sábado, 11 de março de 2017

Poucas vezes brilhou mais um estadista

CHE Guevara caracterizou Fidel, na apaixonante carta de despedida que inflamou todos, como o estadista indômito da Crise dos Mísseis, em 1962. Esse espírito insubmisso revelou-se, mais uma vez, em 1963, de maneira não menos dramática, durante a primeira visita feita por Fidel à União Soviética, onde o povo moscovita o recebeu nas ruas, com transbordado entusiasmo.

O líder cubano tinha chegado, em 29 de abril de 1963, a Murmansk, cidade portuária no ainda congelado extremo norte da imensa URSS, apesar da incipiente primavera. A recepção oficial e popular com Nikita Khruschev e Leonid Bréhznev seria, em 30 de abril, na capital. Era sua primeira viagem à URSS e foi recebido por Anastas Mikoyán, primeiro vice-ministro, que uns meses antes, durante a Crise dos Mísseis, tentou acalmar o Comandante-em-chefe da Revolução Cubana.

Na Ilha caribenha, o veterano líder soviético tentava atrair a atenção do rebelde Comandante, mas o estrondo de uns jatos voando rasante interrompeu o insólito monólogo. No tenso ambiente internacional que o anúncio da retirada dos mísseis não conseguiu abafar, a Ilha inteira era cruzada pelos aviões de combate dos EUA, em voos rasantes.

Fidel parou-se energicamente e exclamou: ‘O único que falta é descerem para tomar café. Não podemos continuar permitindo-o. Advirto-lhes que os derrubaremos, caso continuarem essas provocações!’ Os voos rasantes não aconteceram mais.

Em nenhum momento, Fidel ocultou seu descontentamento, depois que Khruschev anunciasse, sem consultar, em 28 de outubro, que retiraria os mísseis instalados em Cuba, além de ter oferecido a possibilidade de enviar inspetores da ONU para verificar isso.

Porém, tamanha pretensão deu de cara com o espírito indomável do barbudo, quem disse que para inspecionarem o país teriam que vir em disposição de combate, lançando um plano de cinco itens para conseguir uma paz verdadeira: 1) Fim do bloqueio econômico e a pressão comercial e econômica. 2) Fim das atividades subversivas, invasões de mercenários, infiltração de espiões e sabotadores. 3) Fim dos ataques piratas a partir dos Estados Unidos. 4) Fim das violações do espaço aéreo e naval e 5) Desocupação da Base Naval de Guantánamo e sua devolução a Cuba.

FIDEL FEZ TREMER O KREMLIN

Imediatamente depois da surpreendente demonstração de carinho do povo nas ruas, Nikita Khruschev quis fazer, em 30 de abril de 1963, no suntuoso Kremlin, um brinde. Fidel Castro não demorou a retrucar. Olhou atentamente ao redor e fez tremer o ambiente, dizendo: «Não posso deixar de expressar meu desacordo com a forma em que foram retirados os mísseis soviéticos de Cuba. Nós não fomos consultados e foram adotados acordos nas nossas costas, depois que nosso país fosse o palco potencial de uma guerra nuclear».

Nikita interrompeu agitado: «Fizemo-lo para evitar um ataque contra Cuba e se conseguiu manter a paz!»

Porém, «o que se conseguiu foi uma paz precária, pois não existe um verdadeiro compromisso. Caso nos tiverem consultado teríamos conseguido muito mais. Teríamos obtido uma paz verdadeira e outros objetivos», respondeu Fidel com firmeza.

Parecia que a primeira visita do líder cubano à URSS, acabaria no fracasso.

Ninguém ousava dizer uma palavra…

OS EUA PREPARAVAM UMA INVASÃO

A partir das informações soviéticas e norte-americanas se sabe que, em 1962, os Estados Unidos possuíam 377 mísseis estratégicos e fabricava outros mil. Os mísseis instalados na Turquia e Itália davam superioridade aos Estados Unidos, pois desses países podiam atingir, em 15 minutos, a URSS; entretanto os 44 mísseis intercontinentais soviéticos demorariam 25 minutos a chegar aos EUA. A URSS pos-suía, aliás, 373 mísseis de médio alcance e 17 de alcance intermédio.

