sábado, 7 de maio de 2016

A destruição do Império dos Incas

Todos que querem saber para onde vão, tem que saber de onde vêm. Esse é um dos grandes dilemas do continente americano. A construção histórica realizada pelas oligarquias locais e pelos imperialismos colonial e capitalista corresponde muito pouco a realidade. As classes dominantes agem como assassinos que tentam eliminar todas as provas de seu crime. O que aprendemos, o que a maior parte da população conhece, não passa de uma fraude. É apenas ideologia que inverte, escamoteia e deturpa a realidade para justificar a ordem vigente.

Neste texto, analisarei alguns pontos relativos ao processo da conquista européia sobre o continente americano. Mais especificamente, a destruição do Império dos Incas. Porém, acho importante realizar comparações com o processo de conquista dos outros povos que em nosso continente viviam.

Essa história nos pertence enquanto latino-americanos. Só resolveremos nossos problemas pensando soluções para a América Latina como um todo. Hoje, os Estados Unidos se impõem e pisoteiam nosso continente em nome dos interesses de sua burguesia. Nós, povos latino-americanos, temos uma unidade não porque necessariamente tenhamos o mesmo pai ou a mesma mãe, mas somos irmãos porque temos o mesmo inimigo. Assim, a questão da conquista européia sobre o continente, pois, apesar do Império Inca ter ficado à margem do território que hoje constitui o Brasil, fomos todos dominados pelos mesmos conquistadores, os impérios da Península Ibérica (Espa-nha e Portugal). Ou seja, eram as mesmas estratégias, no mesmo contexto histórico.

Nossa história é de um continente densamente povoado que foi subitamente conquistado por povos vindos do continente europeu. Com o massacre cometido e o constante fluxo de europeus para a América, alguns povos foram totalmente dizimados, e a população de origem européia ou africana (locais onde o trabalho escravo era a mão-de-obra explorada) passou a ser majoritária.

Quando o conquistador espanhol Lorenzo Bernal é derrotado em uma batalha pelos araucanos do Chile, profetiza: “Logo ganharemos a guerra. Seremos cada vez mais”. Quando um chefe indígena questiona gargalhando: “Com que mulheres?”, Bernal responde “se não há espanholas, teremos as vossas. E nelas faremos filhos que serão vossos amos”.

Essa destruição de povos inteiros se deu com maior intensidade onde a densidade populacional era baixa. Os povos dessas regiões viviam no estágio do paleolítico. É o caso da maioria dos povos indígenas do Brasil, ou dos Estados Unidos, onde houve o extermínio total ou quase total de diversas nações.

Contudo, sabemos que esses mesmos povos com tecnologia menos desenvolvida foram os que ofereceram uma resistência mais duradoura aos conquistadores. Muitas vezes nômades, o deslocamento pelo território e a forma como se relacionavam com a natureza os permitiram travar uma guerra de movimento para defenderem sua liberdade, sua língua, sua cultura. Seu relativo isolamento fez com que o fator externo de contato com os brancos não acelerasse significativamente as contradições internas e o desagregamento dessas comunidades. É o caso do já citado povo araucano e de nações indígenas brasileiras que só foram submetidas no século 20 e por um inimigo muitas vezes mais numeroso.

Nesses povos, o processo de criação da sociedade de classes estava pouco desenvolvido. A luta de classes existia mais como semente, ou seja, a divisão da sociedade apenas começara com certa divisão entre o trabalho intelectual (sacerdotes chefes) e o trabalho manual (produtores). Logo, entre esses povos não havia um estado desenvolvido para oprimir uma classe por outra.

Por mais que o desenvolvimento das classes sociais em algumas populações seja acelerado pelo contato com os conquistadores, aqui ele não se deu em um ritmo suficientemente grande para ter tido papel significativo. Algo semelhante ocorreu com os povos bárbaros que se relacionavam com os romanos, mas lá passaram-se muitos séculos até esses povos começarem a entrar. Nesses casos, o papel do comércio pode muitas vezes ultrapassar o da submissão pelas armas, pois a apropriação por alguns indivíduos do produto obtido pela troca com outras comunidades consolida o poder de algumas famílias, acirrando a divisão da sociedade.

