domingo, 12 de março de 2017

Estados Unidos, '(in)justiça' a longa distância

''Não sabemos quem eram, mas felizmente todos eram maus'', ironizou há algum tempo Murtaza Hussein, um conhecido jornalista dos meios de comunicação estadunidenses, após uma matança de 150 pessoas por drones dos Estados Unidos na Somália.

O sarcasmo jornalístico foi uma das tantas reações ante esse tipo de manipulação por Washington da antípoda entre o bem e o mal, em que o bom opera em qualquer país asiático ou africano um avião de controle remoto ou integra um comando de operações especiais.

Para o Pentágono é fácil explicar depois que as vítimas eram terroristas ou militantes de uma seita extremista, mas sem mostrar provas, um tanto difíceis de obter a partir das alturas ou após uma ação-relâmpago com mísseis que não deixam impressões.

'Utilizando este padrão de afirmações, uma grande quantidade de pessoas que não têm absolutamente nem ideia dos que foram mortos ficam convencidas de que mereciam', comenta o também jornalista e estudioso estadunidense Rick Rozoff.

Para o conhecido especialista, as palavras 'terrorista' e 'militante' descrevem 'alguém que morre quando meu governo atira bombas, ou qualquer um que meu governo diz que é um terrorista'.

Mas como a atividade militar estadunidense a longa distância se amplia cada vez mais entre países da Ásia e África suscetíveis de seu interesse, já há os que estimam as dimensões de um hipotético teatro de operações, se Washington decidisse um ataque a fundo.

'Agregando as quatro frentes - se EUA lançasse um ataque contra o Iêmen e a Somália - teria que invadir um território igual a três quartos da Europa Ocidental; e é difícil que tenha força suficiente para isso', opina o analista político russo Andrei Fedyashin.

Os citados pesquisadores coincidem, em suma, que Washington justifica o envio de tropas e os ataques de drones naqueles Estados onde presume que ameaçam seus soldados nessas regiões, sem importar o saldo humano de suas populações.

SALDOS DE UM MANDATO PRESIDENCIAL 

O presidente dos Estados Unidos que saiu, Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz em 2009, deixou o cargo com um acúmulo durante seu mandato de três mil supostos combatentes, entre eles 117 civis, mortos por drones e ataques-comandos em diferentes países de um mundo agora apreensivo sobre qual será a política a esse respeito de seu substituto, Donald Trump.

Os mortos durante os oito anos de liderança do governante democrata pertencem (ou não) a milícias opositoras de diferentes credos em países como Paquistão, Iêmen, Somália, Líbia, Síria, Iraque e Afeganistão, segundo o diretor de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, James Clapper.

Organizações de direitos humanos estimam, no entanto, que são muitas mais as vítimas fatais resultantes dos 526 'ataques antiterroristas' executados entre janeiro de 2009 e dezembro de 2016, incluídos os de aviões sem tripulação.

As referidas instituições questionam a ocultação de baixas civis que sinaliza os informes oferecidos pelo governo, às vezes com relutância ante as exigências públicas em relação a uma maior informação sobre tais operações letais.

SÃO EXATAS AS CIFRAS DE MORTOS? 

Especialistas desses grupos de direitos humanos opinam que as discrepâncias sobre a confiabilidade das cifras de vítimas desses ataques poderiam se salvar se Washington revelasse uma lista exata com os nomes de todos os civis mortos, com datas, locais e outros detalhes.

Esse e outros documentos carecem também de precisões sobre os locais de ataques, embora seja fartamente conhecido que o Departamento de Defesa e a CIA perseguem objetivos no Paquistão, Iêmen, Somália, Líbia, Iraque, Síria e Afeganistão.

O pretexto estadunidense para explicar esse déficit baseia-se, entre outras razões, na falta de acesso de seus funcionários a 'dados delicados de inteligência' para facilitar a identificação dos mortos, cuja quantidade real perde-se no ambíguo termo oficial de 'danos colaterais'.

As operações encobertas dos militares estadunidenses se realizam mediante suas forças especiais e as citadas naves operadas por controle remoto ou drones, estes últimos mediante ataques, para muitos, ainda mais letais e cegos na identificação de um suposto inimigo.

Os bombardeios desses artefatos, que matam sobretudo africanos, árabes e outros asiáticos, constituem para Washington um novo tipo de execução sumária de inimigos, mas para o restante do mundo são só uma simples maquinaria para matar a distância.

Aproximadamente 22 milhões de dólares custam alguns desses drones (em espanhol zánganos) ou Veículos Aéreos Não Tripulados (UAV), situados distantes dos países de interesse, ainda que manipulados com uma efetividade de tiro de 100%, a mesma que Washington atribui à robótica estadunidense.

Antonio Paneque Brizuela

FONTE: Prensa Latina
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