domingo, 1 de maio de 2016

Cordel: Carta ao patrão

Hoje escrevo esta carta
Ao senhor que é meu patrão
Tratando de um problema
Do qual tens a solução
Para os pobres faltam casas
Para as mesas falta o pão

É o mínimo para a vida
Que estou a reivindicar
Não é uma mendicância
É direito a resgatar
De todos os trabalhadores
Que insistes explorar

Apossa-te da mais valia
Isso é uma aberração
Uma desumanidade
E dizes que és cristão
Se Jesus Cristo voltasse
Negava a religião

Lembras quando conversávamos
O que falaste lembro eu
Disseste que era rico
Porque Deus lhe protegeu
Mas foi trabalho não pago
Que ao senhor enriqueceu

Disseste que era um pobre
E foi por Deus ajudado
Ia à missa aos domingos
Sofria tudo calado
Essa farsa na verdade
Deixa o povo alienado

Mas vivendo percebi
Dois deuses são invocados
Um Deus é o Verdadeiro
Por ele fomos criados
Sem segregar credo ou cor
Ele nos quer irmanados

O outro é um ‘deus-arma’
Vendido caro na igreja
Mesmo assim ele ameaça
A quem justiça deseja
Desestimulando a luta
De quem liberdade almeja

Os rituais sempre foram
Para pobres ameaça
Enquanto que para ricos
São só em ação de graça
Como se a classe pobre
Não fosse da mesma raça

Portanto senhor patrão
Não queira nos enganar
Porque é o mesmo fim
Que está a nos esperar
Lá na morada dos mortos
Um só pó vamos virar

Enquanto estamos vivendo
Reconheça a igualdade
Entre nós da espécie humana
Da nossa sociedade
Não diga: ‘Deus me enricou’
Isso é pura falsidade

Se queres ser coerente
Com as palavras que dizes
Distribua as riquezas
Queira todos nós felizes
Da atual economia
Destruamos as raízes

O senhor também merece
Vida com dignidade
Não como fazes agora
É triste a realidade
Operário leva esmolas
Ficas com mais da metade

Para ter vida decente
Não dá se for com migalha
Guris não sabem porque
Não comem e o pai trabalha
Quero fazer um lembrete
Que não tem bolso mortalha

Patrão aumente o salário
Te ajudei a enriquecer
Não consideres favor
O direito de viver
Não trabalho só pra mim
É pra mais vinte comer

Sei que à Vossa Senhoria
Não interessa mudança
Mas é para o bem de todos
A luta pela bonança
Nada mais de quem detestas

Assina: Antonio França

Antônio Queiroz de França
Cordel publicado na 1ª Antologia da SOPOEMA (Sociedade dos Poetas e Escritores de Maracanaú).
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