terça-feira, 31 de maio de 2016

Panamá à beira da espoliação

Panamá (Prensa Latina) Criar uma fuga de capitais para o complexo de paraísos fiscais dos Estados Unidos, Reino Unido, Países Baixos e Israel, onde gozarão de absoluta imunidade, garantia e proteção, pode ser um objetivo dos Panama Papers.

A hipótese cada vez toma mais caráter de tese na medida que se conhecem novas informações e os raciocínios iniciam sobre o emaranhado de cabos soltos.

Ao analista panamenho Julio Yao pertence a primeira afirmação deste texto, e é um de pelo menos cinco propósitos que na sua opinião se evidenciam do escândalo midiático.

Outros seriam: Desprestigiar os inimigos dos centros de poder estadunidenses, como os presidentes russo Vladimir Putin, o sírio Bashar al-Assad, o venezuelano Nicolás Maduro e o ex-presidente iraniano Mahmud Ahmadineyad.

Também desestabilizar o grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), os países emergentes e os possíveis líderes de um mundo multipolar; construir um bloco regional que enfrente a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) e erguer as bases de uma nova ordem internacional sob a égide dos Estados Unidos.

Esta propaganda contra os adversários políticos não é nada mais que a parte visível do iceberg, pois o realmente importante é o futuro do sistema financeiro internacional.

Panamá é talvez apenas a desculpa, por isso não falta quem, ao analisar a suposta operação de política financeira mundial e reordenamento dos espaços de influência, deslize tentando sacrificar o pequeno país centro-americano e lhe arrancar sua carteira de serviços, depois do "exitoso" experimento econômico imposto com a invasão militar de 1989.

"Parece que os gringos têm perpetrado sobre nós uma segunda invasão, desta vez sem helicópteros nem artilharia, porém com bombas tão potentes que as vítimas não ficarão queimadas, como as que viviam em El Chorrillo, mas sim com outras graves lesões", afirmou o diário La Estrella.

"E os panamenhos seguimos com a atitude de súditos reverenciadores, aceitando que continuem nos espancando", assinalou o jornal na seção O melhor da semana, escrita pela ex-ministra Mariela Sagel, que recordou que o escândalo Mossack-Fonseca (MossFon) se uniu à inclusão de 68 empresas panamenhas na Lista Clinton de lavagem de ativos.

A percepção de sentir-se atacado cresce na sociedade panamenha, e inclusive se desliza no sutil discurso político do próprio Governo, após episódios midiáticos que estigmatizam o país com a repulsiva lista de paraísos fiscais.

"Estamos sendo utilizados por vários países para levar o Panamá a sair do que tem sido nossa maior fonte de rendimentos, que é o sistema de serviços", afirmou a especialista em assuntos bancários Blanca Pabón.

Reiterou que o país não se caracteriza por sua produção de bens materiais, mas por prestações como as do canal interoceânico, o sistema bancário internacional e a criação de sociedades.

A firma panamenha MossFon "é quase um jogador irrelevante no cenário global dos Rockefeller, George Soros, Rothschilds, que manipulam seus fantoches depois nos bastidores", assegurou Yao.

Enquanto um artigo da página digital Rebelión afirmou que a operação midiática dos Panama Papers é uma manobra de choque para que os grandes capitais se vejam obrigados a se transferir para uma zona segura e assim, de passagem, eliminar certa concorrência que possa existir.

O escândalo é uma tentativa de redirecionar os amplos fluxos financeiros das zonas offshore ou paraísos fiscais para os Estados Unidos, afirmou o jornalista e especialista financeiro alemão Ernst Wolff à revista russa Sputnik.

"O que está acontecendo agora é que os Estados Unidos estão tentando secar certos paraísos fiscais para se apresentar a si mesmo como o novo e maior paraíso fiscal do mundo", afirmou, e recordou que anteriormente destruiu o princípio do sigilo fiscal na Suíça com outro escândalo similar.

"Em território estadunidense está vigente um sigilo bancário ilimitado e os estados de Nevada, Dakota do Sul, Wyoming e Delaware são paraísos promotores absolutos", explicou.

PROTEGER-SE DE FUTUROS DEBACLES FINANCEIROS 

A explosão da bolha financeira de 2008 nos Estados Unidos, e suas consequências, foi a pior crise do país desde a Grande Depressão de 1929 e a primeira econômica verdadeiramente global, e que algumas opiniões adiantam que se tomam medidas para reforçar o ainda frágil crescimento.

Christina Romer, catedrática da universidade de Berkeley, que preside atualmente o Comitê de Conselheiros Econômicos do atual governo estadunidense, sustenta que a saída do Crack de 29 foi a afluência, a partir de 1936, dos capitais europeus que fugiam do aumento dos perigos.

A historiadora nega que a solução fosse fruto do New Deal (Novo Trato) do então presidente Franklin D. Roosevelt, nem da Segunda Guerra Mundial.

"Nisso Barack Obama tem baseado sua política econômica. Em primeiro lugar, agiu para fechar todos os paraísos fiscais que não estão sob controle de Washington e Londres. Depois, organizou a desestabilização da Grécia e Chipre para que os capitais europeus fossem se refugiar nos paraísos fiscais anglo-saxões", opinou o jornalista francês Thierry Meyssan.

"O Departamento do Tesouro estadunidense pôde comprovar então como os capitais gregos fugiam da Grécia. O experimento foi concluído e a Casa Branca decidiu mergulhar aquele frágil Estado em uma crise financeira e econômica que chegou a colocar em perigo a própria existência da eurozona", assinalou o pesquisador.

"Como foi previsto, cada vez que surgem preocupações sobre a possível expulsão da Grécia do euro ou sobre uma dissolução da eurozona, capitais europeus correm para os paraísos fiscais disponíveis, principalmente britânicos, estadunidenses e holandeses", segundo a fonte.

O temor dos proprietários de perder suas fortunas fez com que as transferissem para o lugar mais seguro, e a operação MossFon não tem outro fim que destruir os paraísos fiscais não anglo-saxões, concluiu Yao, que recordou que nos mesmos os depósitos estão calculados entre 30 e 40 bilhões (milhões de milhões) de dólares.

A tese de Romer está baseada na política econômica de Obama, cujo objetivo é redirecionar estes fundos para seu país para recuperar a instável economia, opinou o jornalista panamenho.

"Oxalá não esteja se abrindo uma porta para intervenções diretas dos gringos em assuntos internos do Panamá", expressou Rogelio Paredes, ex-deputado do Partido Revolucionário Democrático, ao analisar o mais recente episódio financeiro com a Lista Clinton e a ingerência da nação do norte.

O último golpe representaria cerca de seis mil empregos das 68 empresas sancionadas pelo Tesouro estadunidense por suposta narcolavagem, sem que se exponham as provas à justiça panamenha, analisaram advogados e jornalistas em um programa de opinião do canal Telemetro.

E, enquanto alguns agradecem "a preocupação do governo norte-americano em trabalhar com o panamenho para salvaguardar a maior quantidade de empregos das empresas apontadas na Lista Clinton", outros no espaço televisivo acusaram esse país de provocar-lhes uma crise, talvez com as obscuras intenções da espoliação.

 Osvaldo Rodríguez Martínez

Fonte Prensa Latina
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