Um processo diferente é observado no caso dos países onde haviam povos com um desenvolvimento maior das forças produtivas, logo com relações sociais mais desenvolvidas. Os principais exemplos são dois, os povos que vivam na Cordilheira dos Andes e nos arredores desta (Incas e Nascas, por exemplo) e os povos do Golfo do México (Astecas e Maias, por exemplo). Guardadas as peculiaridades de cada situação concreta, podemos afirmar que nos Andes e no Golfo do México ocorreram processos com o mesmo sentido histórico. Essas regiões eram densamente povoadas, fato que explica porque, mesmo depois do massacre de milhões, as populações desses países continuam sendo em sua maioria indígenas.

Os dois maiores impérios, o Inca e o Asteca, ruíram em questão de poucos anos. Suas populações, em poucas décadas, foram inteiramente submetidas aos conquistadores espanhóis. O trabalho social desses povos, que tinham como característica forças produtivas altamente desenvolvidas, não pelo desenvolvimento tecnológico, mas pela elevada força de trabalho, passa a ser explorada pelos conquistadores.

A chave para entendermos a destruição desses impérios é o desenvolvimento de relações sociais de dominação. Essas sociedades já haviam consolidado as classes no seu interior e a produção já estava divorciada da apropriação do trabalho. Os conquistadores aliaram-se com parte dos curacas (chefes locais) para destruírem outra parte das oligarquias e passaram a se apropriar do trabalho social, utilizando-se de parte da superestrutura existente. Com o fortalecimento do domínio, essa superestrutura vai sendo transformada. O ayllu (organização de diversas famílias em uma espécie de gen), no entanto, continua existindo, ainda que de forma modificada, até hoje em diversas regiões dos Andes.

Com a conquista surge a figura do “encomiendero”, espanhóis que recebiam permissão real para cobrar tributo e explorar diretamente a mão-de-obra de uma população nativa. Um exército de milhões de trabalhadores, já organizado, passa a satisfazer a ganância colonizadora, principalmente na extração de ouro e prata.

Só assim podemos entender como um império que tinha uma capital mais populosa que qualquer capital européia pôde cair diante de um punhado de espanhóis. Sem levar em consideração a explicação racista, justificativa ideológica dos conquistadores que se diziam em missão civilizatória, as explicações normalmente dadas, como a diferença entre os armamentos, a utilização do cavalo na guerra pelos espanhóis e o genocídio causado pela epidemia de varíola que dizimou milhões de indígenas, têm uma certa importância. Porém, são fatores secundários, já que outros povos que também sofreram dessas desvantagens, como os já citados povos nômades, não foram submetidos tão rapidamente.

Para fazermos uma análise materialista histórica, devemos buscar conhecer quais contradições que existiam internamente, tanto na sociedade incaica, quanto na européia. Qual era a situação dos povos andinos quando os espanhóis chegaram.

O Império Inca, com capital em Cuzco, que existiu durante 95 anos (1438 – 1533), representa o apogeu do desenvolvimento das forças produtivas na América do Sul, anteriormente à conquista ibérica. As forças produtivas correspondem ao desenvolvimento tecnológico mais o desenvolvimento da organização do trabalho. Nos Andes podemos ressaltar uma supremacia da organização do trabalho sobre a tecnologia. Enquanto o império desconhecia a roda, era capaz de planificar e utilizar a ação de um exército de milhões de trabalhadores.

O Império Inca não foi o primeiro sul-americano. O antecedeu os impérios Wari, Chavin e muitos outros. Todos esses impérios, incluindo o Inca, constituíram-se acumulando riquezas através de guerras de rapina. A exploração sobre os outros povos era baseada em uma pesada cobrança de tributos.

Quando os espanhóis chegaram na costa peruana, o império Inca ainda não estava consolidado. A memória das crueldades feitas na guerra ainda eram sentidas na pele por muitos povos conquistados. Ele era odiado pelas elites regionais, que haviam sido obrigados a ceder uma parte leonina de seus privilégios em favor da classe dominante cuzqueña. Os incas viviam temerosos de uma revolta. Impunham a ordem, principalmente através do medo, ao castigarem “exemplarmente” (extermínio) os povos que tentassem qualquer ação de liberação.

