segunda-feira, 25 de abril de 2016

Centenário da seca de 1915 no Ceará

Neste ano completa-se um século da mais traumática seca que castigou o Ceará, a seca de 1915. As marcas dessa seca foram muito profundas em todo o estado, permanecendo até hoje no imaginário popular.

Apesar do cenário de 100 anos atrás parecer diferente, as contradições sociais que geraram essa tragédia continuam as mesmas.

O que diferencia 1915 de outras secas é que naquele ano o governo do Ceará encontrou uma “solução final” e construiu um campo de concentração no Alagadiço, zona oeste de Fortaleza, para conter os milhares de sertanejos que vinham de todas as regiões.

Estima-se que por lá passaram cerca de oito mil “mulambentos”, forma depreciativa como eram chamados. A fuga desesperada desses sertanejos nos períodos de grande estiagem era encontrar condições de vida melhor, com trabalho e dignidade, migrando para os grandes centros.

Fortaleza, como outras cidades brasileiras, passou por um amplo processo de reordenamento urbano e social impulsionado pelo crescimento econômico vivido entre o final do século XIX e início do XX – período da Belle Epóque fortalezense.

Assim, a iniciativa do governo de construir os campos de concentração foi louvada pela alta sociedade, horrorizada com os sertanejos maltrapilhos e enfermos pela fome em praças e locais públicos da cidade. Na prática, os campos de concentração foram tão dramáticos quanto a própria seca.

Este é o cenário de terror provocado não só pelo fenômeno climático da seca, mas também pela ausência de políticas públicas efetivas e, principalmente, o impacto das contradições sociais gerado entre a recém-formada burguesia e uma imensidão de sertanejos pobres.


Além da tragédia da grande seca de 1915, como se não bastasse, dezessete anos depois do desastre do Campo de Concentração do Alagadiço, em 1932, o governo com apoio federal do Estado Novo “aprimorou” a experiência e desta vez não só na capital, mas também em outras sete cidades do interior.

Em uma sociedade de classes injusta, períodos de grande estiagem atingem diretamente o agricultor pobre que depende do próprio cultivo diário para sobreviver. O Ceará possui 92% de seu território inserido no semiárido, sendo uma área de vulnerabilidade.

Esse elemento aprofunda as questões sociais e econômicas, gerando cada vez mais um fosso entre ricos e pobres. Esse quadro ficou cada vez mais explícito quando o Estado entrou no modo de produção capitalista.

Em meados do século XIX, Europa e EUA estavam em plena Revolução Industrial. O avanço da indústria têxtil no mercado internacional gerou uma demanda crescente de algodão e foi aí que o Ceará transformou-se em um polo exportador de algodão.

Data-se dessa época a construção do porto do Mucuripe e outras províncias também passaram a escoar sua produção por lá, dando início ao crescimento econômico de Fortaleza, a concentração de riquezas a partir da integração do Ceará na divisão internacional do trabalho como exportador de algodão.

Nascia uma elite econômica e política na capital. A euforia dominava a jovem burguesia cearense no final do século passado e foram inaugurados a iluminação pública e calçamento.

No início do século XX, teve início a operação de cabo submarino do sistema telefônico e telégrafo e dos serviços postais. A cidade passou então por um período de prosperidade. Começaram a funcionar os primeiros cursos superiores - Direito, Farmácia, Odontologia e Agronomia.

Também nesse período foram inaugurados o primeiro cinema (1910) e o Theatro José de Alencar (1910).

A primeira grande seca que explode nesta “eufórica” Fortaleza é em 1877, demonstrando um grandioso problema social. A cidade é ocupada por sertanejos em número quase quatro vezes maior que a população.

É nesta seca que o desenvolvimento do capitalismo se defronta pela primeira vez com o fenômeno. Os saques eram constantes, a polícia era convocada para intervir nos tumultos.

As ruas da cidade de repente ficaram cheias de pedintes e doentes.

Rodolfo Teófilo, farmacêutico e escritor, publicou no livro A Fome o relato de Fortaleza no final do século XIX, o prelúdio do desastre ainda maior em 1915: “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que te afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! (...) E as crianças que morrem, como são conduzidas! Pela manhã, os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”.

O dia 10 de dezembro de 1878 ficou conhecido na história do Ceará como “Dia dos Mil Mortos”, quando o antigo cemitério do Lazareto da Lagoa Funda, a noroeste de Fortaleza, recebeu 1004 cadáveres.

Alguns anos depois o cemitério foi fechado em razão do alto índice de impregnação infecciosa que ameaçava a saúde pública.

Campo de concentração do Alagadiço

No inicio de 1915, Fortaleza recebeu assustadoramente um número quatro vezes maior que a população existente, provocando epidemias, crimes, assassinatos, suicídios, saques, loucuras e, segundo alguns historiadores, até mesmo antropofagia por causa da fome.

