terça-feira, 6 de junho de 2017

Pirambu de luta, ontem, hoje e sempre!

Em meio a uma conjuntura política de feroz retirada de direitos, resistir ao desmonte é um ato de coragem e pede um exemplo que sirva de alento para a luta. Os caminhos percorridos por homens e mulheres que, antes de nós, não se conformaram com a situação de miséria em que viviam e ousaram resistir é uma grandiosa herança. No caso de Fortaleza, os movimentos populares nascidos no Pirambu são parte dessa herança que todos nós, militantes e lutadores sociais, devemos nos orgulhar.

O bairro pobre surgido de um campo de concentração para flagelados na seca de 1932* - considerado a 7ª maior favela do país -, desde sempre precisou ir à luta por dignidade e direito à existência, contra as inúmeras investidas da elite econômica de Fortaleza que quis acabar com a comunidade; ir à luta para conquistar soluções para a questão da moradia e a miséria social urbana, alargada pela migração rural e pelas desigualdades econômicas daqueles anos.

Com o fim da seca, os sertanejos sem ter para onde ir, se instalaram no local. Segundo registros da época, um amontoado de casebres, sem saneamento básico, transportes, serviço de saúde, nem nada. O povoamento mesmo assim atraía mais sertanejos para trabalhar nas fábricas da região oeste da cidade. A classe operária se organizava, e o antigo Partido Comunista atuou bastante em Pirambu, organizando o Comitê Democrático de Libertação Nacional e a Sociedade Feminina do Pirambu. O que “horrorizava” ainda mais os ricaços da elite econômica da capital cearense.

Então veio o batismo de fogo para a comunidade. No início da década de 1960, uma família tradicional de Fortaleza reivindicou propriedade sobre a terra, que anos atrás fora concedida ao governo para instalar os flagelados. Mais de 300 famílias seriam desalojadas. A comunidade do Pirambu não se curvou e os moradores se mobilizaram para impedir o despejo das famílias. O marco da luta foi a “Grande Marcha do Pirambu”, realizada em 1º de janeiro de 1962, que tomou as ruas do centro da cidade entoando palavras de ordem: “Vem vê, Fortaleza/O Pirambu passar/Somos pessoas humanas/Temos direito que ninguém pode tirar”. O sapateiro e comunista histórico José Maria Tabosa, que participou da Grande Marcha, declarou ao Inverta: “Nós saímos na base de 20 mil pessoas. Fomos para o Palácio do Governo, que era na Praça dos Leões. Foi tudo numa época de convulsão social, o Jânio Quadros tinha renunciado. Conseguimos levar nossa demanda até Brasília, se dizia que era por lá que se desapropriava o Pirambu. E foi em Brasília que conseguimos a desapropriação”.

A vitoriosa luta dos “descamisados” do Pirambu assombrou os abastados da cidade, e muitos oportunistas viram ali a chance de se projetarem politicamente. Segundo José Maria, a falta de “conhecimento por nós mesmos” fez com que muita gente “crescesse os olhos”, já que os trabalhadores no “movimento popular tem muita prática, mas falta teoria”. “Por isso – prossegue – que somos manipulados (...) aqueles que conhecem as leis, os livros, os direitos, manipulam a gente”. Foi então que o povo trabalhador do Pirambu, pela necessidade de se formar para transformar e resistir aos oportunistas e carreiristas, começou a estudar e debater, a teoria revolucionária se “encaixava na nossa prática e dava um conhecimento geral muito maior”. A organização popular transcendeu às conquistas da comunidade e transformou o Pirambu em um foco de resistência do movimento popular à ditadura em Fortaleza.

O legado de luta do Pirambu, que ousou se organizar para resistir ao descaso do capitalismo que condena à miséria aqueles que produzem a riqueza, constitui apenas um dos vários exemplos Brasil afora, que precisam ser resgatados para contagiar com rebeldia o povo trabalhador hoje em dia, diante da retirada de direitos básicos. José Maria Tabosa conclui: “O meu sonho hoje é que a humanidade se organize e consiga dar tudo para todos. Eu não posso estar comendo hoje sabendo que têm milhões de pessoas passando fome, e não sei como esses ricos aguentam comer sabendo que o que eles comem, de certa forma, roubam dos que estão passando fome. A desgraça é o dinheiro, aliás, não: é mais exatamente a acumulação do capital!”.

Sucursal CE

* “Centenário da seca de 1915 no Ceará”, publicado na ed. 478, do Jornal Inverta.
Reações:

0 comentários:

Postar um comentário