria extraditado para os Estados Unidos. O governo britânico disse que, embora já não quisesse interrogar na Suécia, se Assange deixasse a Embaixada seria preso por romper suas condições de fiança.

A WikiLeaks e Assange fizeram mais para revelar as maquinações sombrias e os crimes do Império Americano do que qualquer outra organização de notícias. Assange, além de revelar atrocidades e crimes cometidos pelos militares dos Estados Unidos nas suas guerras infindáveis e revelar os meandros internos da campanha Clinton, tornou públicas as ferramentas de hacking utilizadas pela CIA e pela Agência de Segurança Nacional, seus programas de vigilância e sua interferência em eleições estrangeiras, incluindo as eleições francesas. Ele revelou a conspiração contra o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corby, de membros do Parlamento pertencentes ao Labour. E a WikiLeaks trabalhou rapidamente para salvar Edward Snowden , que revelou a vigilância maciça do público americano por parte do governo, de extradição para os Estados Unidos ao ajudá-lo a fugir de Hong Kong para Moscovo. A fuga de Snowden também revelou, de forma ameaçadora, que Assange estava numa "lista de alvos a serem caçados".

O que está a acontecer a Assange deveria aterrorizar a imprensa. Ainda assim, as suas provações são recebidas com indiferença e sorriso zombeteiro. Uma vez retirado da embaixada, ele será colocado em tribunal nos Estados pelo que publicou. Isto estabelecerá um precedente legal novo e perigoso que a administração Trump e futuras administrações utilizarão contra outros editores, incluindo aqueles que são parte da gentalha que tenta linchar Assange. O silêncio acerca do tratamento de Assange é não só uma traição a ele como também uma traição à própria liberdade de imprensa. Pagaremos muito caro por esta cumplicidade.

Mesmo que os russos tivessem providenciado os emails de Podesta a Assange, ele deveria tê-los publicado. Eu teria. Eles revelavam prática da máquina política de Clinton que ela e a liderança democrata desejaria esconder. Nas duas décadas em que trabalhei além-mar como correspondente estrangeiro recebi rotineiramente documentos roubados por organizações e governos. Minha única preocupação era se os documentos eram forjados ou genuínos. Se fossem genuínos, eu os publicava. Enbtre aqueles que me entregavam material incluíam-se os rebeldes da frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN), o exército salvadorenho, o qual certa vez deu-me documentos da FMLN manchados de sangue encontrados depois de uma emboscada; o governo sandinista da Nicarágua; o serviço de inteligência israelense, o Mossad; o Federal Bureau of Investigation; a Central Intelligence Agency; o grupo rebelde Kurdistan Workers' Party (PKK); a Organização de Libertação da Palestina (OLP); o serviço de inteligência francês Direction Générale de la Sécurité Extérieure, ou DGSE; e o governo sérvio de Slobodan Milosevic, o qual mais tarde processado como criminoso de guerra.

Aprendemos com os emails publicados pela WikiLeaks que a Fundação Clinton recebeu milhões de dólares da Arábia Saudita e do Qatar, dois dos maiores financiadores do Estado Islâmico. Como secretária de Estado, Hillary Clinton reembolsou seus doadores ao aprovar US$80 mil milhões em vendas de armas para a Arábia Saudita, permitindo àquele reino executar uma guerra devastadora no Iémen que desencadeou uma crise humanitária, incluindo escassez generalizada de alimentos e uma epidemia de cólera, resultando em 60 mil mortes. Apendemos que foram pagos US$675 mil à Clinton para falar à Goldman Sachs, uma quantia tão maciça que só pode ser descrita como um suborno. Aprendemos que a Clinton disse a elites financeiras nas suas conversas lucrativas que pretendia "comércio aberto e fronteiras abertas" e que acreditava serem os executivos da Wall Street os mais bem posicionados para administrarem a economia, uma declaração que contradizia directamente suas promessas de campanha. Aprendemos que a campanha de Clinton trabalhava para influenciar as primárias republicanas a fim de assegurar que Donald Trump fosse o republicado nomeado. Aprendemos que Clinton obteve informação antecipada sobre perguntas no debate das primárias. Aprendemos, porque 1700 dos 33 mil emails provinham de Hillary Clinton, que ela foi a arquitecta primária da guerra na Líbia. Aprendemos que ela acreditava que o derrube de Moammar Gadhafi daria brilho às suas credenciais como candidata presidencial. A guerra que ela procurava deixou a Líbia no caos, dada a ascensão ao poder de jihadistas radicais naquilo que é agora um estado fracassado, desencadeou um êxodo maciço de migrantes para a Europa, dada a captura de stocks de armas líbios por milícias perigosas e radicais islâmicos por toda a região, isto resultou em 40 mil mortes. Deveria toda esta informação ter permanecido escondida do público americano? Você pode dizer que sim, mas nesse caso não pode considerar-se jornalista.

