quarta-feira, 1 de março de 2017

Perplexidades e incertezas com Trump

Havia afirmado em anteriores artigos que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, não era um fenômeno saído do nada, mas que sua vertiginosa ascensão foi produto de uma sociedade fragmentada e desarticulada por uma direção tradicional que, depois da queda das chamadas democracias populares europeias, apostou no monopólio do poder global impondo um ponto de mira projetado a partir do prisma de um capital transbordante e sem fronteiras, sem se dar conta de que as forças sociais que interagem para produzir as riquezas se movem de forma constante respondendo às leis da dialética.

O magnata irrompeu como produto das forças desencadeadas a partir das políticas neoliberais que usaram de plataforma a globalização, com seus pilares em aberturas dos mercados e sua sequela de desregulamentação que permitiu ao capital se converter no centro das políticas públicas, deslocando o ser humano como eixo em torno do qual deveriam girar as atividades econômicas, sociais, ambientais e políticas para manter o mundo sobre as guias da sensatez, e não sobre o vesânico tropel apocalíptico em que os usurários do capitalismo selvagem nos meteram em seu obsceno afã de acumular riquezas.

Antes de ser eleito, adverti sobre seu possível triunfo, afirmei que nele se conjugam os sentimentos de decepção e esperanças; o desejo de uma parte da população que sentia a decadência de um país que apostou mal, que calculou mal a globalização em seu desmedido desejo de ser a fábrica do mundo à base de mão de obra barata dos que deveriam se converter em simples consumidores: deslocaram suas empresas para maximizar seus ganhos; e efetivamente, maximizaram. Tornaram-se mais ricos, mas provocaram desemprego e precarizaram o que se pôde manter, com o que as desigualdades se aprofundaram e o 'sonho americano' começou a se desvanecer; então, desvencilhada a coesão social, das mãos (segundo pensavam) dos líderes políticos tradicionais, deixaram-se seduzir pelo discurso fascista, como afirmei durante a campanha eleitoral, de um homem que prometia devolver a grandeza ao seu país: trazer de novo as empresas e com isso 'lhes devolver' os postos de trabalho perdidos.

O outsider transformou-se na negação de sua antítese Hillary Clinton, era como a volta a Ronald Reagan, era como voltar a sepultar Jimmy Carter, que na realidade foi também um elemento fora do estabelecimento, porém, ao contrário dele, apostava por uma liderança mais democrática. Ergueu-se como a figura que se contrapunha a Obama, um homem que, como ele, nasceu desse acúmulo de frustrações como alternativa ao tradicional, mas que desde que decolou sua corrida para a Casa Branca foi cooptado pelo establishment.

Agora, a partir da Presidência, Trump desafia os setores de poder que projetaram o esquema dominante e acompanha esse desafio com ações que contradizem a recomposição geopolítica provocada pelos erros de cálculo dos que quiseram moldar a globalização ao estilo ocidental. Nesse esforço que encaminha seu país para a revisão de sua participação em blocos comerciais e militares, perde de vista que não é possível sair da armadilha de seus antecessores, que não pode obrigar os capitais a retornarem, porque estes não têm pátria.

Um regresso das empresas ao território estadunidense com o fim de recuperar empregos e terminar com a precarização deste voltando a salários mais decentes é reduzir a competitividade delas, questão impensável em um cenário de agressividade comercial em que países emergentes como China e Índia tiram vantagem a remunerações que têm dado lugar a produtos com qualidade cada vez mais melhorada, o que vem a definir o chamado 'preço chinês' ou 'preço indiano'.

Todo o projeto geopolítico de seus antecessores foi-se de cara, os tempos da agonia se evidenciaram no Iraque, Síria, Líbia com toda a 'Primavera Árabe', ações que trouxeram a Al Qaeda, o Estado Islâmico e toda sorte de movimentos terroristas que têm provocado uma orgia de sangue que nos conduziu ao drama dos deslocamentos de milhões de seres humanos que querem chegar ao centro da Europa e aos Estados Unidos para sobreviver ao Armagedom. Sua investida contra muçulmanos, latino-americanos e empresas deslocadas não farão mais que aprofundar as divisões em seu país, exacerbar o ódio contra a potência em decadência e unificar os que ele definiu como seus inimigos. Sua radicalização não fará mais que estimular e consolidar a integração da América Latina, freada pelas sutis políticas dos democratas contidas em um discurso próximo a nossa região e uma prática contra nossos interesses como demonstram os quase três milhões de deportados de Obama e a conspiração para derrubar governos progressistas.

Trump está atrelado em uma herança de enfraquecimento do poder hegemônico estadunidense e avanço para a multipolaridade, o que, em combinação com suas ações isolacionistas, levará ao agravamento de sua perda de influências e a uma mais rápida redefinição dos novos eixos do poder mundial.

Manolo Pichardo

FONTE: Prensa Latina
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