sexta-feira, 7 de julho de 2017

As raízes históricas das FARC-EP

A guerrilha colombiana, tal como conhecemos hoje, é um fato político impulsionada pela necessidade vital da defesa da vida, de bens e da honra da população; inicialmente enfrenta o inimigo sem nenhuma experiência de combate anterior, com o coração posto sobre o horizonte na luta pela terra para quem a necessita e queira trabalhá-la. Esconde-se e atua sobre uma geografia exuberante e íngreme que lhe oferece abrigo seguro nos vínculos e no corpo de três cordilheiras, que espera na imensidão das planícies e na selva inexpugnável para os olhos do inimigo. As Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia – Exercito do Povo, FARC-EP se origina diretamente dessa valiosa e esplendida experiência. 

A origem da atual guerrilha em suas diversas vertentes conceituais e orgânicas deve ser buscada, sem nenhuma duvida, nos anos 48-50, no que concerne à sua razão de ser historicamente. Nesses primeiros anos, a guerrilha colombiana é a atitude primária e valorosa de um povo como resposta imediata a um processo de violência oficial que havia conseguido deteriorar profundamente a vida nacional, poucas regiões se salvaram da devastação humana. Violência política, violência como despojo da terra para fazer crescer os limites dos grandes latifúndios, violência econômica expressada nas ânsias desmensuradas de enriquecimento pessoal, violência religiosa contra quem não acreditava nem praticava ritos da Igreja oficial. Processo irrefreável de violência que desencadeou uma guerra civil não declarada que deixou mais de trezentos mil supulturas, e todos os mortos e todo o sangue derramado pertenciam ao povo. Afirma-se e é verdade, que naqueles tempos, o doutor Eduardo Santos, naquele tempo diretor proprietário de um grande jornal diário da capital, El Tiempo, entregou dois milhões e meio de pesos para financiar as guerrilhas liberais. Não se sabe com toda certeza se há outras guerrilhas financiadas pela Direção Nacional Liberal ou pelos chefes liberais burgueses daquela época, mas sim é verdadeiro que, coloquemos por caso, a primeira guerrilha surgida a partir de 9 de abril de 1948, em La Colorada, no Departamento (Estado) de Santander, sob comando de Rafael Rangel, dispunha de dinheiro suficiente para suas atividades. Da mesma maneira ocorreu com os guerrilheiros do município de Urrao e Yocopí.

Não houve mortes entre os de cima, eles apenas se apresentavam em sua direção da contenda que haviam desencadeado entre os de baixo. Foi a violência que procurava no essencial o aniquilamento do opositor político. Então, liberais e comunistas foram os apontados e mercados como vítimas destinadas à morte violenta. Nesse dramático período foi proibida na pratica, a morte natural. Em sua iniciação, na nefasta época dos governos conservadores de Mariano Ospina Pérez (1945-1948), Laureano Gómez (1950-1957), e durantea ditadura militar do General Gustavo Rojas Pinilla (1953-1857), a guerrilha surge como água que brota da terra de forma espontânea. Diante da ameaça diária de arrasamento total da vida, bens e honra de fanatizados e criminosos grupos de policiais e civis, a população decide como ultimo recurso, organizar a defesa de sua zona.

São desenterrados velhos fuzis das guerras civis, reunidas escopetas, inventadas armas improvisadas amarrando os facões na ponta dos paus e são nomeados como instrutores os velhos que haviam prestado o serviço militar obrigatório, e nessa noite como em muitas noites se dispõem a esperar a morte que vem trotando ao som da marcha assassina. A guerrilha é organizada inevitavelmente dentro do coração e da respiração da população, a guerrilha atua em defesa da população, a população vibra e vê com os olhos o núcleo armado.