"Eles estão preparar o meu filho para que lhes dê uma desculpa para entregá-lo aos EUA, onde ele enfrentaria um julgamento-espectáculo", alertou Christine Assange. "Nos últimos oito anos, ele não teve um processo legal adequado. Tem sido injusto a cada passo com muita perversão da justiça. Não há razão para considerar que isso mudaria no futuro. O grande júri da WikiLeaks nos EUA, produzindo o mandado de extradição, foi mantido em segredo por quatro promotores, mas sem defesa e sem julgamento. O tratado de extradição Reino Unido-EUA permite que o Reino Unido extradite Julian para os EUA sem um processo básico apropriado. Uma vez nos EUA, a Lei de Autorização de Defesa Nacional permite a detenção por tempo indefinido sem julgamento. Julian poderia muito bem ser detido na Baía de Guantánamo e torturado, sentenciado a 45 anos em uma prisão de segurança máxima ou enfrentar a pena de morte. Meu filho está em perigo crítico por causa de uma brutal perseguição política por parte dos tiranos no poder cujos crimes e corrupção ele expôs corajosamente quando era editor-chefe da WikiLeaks".

Assange está por conta própria. Cada dia torna-se mais difícil para ele. Isto acontece deliberadamente. Cabe a nós protestar. Somos a sua última esperança e a última esperança, temo, de uma imprensa livre.

"Precisamos erguer o nosso protesto contra esta brutalidade ensurdecedora", disse a sua mãe. "Conclamo todos vocês jornalistas a erguerem-se agora porque ele é vbsso colega vocês serão os próximos. Conclamo todos vocês políticos que dizem ter entrado na política para servir o povo a levantarem-se agora. Conclamo todos vocês activistas que defendem direitos humanos, refugiados, o ambiente e são contra a guerra a erguerem-se agora porque a WikiLeaks serviu as causas que vocês defendem e Julian está agora a sofrer por isso ao vosso lado. Conclamo todos os cidadãos que valorizam a liberdade, a democracia e um processo legal justo a porem de lado suas diferenças políticas e unirem-se, levantando-se agora. A maior parte de nós não tem a coragem dos nossos denunciantes ou de jornalistas como Julian Assange que os publicou, de modo a que possamos estar informados e advertidos acerca dos abusos do poder". 

Chris Hedges

A guerra dos metais raros: A face oculta da transição energética e da digitalização

O livro La guerre des métaux rares: La face cachée de la transition énergétique et numérique [1] , de Guillaume Pitron, jornalista francês colaborador de Le Monde Diplomatique, é de leitura fácil e revela uma grande contradição dos nossos dias:

a) Proclama-se, com o aval de numerosos Chefes de Estado e de Governo que, por causa do chamado aquecimento global, temos de abandonar rapidamente os combustíveis fósseis, substituindo-os por tecnologias energéticas verdes, também ditas renováveis ou limpas.

Estas hão-de ser crescentemente conseguidas e bem aproveitadas com o aprofundamento da digitalização nos mais variados campos da economia, mas isto só se consegue actualmente com o indispensável concurso dos chamados metais raros. "A cada aplicação verde o seu metal raro" (p. 36).

b) A contradição reside em que os metais raros são relativamente escassos na crosta terrestre, dando-se a triste circunstância adicional de a sua extracção e refinação serem processos duplamente problemáticos do ponto de vista energético e ambiental.

A inferência é inevitável e G. Pitron não se inibe de a expor: a mutação tecnológica que se pretende impor não resolve a questão ambiental em causa. Esta passa sobretudo pela alteração dos locais de ocorrência da poluição.

Compreender-se-á assim o apelo que o autor insere no epílogo do livro: paremos para pensar, uma vez que a revolução industrial, técnica e social que é preciso realizar há-de passar pela revolução das consciências.

Ou seja, digamos que, para o autor, o ambientalismo ainda não se livrou do seu estádio infantil, já que proclama objectivos, vias e políticas nem sempre coerentes entre si e, portanto, não sustentáveis a vários títulos.

É interessante notar que esta tese fundamental do livro é formulada por um autor que
i) Aparentemente, aceitou (e parece continuar a aceitar a maioria de) os mandamentos da cartilha ambientalista,
ii) Em particular, não mostra qualquer dúvida acerca da teoria do alegado aquecimento global gerado pela emissão antropogénica dos gases com efeito de estufa,
iii) Parece acreditar em que a questão ambiental irá ter solução no quadro do capitalismo (chega a usar a expressão "capitalisme vert", (p. 17),
iv) A sua França há-de recuperar posições perdidas no cotejo internacional, incluindo na segurança militar.

Assim se perceberá porque sequer tem uma palavra de questionamento sobre a legitimidade de se impor a países economicamente atrasados caminhos diferentes dos seguidos pelos países desenvolvidos, como manda a Agenda Ambiental dominante, vide o Acordo de Paris, de 2015.
 
G. Pitron foi construindo a sua tese a partir do que se foi apercebendo acerca das limitações na disponibilidade de metais raros [2] e, em particular, dos metais chamados terras raras (sobretudo lantanídeos).