A instalação em Cuba, de 42 mísseis de alcance médio e intermédio equilibraria consideravelmente a diferença e ofereceria meios de defesa, diante de uma iminente invasão dos EUA, pois os cubanos e soviéticos conheciam que se preparava com muita pressa.

Fidel declarou que tinha percebido na proposta feita por Khruschev, de instalar mísseis nucleares em Cuba, uma ação que consolidaria a capacidade defensiva do bloco socialista, incluída Cuba e que foi principal motivo para aceitá-la, embora não fossem ignorados os riscos. Fidel manifestou que informaria publicamente o acordo, baseando-se no direito de se defender com qualquer meio militar, como expressou abertamente em uma declaração. A perspicácia do povo chamou a esse «qualquer meio» os etecéteras, em uma alusão meio escondida aos mísseis.

Khruschev insistiu ao comandante Raúl Castro — quem viajou à URSS para assinar o acordo — em postergar a informação pública e, entretanto, negá-lo. Nesses dias do mês de julho de 1962, efetuava-se em Moscou um Congresso Internacional do Conselho Mundial da Paz.

Em outubro de 1962, Keneddy e Khruschev concordaram em não gerar um confronto, mas sob a condição de que fossem retirados os mísseis, mediante uma inspeção internacional. Fidel recusou a ins-peção.

Na noite de 23 de outubro, o presidente norte-americano decretou um bloqueio naval, expressando que os ditos mísseis, com ogivas nucleares, eram armas ofensivas e pôs as forças armadas todas, em máximo alerta, pela primeira vez na história. O mundo nunca esteve tão perto de uma guerra nuclear. Os cubanos zombavam assim: de repente você vai sumir da minha vista.

Três dias depois, Khruschev propôs privadamente retirar os misseis, em troca de uma promessa norte-americana de não atacar Cuba. Porém, Keneddy teimava na inspeção. Em uma ação surpreendente, a artilharia antimísseis soviética derrubou um avião U2 que voava sobre Banes, no oriente da Ilha. O ambiente se tornou tenso e provocou uma carta do presidente Keneddy, susceptível de várias leituras: era ameaçadora e à vez tolerante, tentando fazer perceber que o fato poderia não ter sido ordenado por Khruschev, quem já negociava com ele. O fato poderia ter fugido ao seu controle.

No dia 28 do mesmo mês, Khruschev aceitou os termos de Kennedy e só depois, informou Fidel, quem não conhecia das conversas secretas. O Comandante-em-chefe declarou que a notícia produziu em Cuba «uma grade indignação porque nós nos tínhamos convertido em uma sorte de objeto de troca... acabamos soubendo pela rádio que, no dia 28 se tinha produzido um acordo». A reação do povo não foi de alívio. Foi de profundo mal-estar.

MIKOYÁN NÃO CONSEGUIU ACALMAR FIDEL

O secretário-geral da ONU, U Thant, viajou a Cuba e perante a recusa de Fidel de permitir a inspeção, declarou que o líder cubano estava no seu direito de se recusar e que as Nações Unidas não podiam forçá-lo. Perante esta situação, Khruschev enviou Mikoyán à Ilha, em 2 de novembro, e durante vários encontros tentou convencer Fidel, mas foi impossível.

Finalmente, após duas semanas em Cuba, Mikoyán propôs que a inspeção fosse realizada nos navios. Fidel respondeu que esse seria um problema da URSS. E foi realizada a inspeção nos navios, não na Ilha, a qual emergiu mais forte e mais respeitada daquela crise. A doutrina militar cubana se tornou a da resistência nacional, caso fosse ocupado o território. O tempo demonstrou a vigência de suas convicções.

Três anos depois da retirada dos mísseis, a carta de despedida de Che Guevara lembrava esses acontecimentos, quando dizia: «Senti a seu lado o orgulho de pertencer a nosso povo, nos dias mais luminosos e tristes da Crise do Caribe. Poucas vezes bri-lhou com tamanha altura um estadista... ». Com efeito, o líder guerrilheiro do povo cubano já desde então, fazia parte dos grandes estadistas da história.

Gabriel Molina Franchossi

FONTE: Granma
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