sábado, 16 de abril de 2016

Ao mudar ordem de votação, Cunha admite não ter votos para impeachment

O  presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) já começa a discriminar o Nordeste quando joga os parlamentares da região para o fim da fila na votação pela autorização do impeachment.

Em vez de colocar a votação em ordem nominal, critério que respeita o princípio da impessoalidade, Cunha definiu arbitrariamente que iniciará a votação do impeachment contra o mandato de Dilma Rousseff pelos deputados das regiões Sul e Sudeste. O motivo é claro: nessas regiões ele controla mais votos golpistas. Espera com isso pressionar os deputados do Nordeste a também votar contra a legalidade democrática representada por um processo sem base jurídica, como já foi amplamente mostrado por vários juristas.

Mas a manobra de Cunha e Temer só reforça as expectativas negativas do povo nordestino e de seus representantes políticos que têm compromissos com sua população. Afinal, se o golpe passar, o Nordeste voltará à sua histórica discriminação por um governo federal controlado por paulistas, como Michel Temer (PDMB), e tendo como homem-forte de fato o carioca Eduardo Cunha (PMDB) – este será quem efetivamente terá controle sobre ministérios, estatais e o orçamento da União.

O Nordeste que é jogado para o fim da fila na votação, uma clara manobra para seu enfraquecimento político, irá também para o fim da fila na hora de dividir o bolo do Orçamento, nas obras, nos programas que gerem empregos e desenvolvam a região. Os primeiros da fila voltarão a ser São Paulo, Rio e os estados do sul, com Minas a reboque.

Políticas de correção das desigualdades regionais históricas voltarão a ficar no papel e irão para o limbo. Voltará a era em que só os coronéis políticos da região – agora aliados de Cunha e Temer – enriquecerão, enquanto ao povo sobrará o sofrimento com a seca, o subdesenvolvimento, a pobreza, a falta de médicos e professores, o desemprego, a falta de oportunidades.

Junte-se a isso o apoio ao golpe, – com dinheiro, propaganda, patos infláveis, outdoors etc. – pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que volta a patrocinar um golpe contra a democracia, como fez em 1964 e do mercado financeiro, ambos simbolicamente concentrados na Avenida Paulista. Se o impeachment passar, são esses golpistas que darão as cartas em um eventual governo ilegítimo de Temer.

Mas isso só acontece se o golpe passar. E essa própria manobra de Cunha de discriminar o Nordeste indica que ele não tem os votos necessários para o golpe, tendo de recorrer a este tipo de pressão psicológica nefasta. Porém pode virar um tiro no pé. Está dando até motivo para deputados do Nordeste votarem em peso contra o impeachment, ou até mesmo se ausentar da votação.

Afinal quem vai querer enfrentar as urnas tendo de explicar a seu eleitorado que deram um golpe para dar tudo a São Paulo e ao Sul, tirando do Nordeste e detonando o desenvolvimento da região conquistado nos últimos anos.

Outro indicador claro de que Cunha não tem votos suficientes para o golpe, é marcar a votação para a tarde do domingo, para a TV Globo transmitir ao vivo. Acreditam que com isso, haverá maior pressão popular sobre indecisos. Mas colocar a cara de Eduardo Cunha em rede nacional presidindo a sessão que vai decidir a permanência de uma presidenta sobre a qual não pesa uma única acusação pode ser outro tiro no pé. A ficha de muita gente desavisada vai cair. "Trocar Dilma pelo Cunha-Temer? É nisso que esses políticos estão votando?", poderá perguntar quem ainda não percebeu.

Vai render protestos memoráveis nas ruas e nas redes. E cada deputado golpista enrolado com corrupção que der as caras para votar, vai ser intensamente lembrado nas redes sociais de seus "podres" do passado e do presente. Será o maior marketing político negativo espontâneo da história da Câmara.

Se Cunha, em parceria com Temer, fizerem passar o golpe, será o Nordeste que vai pagar o pato da Fiesp. É por isso que, apesar dos esforços da mídia tradicional em dizer o contrário, está difícil para a oposição conseguir votos suficientes para o golpe.

A disputa será duríssima.

Helena Sthephanowitz

Fonte Rede Brasil Atual
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