A exemplo de milhões de pessoas, Pitron não terá estudado a ciência química senão a nível muito elementar [3] . Em particular, jamais terá tido, antes de trabalhar para este livro, a possibilidade de se aproximar da série de problemas que a extracção mineira e as metalurgias colocam do ponto de vista de economia da produção industrial, da poluição [4] e da demanda energética [5] .

Tópicos que, manifestamente, lhe criaram um certo espanto à medida que foi viajando pelo mundo, visitando minas e outras instalações industriais, tendo pesquisado durante "seis anos" sobre o assunto "em doze países" (p. 23). Assim foi descobrindo que, diversamente do que teria antes pensado, aquelas agudas questões são descuradas no discurso ambientalista bem como por parte de dirigentes políticos os mais variados, incluindo da sua aparentemente venerada União Europeia.

Não se pense que G. Pitron se tornou num engenheiro, mas seria injusto não enfatizar o esforço que empreendeu, em relato que pode ser muito útil a quem também tenha a curiosidade sobre muitas das especificidades técnicas e económicas em causa na obtenção, refinação e aplicação dos metais, e suas reciclagens.

O autor não enjeita a utilidade dos metais há muito usados – ferro, ouro, prata, cobre, chumbo, alumínio – mas, justamente, chama a atenção para as "fabulosas propriedades magnéticas e químicas" (p.15) dos metais raros, crescentemente usados desde a década de 70 do século passado. Procura que tenderá ainda a crescer, a verificar-se a intensificação das suas aplicações.

As torres eólicas, os painéis solares, as novas baterias eléctricas, os telemóveis, os computadores (cada vez mais usados em crescentes aplicações), etc, dependem da utilização de metais raros. A lista das afectações é enorme: "Robótica, inteligência artificial, hospital digital, segurança cibernética, biotecnologias médicas, objectos conectados, nanoelectrónica, viaturas sem condutor..." (p. 26). Ou seja, o "mundo novo" de que se tem falado afunda-nos numa "nova dependência, ainda mais forte" do que a de energias fósseis (p.26).

Há razões para lhes chamar raros: enquanto tem sido fácil encontrar minérios de ferro com teores metálicos da ordem de 60% (ou seja, 1,67kg de minério contém 1kg de ferro), o autor sublinha, por exemplo, serem precisas "oito toneladas e meia (cerca de 8500kg) de minério para produzir um quilograma de vanádio ... e mil e duzentas toneladas (cerca de 1 200 000 kg) por um infeliz quilograma dum metal ainda mais raro, o lutécio (terra rara)" (p.16).

O autor debruça-se sobre o balanço ecológico de vários sectores (painéis solares, veículos eléctricos, redes eléctricas "inteligentes"), sobre as tremendas dificuldades ainda existentes na reciclagem de metais raros, para concluir que as tecnologias verdes, em geral, não são mais vantajosas do que as tradicionais em termos ambientais e energéticos. Até o são menos em certos aspectos (pp. 57-85), embora nesse balanço inclua a emissão de dióxido de carbono, como se este não fosse o gás da vida.

Mas G. Pitron não se interessa apenas por esse tipo de questões. Pelo contrário, não esconde o seu grande incómodo quando observa o papel ímpar que cabe à República Popular da China (que recorrentemente trata por "Império do Meio") na questão dos metais raros, em particular quanto às terras raras. Cinco capítulos do livro são, em especial, dedicados a esta problemática, incluindo uma particular atenção à questão dos mísseis inteligentes, área em que "o Ocidente" se encontra vulnerável.

Observação que contrasta com a perspectiva que terá antes partilhado de que a adopção das energias renováveis e da digitalização permitiria reforçar a "soberania energética" dos Estados membros da União Europeia ao tornar esta "menos dependente dos hidrocarbonetos russos, qatares e sauditas" (p.20).

Pitron enfatiza o facto de a China estar a tirar crescente partido de dispor da maior parte das reservas e de vir subindo na cadeia de valor da utilização das terras raras. Para a mesma potência, os ímanes de terras raras são muito mais pequenos que os ímanes de ferrite, lembra (p. 144).

Alarma-o facto, confronta-o com os correlativos erros estratégicos que tanto a França como os EUA cometeram quando permitiram o encerramento de unidades industriais do sector, em alerta que lhe parecerá importante para apelar a um repensar da guerra pelos metais raros que se desenha no mundo.

O autor enfatiza as questões económica e industrial, a ecológica, mas também a de segurança militar e geopolítica com este afunilamento que as chamadas novas tecnologias verdes encerram com a dependência da China.

Os "... equipamentos mais sofisticados dos exércitos ocidentais (robôs, armas cibernéticas, aviões de combate, como o caça americano... F35)" também dependem , "em parte, da boa vontade da China". Daí a previsão de "uma guerra entre os EUA e a China no mar da China meridional" (p.25).

