segunda-feira, 24 de abril de 2017

A força de 'os de abaixo'

O ciclo pós neoliberal latino-americano, que inaugurou nosso século XXI com suas particulares expressões nacional-populares e progressistas, não poderia ser explicado sem a presença ativa de um amplo e vigoroso arco de movimentos sociais, que souberam resistir, primeiro, às ditaduras militares da década de 1980, e depois à tecnocracia neoliberal dos anos 1990 -devota da globalização hegemónica- que veio a ocupar o lugar deixado pelos comandos castrenses, só para atingir idênticos objetivos por outros meios.

Era o tempo da democracia de baixa intensidade, como a designou o intelectual argentino Guillermo O'Donnell: as formas eleitorais impunham-se ao conteúdo político emancipador, em uma região que se perfilava já como a mais desigual do planeta.

Com aguda ironia, o mexicano Carlos Monsiváis observava que o neoliberalismo finisecular fazia do livre mercado 'o totem que preside a eternidade do capitalismo, na inevitável versão selvagem', e agregava: 'o mercado livre aspira à faixa de culto de índole religiosa, no lugar exato onde esteve a revolução. E os convertidos ao credo financeiro exercem o ódio à discrepância antes associado com o estalinismo. Dos vencedores é a ira que a si mesma se sacraliza'.

Os vencedores, efetivamente, desataram uma ofensiva política, econômica e cultural que inocula a desesperança em amplos setores das sociedades latino-americanas, proclamou a derrota da revolução, proscreveu as alternativas e ofereceu um eterno presente de consumo e cultura de massas como consolo para as utopias rompidas. Foi uma guerra de terra arrasada no campo da ideologia e a batalha de ideias. Nessas condições, que futuro lhes esperava a nossos povos? Os movimentos sociais ofereceram uma resposta: era preciso reconstruir os tecidos rasgados a força de baionetas e desaparecimentos, e optar pela autêntica intensidade democrática desde a ação coletiva. Frente ao dito do fim da história, com o que Fukuyama cumprimentou o triunfo do capitalismo e a imposição da democracia de mercado como modelo único, na América Latina se começou a escrever uma contra história:

Desde finais dos anos 1980, e até meados da primeira década do século XXI, as sublevações populares e indígenas sucederam-se na Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina e Brasil, e criaram as condições que permitiram a ascensão ao poder de lideranças políticas que fraturaram a hegemonia neoliberal, em uma região que, até então, parecia irremediavelmente condenada a permanecer sob a égide do imperialismo estadunidense e do capitalismo selvagem.

Hoje, em uma conjuntura na que as derrotas eleitorais de alguns desses governos propõem incertezas sobre o futuro do ciclo nacional-popular e progressista, as manifestações em massa que por estes dias sacodem a Argentina e Brasil, em rejeição das políticas de ajuste dos presidentes Mauricio Macri e Michel Temer, enviam uma mensagem esperançada.

Uma vez mais, como em tantas outras ocasiões em nossa história, são as organizações políticas e sociais, os trabalhadores e estudantes, os cidadãos indignados, os lutadores e lutadoras de nossa América os que, com a energia soterrada dos de abaixo, nos mostram que sim é possível confrontar a restauração neoliberal porque ainda existe a força social suficiente para se rebelar e disputar o campo político a umas direitas que não têm mais projeto que a destruição das conquistas e avanços destes anos.

FONTE: Prensa Latina
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