O imperador, o inca, era um cargo hereditário, sendo considerado um deus pelo seu papel de interceder perante os deuses em nome dos homens. Essa imagem foi historicamente construída pela aristocracia cuzqueña, como instrumento de dominação. Mas, conforme a complexidade e o tamanho do império, foi crescendo a importância de outros centros econômicos, como Quito (atual capital do Equador). Com a morte do inca, Huayna Capac, em 1527, Huáscar, cuzqueño, filho legítimo do imperador, teve sua autoridade questionada por Atauhalpa, filho bastardo do imperador, nascido e ligado à oligarquia de Quito. O conflito resultou em uma sangrenta guerra vencida pela facção de Quito. Huáscar foi preso e humilhado. Ele foi obrigado a comer fezes e beber urina. Ao humilhá-lo, Atahualpa certificava-se de que seu opositor fosse destituído de qualquer áurea divina, provando que o filho do sol era somente ele, Atahualpa. Muitos cuzqueños foram massacrados pela facção de Quito e seus corpos permaneceram empalados pelas estradas do império até depois da conquista espanhola.

Esse cenário cheio de ressentimentos explica como pôde desmoronar um império tão poderoso. Os cuzqueños, antigo centro de autoridade, e outros reinos recém-submetidos, acreditavam que poderiam utilizar-se dos espanhóis para derrotar os de Quito. O exército espanhol, com suas armaduras, cavalos, arcabuzes (os incas acreditavam que fossem trovões), parecia uma intervenção divina, porém numa sociedade onde a superioridade bélica representava maciçamente superioridade numérica, aquele punhado de homens não pareciam uma grande ameaça. Diferentemente dos astecas e de seu imperador Montezuma, os Incas não acharam, em momento algum, que os espanhóis fossem deuses.

O império espanhol, por sua vez, tinha uma casa imperial (uma nobreza) que há séculos conduzia uma política de alianças e traições nas guerras feudais. Os militares espanhóis estavam acostumados com essa forma de disputa pelo poder político.

Dessa forma, os espanhóis manobraram esses povos de forma que a maioria das batalhas da conquista espanhola foram travadas entre indígenas. O próprio inca Manco Capac assumiu, lutando ao lado dos espanhóis contra os de Quito, para depois começar a combatê-los. Às manobras entre as oligarquias de Cuzco, e Quito, somou-se o incentivo espanhol à sublevação de outros povos dentro dos limites do império.

Hoje já temos diversas fontes que nos contam como isso aconteceu. Uma das mais importantes é a de dom Felipe Guacrapaucar, que, entre 1558 e 1562, ditou diversas memórias e informes sobre o papel de seu povo, os huancas, na destruição do Império Inca e na consolidação do poder de Pizarro. Seu interesse era receber dos espanhóis privilégios e pagamentos por seu inegável papel nesta contenda. Ele viajou até Lima, onde foi ouvido em uma Audiência Real. Os espanhóis reconheceram seu esforço e isentaram seu povo de diversos impostos. Até hoje, a Região do Peru, onde se encontra Jauja, é uma região onde o latifúndio tem menor força, pois as terras indígenas não foram completamente roubadas.

Jauja ficava em uma região chave, pois estava entre Quito e Cuzco, logo todas as tropas que se deslocavam entre as duas cidades passavam por lá. O papel dos huancas foi de protagonista. Inclusive, quando os espanhóis começaram a lutar entre si, após Francisco Girón desconhecer a autoridade de Francisco Pizarro, foi um exército de huancas que o derrotou e o submeteu a Pizarro, fato registrado em 1615, em um desenho na crônica indígena de Guaman Poma de Ayala.

A desunião dos povos americanos, conseqüência evidente das relações de exploração que aqui estavam esta-belecidas, foi responsável pelo domínio espanhol. As considerações sobre a colonização espanhola está relacionada com a tentativa dos Estados Unidos de intensificar sua dominação e exploração no resto do continente. Assim, também devemos analisar a forma como dividem nossos povos, nos jogam uns contra os outros, e como os ressentimentos entre nossos povos também decorrem de relações de exploração (como a exploração que o Chile faz da Bolívia, ou como o Brasil massacra o povo do Haiti).

Júlio P. S.

Fonte Jornal Inverta
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