Aqui chegado, o autor, sem se afastar da confusão corrente entre ambiente e clima, distancia-se não obstante do ambientalismo no que respeita a esta produção material. Lembra que em França se passou já do lamentável "NIMBY" [6] ao incrível "BANANA" [7] , propondo, por isso, a abertura de minas e a produção em França e no Ocidente.

Nesta linha, embora em nota de rodapé (p. 23), o autor comenta que o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas não contém uma única vez as palavras "metais", "minérios" e "matérias-primas". Eloquente, sem dúvida.

A obra de G. Pitron, como já se terá entendido, não esgota todas as questões fulcrais dos problemas, e das suas diversas facetas, que se colocam – em particular, quanto à energia. Não esquecer que já se esgotaram muitas reservas dos combustíveis fósseis (a UE não se esquece disso, embora passe o tempo a falar do dióxido de carbono). Entretanto, o livro ilustra muitos dos problemas que o ambientalismo em voga desconhece ou minimiza. 

 José Ferrer

[1] Guillaume Pitron, La guerre des métaux rares: La face cachée de la transition energétique et numérique , Éditions Les Liens Qui Libèrent, 2018, 295 p., ISBN 9791020905741.
[2] Além das terras raras, como metais raros o autor cita os metais pesados (ou de densidade muito superior à densidade da água): vanádio, germânio, grupo da platina – ruténio, ródio, paládio, ósmio, irídio e platina –, tungsténio, antimónio, rénio e, como metal leve, o berílio (p.16). Inclui erradamente também o espato-flúor, que é um mineral de flúor, um não metal, importante para a separação de isótopos de urânio.
[3] Ver nota de rodapé anterior.
[4] Inerente, por exemplo, à utilização de reagentes ácidos indispensáveis em certos processos metalúrgicos, mas venenosos para os humanos e muitas outras formas de vida.
[5] Não se pense que estas actividades se têm mantido indiferentes à inovação tecnológica, pelo contrário. A natureza das ligações químicas, por exemplo, impõe limites inultrapassáveis no consumo energético. Isso se verifica quando destruímos certas ligações químicas a fim de isolarmos um dado metal presente na natureza sob a forma de um composto químico.
[6] NIMBY: Not In My BackYard.
[7] BANANA: Build Absolutely Nothing Anywhere Near Anything.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Brasil: infância em risco, futuro ameaçado

Sem serem vistos ainda pelo poder público como sujeito de direito, crianças e adolescente ficam expostos hoje no Brasil a riscos desde a pobreza extrema à exploração infantil, ou a ameaça crescente de uma morte prematura.

'Faltam políticas públicas para garantir os direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente', (ECA, por suas siglas em português), lamentou durante uma recente audiência pública na Câmara de Deputados à representante do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra menores, Glícia Salmerón.

Fundado em julho de 1990, o ECA estabelece como dever da família, a sociedade e o Estado assegurar a crianças e adolescentes, 'com absoluta prioridade', os direitos referentes à vida, a saúde e alimentação, educação, esporte e cultura, à dignidade, ao respeito, a liberdade e a convivência familiar e comunitária.

Entretanto, depois de 28 anos de vigência do Estatuto, os menores 'ainda não são vistos pelo poder público como sujeito de direito', lamentou Salmerón, citada pela Agência Câmara Notícias.

A opinião da especialista guarda relação, sem dúvidas, com o alarmante panorama deste grupo populacional, descrito num relatório apresentado este ano pela Fundação Abrinq, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania de crianças e adolescentes.

No Brasil 40 por cento das crianças e adolescentes de até 14 anos de idade, vivem em lares pobres o que representa uma população de 17 milhões 300 mil pessoas. Deles, cinco milhões 800 mil, 13,5 por cento, vivem em situação de pobreza extrema, pormenoriza o documento.

A realidade resulta pior ainda se conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um por cento da população do país (889 mil cidadãos) têm 36,26 vezes mais ganhos que a metade dos 208 milhões de brasileiros que povoam o país.

De outro lado, o compromisso contraído no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) de erradicar o trabalho escravo e infantil está longe de for cumprido.

No país, e de acordo com o próprio IBGE, perto de 2,7 milhões de menores são explorados precozmente e dia-a-dia e ao menos sete deles sofrem acidentes graves.

Conforme estatísticas do Ministério Público do Trabalho, entre os anos 2012 e 2017 mais de 15 mil e 600 crianças e adolescentes foram vítimas de ocorrências perigosas, gerando 187 mortes e mais de 500 amputações.

As cifras, entretanto, pudessem ser muito maiores, pois segundo o próprio Ministério Público do Trabalho as estatísticas não consideram as vítimas do narcotráfico e de outras atividades ilícitas e não sadias.

Além disso, que existe uma tolerância social em torno da questão do trabalho infantil, pois a sociedade brasileira tem o discurso de que é melhor o menor trabalhar antes que estiver a roubar ou envolvido com as drogas, denunciou a procuradora Patricia Sanfelici.

