segunda-feira, 17 de abril de 2017

O sonho infelizmente inacabado de Maria Eduarda

Maria Eduarda Alves da Conceição mal contava com 13 de idade e acariciava já um sonho enorme: chegar a converter-se em uma jogadora de basquete profissional para vestir e defender as cores verde e amarelo do Brasil.

Era essa aspiração a que a fez mudar e a motivava a combinar aos treinamentos em sua modesta escola do bairro carioca de Costa Barros, onde três balas supostamente perdidas a atingiram tirando -de uma vez- sua vida.

María Eduarda chegou aqui rebelde; com um comportamento adverso que -não entanto- o esporte conseguiu transformar, convertendo-se em uma jovem espetacular, que irradiava luz, recorda seu professor de História Leonardo Bruno da Silva, para quem ela 'representava um pouco do que é a alegria de ser educador'.

A trágica morte da adolescente negra, que recebeu dois impactos de bala na cabeça e um no torax, foi consequência de um confronto a tiros entre policiais da Polícia Militar e jovens apontados como traficantes de drogas, dois dos quais foram sumariamente executados após estarem rendidos e estendidos no chão.

Em uma nota de repúdio, a Juventude 5 de Julho do Rio de Janeiro condenou o que catalogaram de nova 'atrocidade cometida contra nossa juventude negra, proletaria e das favelas'. Isso -destacaram.- é uma questão de ódio de classes. O texto, assinado também pelo Partido Comunista Marxista Leninista, o Jornal Inverta e o Comitê de luta contra ou neoliberalismo e pelo socialismo, recorda que Costa Barros tem uma longa pronta de vítimas, entre elas cinco jovens fuzilados em novembro de 2015 quando festejavam o primeiro emprego de um deles. Pouco antes, outros dois rapazes foram assassinados por soldados da Polícia Militar, que confundiram um macaco hidráulico com um fuzil e abriram fogo contra eles.

A denúncia criticou com força o modo em que atua a PM, que 'chega atirando a qualquer área (da favelas) com escola e casas, porque para esse sistema Costa Barros é só um depósito de trabalhadores baratos, números descartáveis', enquanto em outras zonas, como Barra de Tijuca e Leblon, de classe alta, seu comportamento é outro.

À denúncia do assassinato de Maria Eduarda somou-se também a representação no Brasil da ONU Mulheres, que manifestou sua consternação pelo acontecimento e reiterou seu chamado a defender ou direito das mulheres e meninas a terem uma vida sem violência, incluído o respeito à memória das vítimas.

Reforçou também o alerta às autoridades brasileiras sobre a necessidade de investir em políticas para a prevenção e a eliminação da crueldade contra as mulheres e a juventude negra, a fim de evitar as mortes violentas por razões de gênero e raça.

A declaração de ONU Mulheres destacou assim 'dados vocês alarmantes e inaceitáveis em relação com a violência contra as mulheres e meninas brasileiras, especialmente as afrodescendentes'.

Nesse sentido citou estatísticas do Mapa da Violência 2015 segundo as quais entre 2003 e 2013 se registrou um aumento de 191 por cento na vitimização de mulheres negras. Nesse mesmo período, cresceu, o número de homicídios de afrodescendentes cresceu 54 por cento, passando de 1.864 em 2003 a 2.875.

De acordo com ou coordenador da organização não governamental Rio de Paz, Antonio Carlos Costa, com a morte de Maria Eduarda somam já 33 as crianças e adolescentes de até 14 anos de idade que morreram nessa cidade vítimas de balas perdidas, de janeiro de 2007 até a 2017.

Na grande maioria dessas trágicas mortes, dimensionou Costa, há um perfil comum: são crianças pobres, que vivem enfavelas onde as pessoas foram historicamente 'invisibilizadas' e tornam-se vítimas de tiroteios ocorridos durante operações policiais.

CIFRAS ALARMANTES 

De acordo com uma pesquisa realizada pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), no Brasil morrem assassinados diariamente 29 jovens e adolescentes, o que coloca o país em terceiro lugar entre 85 nações analisadas.

É um número bárbaro, apreciou ou autor da pesquisa e coordenador do Programa de Estudos sobre Violência de Flacso, Jacobo Waiselfisz, que esclareceu que apesar da dramática situação e das cifras chocantes, ou ritmo de crescimento da violência contra este grupo populacional vem diminuindo.

Estatísticas contidas no relatório apontam que em 2003 se reportaram no Brasil 8.787 homicídios de crianças e adolescentes. A cifra caiu para 8.433 em 2008, mas em 2012 ultrapassou pela primeira vez os 10 mil crimes e em 2013 contabilizaram-se 10.520.

A participação dos assassinatos no total de mortes aumentou no Brasil de nove por cento em 2003 para 14 por cento em 2013. Não obstante, esclarece o estudo, o ritmo de crescimento dessa participação caiu de 365 por cento na década de 1980 para 56 no decênio passado e até 20 no período de 2010 a 2013.

Dados desse último ano mostram também que as mortes por motivos extremos superam as provocadas por causas naturais a partir de 14 anos de idade, fundamentalmente no final da adolescência.

A causa principal desse drástico incremento são os homicídios, que representam ao redor de 2,5 por cento do total as mortes até os 11 anos de idade e iniciam um violento crescimento na entrada da adolescência (14,0 por cento aos 13) até atingir seu pico de participação aos 17 anos (48,2).

O relatório adverte também sobre ou aumento do número de suicídios, que passou de 763 em 2003 a 788 em 2013, enquanto as mortes por causas naturais nesse mesmo período diminuíram de 77 mil a 53.852.

Com uma taxa de 4,3 homicídios para cada 100 mil habitantes, Brasil figura como o terceiro país mais violento para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos em uma pronta de 85 nações e ocupa idêntica posição, com um índice de 16,3, na faixa dos 19 anos.

Em ambas situações, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, Brasil só não é mais violento que o México e El Salvador.

FONTE: Prensa Latina
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