sexta-feira, 25 de novembro de 2016

"Quando a tirania é lei, ocupação é ordem"

Reproduzimos nota de professores da Universidade Federal do Ceará (UFC), reunidos no Coletivo Graúna, que avalia a legitimidade das ocupações estudantis em meio ao processo de desmonte das conquistas sociais do governo golpista de Michel Temer.

Dia 3 de novembro, mais de 1.500 estudantes da Universidade Federal do Ceará (UFC) lotaram a Concha Acústica numa demonstração de força para enfrentar o desmonte da educação pública, proposto pelo governo ilegítimo de Michel Temer por meio da PEC 241 (agora PEC 55 no Senado), da Reforma do Ensino Médio e da Lei da Mordaça. Naquele dia, estávamos, alguns professores, como espectadores, animados com a diversidade de perspectivas apresentadas por eles.
 
A estratégia definida na Assembleia Estudantil foi entrar em greve e ocupar a UFC. Mais de 30 cursos de graduação e pós-graduação estão ocupados pelos estudantes. Dia após dia, o movimento se fortalece e expõe a necessidade de nós, docentes, assumirmos o papel de apoiadores ativos e envolvidos. São os estudantes a nos proporem um novo conhecimento. Quando os poderes se negam a ouvir aqueles que dizem representar, negam direitos e silenciam a voz, que resta fazer? Ocupar. “Nada para nós, sem nós”. Este é o limite que os estudantes vêm opondo ao autoritarismo e ao arbítrio.

Ocupar é verbo de ação, enfrentamento e, sobretudo, reconstrução do espaço. O momento pede renovação do vocabulário. Requer descartar o léxico velho e amigo da opressão, que tacha de “baderna” e “invasão” manifestações legítimas de insatisfação e desejo de participação popular.

Ao contrário de tais sentidos negativos, as ocupações redefiniram certa concepção cultural muito deletéria no Brasil, a de que o público é de ninguém ou é “do governo”. As ocupações nas escolas construíram a compreensão e o sentimento de que o público é da coletividade.

Os alunos da UFC têm dado indicações de que não é só uma universidade para todos que eles desejam, mas uma instituição internamente democrática, aberta a novos currículos e metodologias. Já ensaiam essas novidades. As discussões circulam de forma participativa e proporcionam muitos aprendizados. Os cartazes espalhados pela UFC gritam frases e palavras caras a quem pensa, mas uma frase especificamente explica o sentido da ocupação: “Quando a tirania é lei, ocupação é ordem”.

Diante da perspectiva do congelamento dos investimentos públicos em educação, saúde e outros direitos essenciais, pelos 20 anos que serão decisivos em suas vidas e sua geração, os estudantes se organizam com vigor para estar à altura de um desafio histórico. Nós, professores, somos chamados a apoiá-los e a lutar com eles. Nossa resposta dirá ao futuro quem somos.  

Irenísia Oliveira / Cláudio Rodrigues
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