SOCIEDADE VIOLENTA

Um estudo realizado no ano passado em 14 países pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou que há ao menos quatro questões que preocupam aos menores: a violência, o terrorismo, a pobreza e a baixa qualidade da educação.

No caso do Brasil, o principal temor dos pesquisados (82 por cento) é precisamente a violência. E a preocupação tem sólidos fundamentos.

A mais recente edição do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, por suas siglas em português) e pelo Fórum Brasileiro de Previdência Pública, revela que em 2016 o Brasil registrou uma cifra recorde de 62 mil e 517 mortes violentas, 71,1 por cento destas causadas por armas de fogo.

Do total de assassinatos ocorridos esse ano, 71,5 por cento foi de cidadãos negros e as regiões onde se produziram crescimentos mais significativos no número de vítimas foram o Norte e o Nordeste, o qual -segundo peritos- demonstra que 'a violência letal não está distribuída de forma homogênea na malha social brasileira'.

Esta calamidade está sujeita à interferência de fatores demográficos, socioeconômicos e também à atuação do próprio Estado, responsável pelas políticas públicas de previdência, disse ao jornal

'Brasil do Fato' o especialista do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, David Marques.

Na última década analisada (2006-2016), 553 mil pessoas morreram no país como conseqüência de atos violentos; com uma taxa de 30 assassinatos por cada 100 mil cidadãos em 2016, a que é 30 vezes superior a da Europa, afirmou.

Acrescentou, aliás, que entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios entre a população negra aumentou 23,1 por cento, enquanto entre os não negros 6,8 por cento.

A mesma coisa acontece entre as mulheres negras, pois nesse período o índice de assassinatos cresceu 15,4 por cento e teve uma redução de oito por cento entre as não negras.

De outro lado, mais de 18 por cento dos homicídios perpetrados tiveram como vítimas a pessoas que tinham menos de 19 anos de idade, em sua grande maioria jovens pobres, negros e que vivem nas periferias das grandes cidades.

Também piora a violência contra as mulheres, meninos e meninas. Conforme dados do Atlas, 68 por cento das violações têm como vítimas a menores de 18 anos e quase um terço dos menores de até 13 anos são agredidos por amigos e conhecidos da família.

Para completar o dramático palco, logo depois de 13 anos de contínua redução, as taxas de mortalidade infantil (antes de completar um ano de vida) e de meninos dentre um mês e quatro anos de idade voltaram a crescer em 2017, como conseqüência da redução dos investimentos em programas sociais decretada pelo governo do Michel Temer.

Além de recortar os recursos para planos como a 'Rede Cegonha', destinado a qualificar o atendimento pre-natal e do parto, reduziu-se o alcance do programa 'Mais Médicos' sobre tudo na área mais crítica, que é o sertão do Nordeste brasileiro, explicou o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha.

Outro fator importante que incide no aumento do número de óbitos de crianças e adolescentes é a desnutrição infantil, que conforme o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional cresceu entre menores de cinco anos de 12,6 a 13,1 por cento no periodo 2016 - 2017.

Isso, sem esquecer que, conforme advertiu o deputado federal do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) Glauber Braga ao comentar o relatório da Fundação Abrinq, o Brasil 'está andando com pasos compridos' de regreso ao Mapa Mundial da Fome, do que tinha saido no ano 2014 após reduzir até três por cento a população que ingerir menos calorias que o recomendado pela FAO (cinco por cento).

Moisés Pérez Mok

FONTE: Prensa Latina.

Variantes de golpes suaves e coincidências da direita

Os últimos anos na América Latina têm sido marcados por uma ofensiva neoliberal contra os governos progressistas que mobilizaram os povos da região em busca da integração, da justiça social e redução da pobreza.

  Diante desta onda de mudanças em favor das grandes maiorias produziram-se vários tipos de 'golpes suaves' liderados pelas direitas nacionais na execução de um esquema traçado há anos pelos estrategas da Agência Central de Inteligência (CIA) em Washington.

O velho 'Plano Condor', executado por governos ditatoriais na década dos anos 70 e 80, conseguiu eliminar fisicamente muitos dirigentes da esquerda regional e desarticular partidos políticos e organizações progressistas na América do Sul.

A reação popular ante estes crimes reverteu a situação no final do século passado e início do atual e colocou no poder, mediante o mecanismo eleitoral, governos progressistas na Venezuela, Argentina, Brasil, Equador, Bolívia, Paraguai, Nicarágua e El Salvador.

Sem ignorar erros na condução de alguns destes processos, no Brasil a direita conseguiu derrubar o governo de Dilma Rousseff através de um golpe judicial e pretendem agora impedir a candidatura do ex-presidente Lula da Silva com um julgamento e condenação sem provas.

A Argentina, que saiu de uma longa noite neoliberal com os presidentes Néstor Kirchner e Cristina Fernández, perdeu as eleições em 2015 enfrentando o candidato empresarial Mauricio Macri, que derrubou as conquistas populares alcançadas e colocou o país em crise novamente.