Os sertanejos que não tinham mais local pra se instalarem, se amontoavam nas ruas da cidade, ocupavam as calçadas e 3 mil pessoas se abrigavam no Passeio Público, até então área nobre de sociabilidade da elite na Belle Epóque fortalezense. Muitas vezes a força policial foi empregada para conter a realidade que incomodava o ideal burguês.

A seca de 1915 acontece justamente em meio ao processo de inserção da cidade na economia capitalista.

Assim, o então presidente (governador) do estado, Benjamin Liberato Barroso, pressionado pela elite local, propôs construir um campo para concentrar refugiados e necessitados em um único local dentro da capital, em desesperada fuga, e “facilitar” o “socorro”.

O terreno era quase 500 metros quadrados no Alagadiço, onde hoje compreende os bairros São Gerardo e Otávio Bonfim. As casas eram pequenas e apinhadas uma as outras, construídas com placas de zinco.

Em pouco tempo, o número de sertanejos cresceu muito e o governo não pode manter em boas condições de alimentação e higiene.

A situação se agravou quando chegaram as chuvas de setembro e outubro - as chuvas do caju - somando todo o tipo de descaso, de tal forma que em dezembro já apresentava incontáveis mortes.

Os cadáveres empilhavam-se à espera de transporte, ao longo da linha de bonde que passava ao lado do campo.

A política de Estado de segregação dos sertanejos chegou em uma média de 150 mortes diárias.  O governo então traçou uma nova estratégia contra a situação que só piorava e passou a oferecer passagens para outros estados aos sertanejos, primeiramente à região Amazônica, trabalhar nos seringais.

A propaganda inicialmente adotada pelo governo, igreja e jornais da época estimulava a migração fazendo falso apelo ao orgulho pessoal dessas pessoas, enquanto na verdade a elite se livraria do “estorvo”.

Quem “se entregava” e padecia do flagelo da seca nos campos de concentração eram os flagelados; quem “superava as dificuldades” e se retirava do estado para buscar melhores condições de vida eram os retirantes.

Foi o início da saga de enormes contingentes de retirantes em todas as regiões do Brasil no século XIX. O campo de concentração do Alagadiço foi desativado em 18 de dezembro de 1915.

Os currais do governo em 1932

Em 1932, outra grande estiagem iria devastar o semiárido nordestino e resgatou-se o projeto de 1915. O interventor do Estado Novo, governador Roberto Carneiro de Mendonça, atendia aos interesses da elite econômica e coronelista que deu apoio ao movimento que conduziu Getúlio Vargas ao governo em 1930.

Mas agora, os campos de concentração tinham apelo nacionalista e o projeto contava com o apoio maior de governantes, técnicos e jornalistas.

Desta vez, o governo instala novos campos de concentração, cercados por arames farpados e vigiados por soldados que detinham aqueles que tentavam fugir.

As estatísticas oficiais apontam quase 84 mil distribuídos entre Senador Pompeu (Patu), Ipu, Quixeramobim, Cariús(São Mateus), Crato (Buriti, o maior, com 65.000 pessoas), além do já conhecido campo do Alagadiço (bairro Otávio Bonfim) e o novo campo a noroeste da capital, o Campo do Urubu (Pirambu).

Os flagelados confinados nestes campos ficavam em condições desumanas e resultou em inúmeras mortes. Registros oficiais contabilizam mais de 60 mil cearenses mortos nesses campos.

Nessa época tornou-se conhecido o termo indústria da seca: as oligarquias econômicas e políticas da região que usavam recursos do governo em benefício próprio, com o pretexto de combater as mazelas do fenômeno climático.

Em 1933, as chuvas voltaram a cair e os campos foram desativados. Os sobreviventes deveriam ser encaminhados de volta aos locais de origem. Nem todos, porém, retornaram. Em Fortaleza a maioria permaneceu, originando as comunidades de Moura Brasil e Pirambu.

Outras secas atingiriam o Nordeste nas décadas seguintes. A mais abrangente delas teve início em 1979 e durou quase cinco anos. Fome e saques se espalharam pela região.  Dados oficiais indicam que morreram 3,5 milhões de pessoas por conta das pestes e desnutrição.

A seca é um fenômeno climático, mas o desastre é um problema político. Os campos de concentração, tendo 1915 como partida, levou a que muitos sertanejos morressem mais em função do confinamento e isolamento do que pela seca em si.

Essa tragédia até hoje insiste em permanecer na memória do homem do sertão, apesar de não ser matéria que se veja nas escolas. Na verdade, o silêncio é dirigido, pois os avós das oligarquias tradicionais, na política, jornais e setores da igreja foram coniventes com a tragédia.

O silêncio dos que estão hoje encobre a luta do pobre por dignidade e a violência contra ele praticada. Quinze por quinze, o que realmente mudou?

José Carapinima

Fonte. Jornal Inverta, Edição 478.
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