Com diferentes variantes, a direita retornou a posições de governo no Paraguai, e, mediante o mecanismo eleitoral, alianças e movimentos populares revolucionários cederam cargos e posições a partidos tradicionais e empresários no Equador e em El Salvador.

Na Nicarágua, o governo da Frente Sandinista, eleito com alto apoio popular nas eleições de 2016, com mais de 70 por cento dos votos válidos, enfrenta hoje uma profunda crise que tem conseguido desestabilizar o país e romper a habitual tranquilidade da população.

Venezuela, apesar da guerra econômica e das tentativas de golpe de Estado e desestabilização que enfrenta desde a chegada ao poder, pela via eleitoral, do presidente Hugo Chávez em 1998, conseguiu este mês a reeleição do presidente Nicolás Maduro, com 68 por cento de votos e seu povo se mantém firme na defesa de suas conquistas.

E Bolívia, país que lidera o crescimento econômico na América do Sul durante os últimos anos e possui impressionantes cifras de redução da pobreza, enfrenta desde 2006 tentativas da direita para dividir o país e impedir a reeleição popular de Evo Morales em 2019.

Cabe se perguntar: Quais são os traços comuns que estabelecem um padrão neste novo Plano Condor cujo novo objetivo não é matar dirigentes, mas desmoralizá-los ou desabilitá-los para continuar no poder?

Um primeiro aspecto da cartilha de Washington é a expansão e sobreposição de conflitos que impeçam os governos progressistas se concentrar nos objetivos transformadores que reivindicam as massas populares ao elegê-los.

Ao surgir um conflito, de maneira incrivelmente 'coincidente' os principais meios de comunicação, em poder da direita, propiciam potenciá-lo, e antes que este chegue ao seu clímax a direita faz surgir um novo conflito, e assim sucessivamente.

Um segundo ponto é buscar pretextos para desqualificar moralmente os dirigentes populares, em especial os líderes dos processos de mudança social e seu meio, mediante tentativas de vinculá-los a atos de corrupção, imoralidade ou inaptidão para governar.

O princípio exposto por Joseph Goebbels, ministro de Propaganda de Adolf Hitler, de que uma mentira repetida mil vezes acaba por ser considerada verdade, é o mecanismo utilizado para esse objetivo, agora com o domínio que têm das redes sociais que manipulam o perfil de todos os seus usuários para influir melhor na matriz de opinião.

Um terceiro ponto comum é a 'fabricação' de mártires dos protestos sociais, cujas mortes na Venezuela foram comprovadas como obra de franco-atiradores dos opositores contra seus próprios seguidores para imputar o crime às forças policiais ou aos defensores do governo.

O quarto aspecto comum nas receitas de Washington reveladas em vários documentos públicos é romper a tranquilidade da população e semear o terror através de grupos organizados: 'guarimbas' na Venezuela, 'maras' em El Salvador ou ligas na Nicarágua, entre outras formas de promover violência.

O quinto e não menos importante, é o respaldo de organismos internacionais e do governo dos Estados Unidos para boicotar as tentativas integracionistas regionais e ameaçar com sanções os governos progressistas, aplicando a clássica 'cenoura e o garrote'.

O financiamento exterior e das direitas locais às tentativas desestabilizadoras pretende ocultar-se sob o manto de 'apoios populares' e o indispensável 'manto protetor' dos meios de comunicação, propriedade da direita ou comprometidos com ela.

Muitas arestas tem este novo Plano Condor. O tema está aberto.


Pedro Rioseco

FONTE: Prensa Latina.

CUBA: Nunca vamos colocar nossa dignidade à venda

Hoje, 27 de novembro, quando Cuba recorda a execução de oito estudantes de medicina pelas forças de ocupação espanholas, a mensagem dos médicos cubanos e das pessoas que continuaremos a curar pessoas e salvar vidas chegará ao Brasil, a seu povo, onde o nosso trabalho de solidariedade é reivindicado, mas nunca vamos colocar a nossa dignidade à venda

Tudo foi planejado. Como se diz em «bom cubano», foi um «lance já avisado». Jair Bolsonaro já recebeu os parabéns do governo de Donald Trump por ter interrompido a presença dos médicos cubanos no Brasil e agora, na próxima sexta-feira, poderá trocar abraços com o conselheiro nacional de Segurança dos Estados Unidos, John Bolton.

«Nós, sem dúvida, teremos uma conversa produtiva e positiva em nome de nossas nações», escreveu Bolsonaro.

Dias antes, a subsecretária de Estado para os Assuntos do Hemisfério Ocidental dos EUA, Kimberly Breier, descreveu as ações de Bolsonaro com relação aos médicos cubanos como «boas».
A aliança - declarada - já estava acertada, e não coincidentemente o novo líder do gigante sul-americano foi chamado do «Trump Brasileiro».

Não pode assustar ninguém que Washington apoie esse personagem, um ex-militar que criticou a ditadura brasileira por torturar em vez de matar os prisioneiros. Anos atrás, os Estados Unidos eram o maior condutor dos governos fascistas que governavam a América do Sul. A sinistra operação Condor, orquestrada pela CIA, que matou e desapareceu milhares de cidadãos latino-americanos, ainda é lembrada hoje.

Bolsonaro, o homem que agora é capaz de deixar sem médicos e sem planos de saúde milhões de seus concidadãos, nunca estudou uma breve história de Cuba e da América Latina. Ele não foi capaz de perceber que os médicos cubanos foram para seu país, não para pagamento ou regalias, mas para salvar vidas, curar os doentes, independentemente da raça a que pertençam, nem sua filiação política. Em vez disso, tornando-se parte deles, como uma família.

Nos artigos biográficos que aparecem nas redes sobre Bolsonaro, há um que o chama de «enlouquecer, histriônico». O homem que propôs a execução dos militantes do Partido dos Trabalhadores do Brasil. Aquele que insultou uma deputada desse partido, dizendo que «ela não merecia ser estuprada porque era feia».

Esse é o presidente que o Brasil terá a partir de 1º de janeiro próximo.

Hoje, 27 de novembro, quando Cuba recorda a execução de oito estudantes de medicina pelas forças de ocupação espanholas, a mensagem dos médicos cubanos e das pessoas que continuaremos a curar pessoas e salvar vidas chegará ao Brasil, a seu povo, onde o nosso trabalho de solidariedade é reivindicado, mas nunca vamos colocar a nossa dignidade à venda.

Elson Concepción Pérez

FONTE: Granma.

Bolsonaro, Mais Médicos e um déjà vu


Por mais de uma década, o Programa Parole, criado em 2006 por George W. Bush, incentivou o pessoal de saúde cubano que colabora em países terceiros a abandonar suas missões e emigrar para os Estados Unidos

O presidente cubano Díaz-Canel relembrou no Twitter os 20 anos da Escola Latino-americana de Medicina elam; uma obra de amor que formou milhares de médicos; entre eles, brasileiros, a quem a Associação Médica os impede de passar no exame de revalidação do título e no acesso aos empregos.
Ano de 2013. No Brasil, a presidenta Dilma Rousseff promoveu programas como o Mais Médicos, que previa a presença de médicos brasileiros e estrangeiros para atuar em áreas pobres e isoladas daquele país, iniciativa que incluiu milhares de profissionais de saúde cubanos. Na Venezuela, o então candidato anti-Chávez, Henrique Capriles, fazia flutuar seu discurso entre as ameaças a Havana, «pois não financiaria um modelo político», nem «doaria petróleo», e a oferta «desinteressada» de nacionalizar os milhares de médicos que estavam em solo bolivariano. Eu os convidaria, declarou Capriles, «para serem cidadãos de um país onde há democracia».

Se até agora você parece ter visto este script repetido em outros momentos, saiba que está certo. O que o presidente Jair Bolsonaro acaba de fazer dinamitando o Programa Mais Médicos, e com ele a garantia de acesso à saúde de qualidade para milhões de brasileiros, recorda, pelo menos, muitos outros ataques da direita regional à colaboração internacional cubana.

O presidente eleito do gigante sul-americano chama o governo cubano de «ditadura», enquanto não poupa louvores na defesa da ditadura militar brasileira entre 1964-1985, que ainda tem na memória do país não apenas desaparecimentos forçados e assassinatos, mas a repressão de qualquer tipo de oposição política. Maus presságios para o Brasil, se seu novo presidente não entender a dimensão exata do que é um regime ditatorial.

E o déjà vu ocorre quando afirma que «oferecerá asilo político aos milhares de médicos cubanos que não desejam retornar ao seu país».

Não surpreende que estimular a deserção dos médicos seja o pano de fundo de sua posição, num contexto em que a força de trabalho qualificada é o maior potencial da Ilha maior das Antilhas, e onde os médicos cubanos ou aqueles treinados em Cuba de outros os países promovem uma imagem positiva do país, enquanto desenvolvem formas de cooperação Sul-Sul.

Essa linha de sabotagem tem uma forte referência, além disso, no Programa de Parole para Profissionais Médicos Cubanos, um esquema migratório do Governo dos Estados Unidos que vigorou até 17 de janeiro do ano passado; quando, após um ano de negociações, e encorajado pelo início da normalização das relações diplomáticas entre Havana e Washington, foi assinado um acordo entre os dois países com o objetivo de garantir uma migração regular, segura e ordenada, que além do Parole, bania a política de pés secos-pés molhados. Esta foi uma das últimas ações tomadas pelo presidente Barack Obama.

Por mais de uma década, o programa Parole ..., criado em 2006 por George W. Bush, estimulou o pessoal de saúde cubano que colaborou em terceiros países a abandonar suas missões e emigrar para os Estados Unidos, uma prática repreensível que afetava não somente Cuba, mas, portanto, os programas de saúde dos países onde eles estavam trabalhando.

A FÓRMULA DE BOLSONARO É, ENTÃO, VELHA E CONHECIDA

«A intenção era clara: prejudicar a cooperação de Cuba com outros países, reduzir a entrada de dinheiro na forma de pagamentos por esses programas e drenar os médicos e outros profissionais da área médica do país», diz o professor titular do Centro de Estudos Hemisféricos e dos Estados Unidos da Universidade de Havana, Ernesto Domínguez López, em seu artigo ‘Migração, fuga de cérebros e relações internacionais. O caso dos Estados Unidos e Cuba’.

Para o pesquisador, os anos de aplicação de ambas as políticas fizeram deles dois dos componentes mais importantes da política migratória dos Estados Unidos em relação a Cuba, mas vai além. «Quando localizamos este caso dentro do quadro muito mais amplo da política geral de imigração dos Estados Unidos, observamos que atrair estrangeiros instruídos para preencher as lacunas na força de trabalho dos EUA tem sido uma política tradicional, refletida na existência do visto H1B. Sob esse guarda-chuva, cientistas, engenheiros, médicos, foram trabalhar em instituições e empresas na América do Norte, ajudando a manter sua posição privilegiada em todo o mundo. Tornou-se um marco para a economia dos EUA e as universidades norte-americanas», explica o pesquisador no texto acima referido.

Domínguez López relata que existem estudos que mostram que os países mais ricos implementaram efetivamente políticas para absorver imigrantes qualificados, embora a pesquisa sobre o assunto ainda seja insuficiente. «A área que recebeu a atenção mais permanente é a drenagem de profissionais médicos de países pobres. Esta é uma questão particularmente sensível, devido às suas implicações éticas e práticas. De fato, a disponibilidade e a qualidade dos cuidados de saúde têm um grande impacto nos indicadores essenciais de saúde, que são considerados pelos estudiosos proeminentes como uma fonte fundamental de desigualdade entre os países».

«Em seu estado atual, a fuga de cérebros não pode ser completamente explicada a partir de uma análise global, que considera desigualdades estruturais, redes migratórias, políticas mundiais, especialmente as assimetrias na distribuição de poder, e mesmo a hegemonia da mídia ocidental e cultural. São indústrias que criam imagens, percepções e aspirações, distorcendo as interações sociais de diferentes tipos», diz Domínguez López.

Segundo o pesquisador, o argumento em favor dessa afirmação é baseado em uma ideia fundamental: a fuga de cérebros, como parte dos fluxos migratórios globais, é possível devido aos níveis de desigualdade entre e dentro dos países, como mostram vários estudos. Essas desigualdades não são acidentais, mas componentes estruturais da ordem mundial moderna, entendida como a hierarquia global de distribuição de poder, riqueza e desenvolvimento, que tem sido o resultado da evolução global, segundo enfatiza em seu artigo.

Sob essa lógica, qualquer tentativa de remover e enfraquecer um dos recursos mais valiosos do país: seus profissionais, não é fortuito nem acaso isolado.

Faz parte de um «claro sinal de harmonia com a política externa dos EUA», e isso não é afirmado por Cuba, mas sim pelos aplausos públicos que há poucos dias deu a subsecretária do Estado dos EUA para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Kimberly Breier, à posição do futuro governante brasileiro, diante do qual Cuba decidiu não continuar com a participação de médicos cubanos no programa Mais Médicos nesse país.

NO CONTEXTO

1. A Lei do Programa Mais Médicos é clara sobre como os títulos dos médicos são credenciados e o papel desempenhado pela Organização Pan-Americana da Saúde, o Ministério da Saúde Pública e as universidades cubanas de ciências médicas em sua acreditação. Os colaboradores cubanos tiveram que passar por exames prévios antes de viajar para o Brasil e exames periódicos durante sua estada, conduzidos pelo Ministério da Saúde do Brasil.

2. As ofertas de revalidação de títulos são enganosas, porque a Associação Médica se opõe a isso: no Brasil existem milhares de médicos graduados cujos cursos não foram revalidados. De cada cem médicos que fazem o exame, apenas oito são aprovados. Essa é a maneira de manter o mercado de saúde privado regulado para garantir sua enorme renda: menos médicos e mais dinheiro; daí a oposição desde o início ao Programa Mais Médicos.

3. Médicos cubanos prestam serviços em lugares para os quais médicos ou profissionais brasileiros e de outros países não querem ir. Eles assumem os perigos por causa de sua vocação para salvar vidas. Eles estão em lugares de maior risco, em comunidades de extrema pobreza, em favelas e bairros violentos onde até a polícia não pode entrar. Eles estão nos 34 distritos especiais indígenas e em 700 municípios que nunca conheceram um médico antes, ao longo da história do Brasil. Até hoje o povo e o governo os protegeram, mas essa proteção será retirada pelo novo governo.

Lisandra Fariñas Acosta

FONTE: Granma.