Esse nascer da guerrilha não é o produto de um esquema generalizado, ao contrario, expressa múltiplas características afins às diferentes regiões. Em algumas regiões continua a experiência de antigas lutas agrárias, em outras seu aparecimento está marcado pelo desejo supremo da sobrevivência. Guerrilha e população deambulam juntos na travessia das marchas; guerrilha e população abrem novas veredas por montanhas e selvas. Existe entre a guerrilha e a população uma comunicação de voz a voz; a guerrilha é a família, na guerrilha se encontra o pai, está o irmão, são recrutados os filhos, a namorada,a mulher. A guerrilha semeia influencia especialmente nos departamentos do centro do país, Tolima, Cundinamarca, Huila, também em Santander Del Sur; desenvolve-se vertiginosamente nas planícies orientais, e ali a guerrilha liberal dirigida por homens saídos da própria terra, entre eles, Guadalupe Salcedo, um dos seus legendários comandantes.

A guerrilha comunista se consolida e se fortalece em zonas que tiveram nos anos trinta papel protagônico na luta pela recuperação da terra, localizada geograficamente no sul do departamento (Estado) de Tolima e Sumapaz, em Cundinamarca. Então, ao sabor dos acontecimentos, os antigos líderes das ligas camponesas se transformam de repente em lideres das ligas camponesas se transformam de repente em acostumados dirigentes guerrilheiros. Era uma guerrilha, a liberal e comunista, em seu conjunto de rosto camponês, de objetivos essencialmente agrários, com uma visão militar limitada que não ultrapassava o tamanho ou limites de suas zonas. Mas apesar das suas dificuldades, nunca foram derrotadas militarmente.

Com seu desenvolvimento disperso e desigual, sem comunicação em seus epicentros, apesar de contar com centenas de homens em suas fileiras, a guerrilha dessa época não conseguiu juntar forças sob a direção de um comando nacional que houvesse podido dar um rumo decisivo ao seu acionar, nas condições tão favoráveis em que se operava. Foram feitas tentativas párea unir as forças sob um único comando.

No ano de 52 se reúne a primeira Conferencia Nacional Guerrilheira na região de Viotá, Cundinamarca. Participam delegados liberais e comunistas, mas suas conclusões finais iam mais além do que o combater diário indicava. Não era clara a luta pelo poder político, era questão que nem sequer estava nos planos estratégicos. Suas conclusões, da mesma forma que os seus programas, caíram no vazio ao serem discutidos nas bases.

Em junho do ano e 1953, nas Planícies Orientais, grupos guerrilheiros  liberais, acossados pela necessidade suprema de unir forças para dar uma resposta À violência de forma mais contundente, organizam um Congresso guerrilheiro. É eleito um novo Estado Maior e é eleito Guadalupe Salcedo como Comandante supremo, e é aprovado que algumas comissões saiam ao encontro das guerrilhas comunistas para iniciar com estas o entendimento imediato. Mas esse projeto é frustrado pelo golpe militar do General Gustavo Rojas Pinilla em 1953, no próprio mês de junho. Rojas Pinilla promete, ao assumir o comando, que não haverá mais derramamento de sangue na pátria colombiana. A guerrilha deixou de ser um instrumento de pressão que vinha utilizando o partido liberal.

Então, nesses momentos cruciais para a história dói país, o liberalismo decide apoiar uma solução que preserve seus interesses de classe, decide apoiar o golpe militar. A ditadura não General Gustavo Rojas Pinilla consegue em poucos meses com suas promessas de pacificação e ajuda econômica, o que em três anos havia se tornado impossível de conseguir por meio da ação militar, a desmobilização da guerrilha liberal.

O discurso político do General Rojas Pinilla toca o sentimento nacional de paz e, diante de semelhante sangria, foi mais efetivo do que milhares de homens com seus canhões e metralhadoras em suas ações punitivas. Produz-se a primeira pacificação da historia contemporânea. Segue-se a entrega das armas. Em 8 de setembro de 1953, no município de Monterrey, departamento de Meta, é assinado o documento de entrega das armas. Em 15 de setembro, 3.500 guerrilheiros sob o comando de Guadalupe Salcedo e de outros chefes guerrilheiros das Planícies Orientais entregam suas armas e no resto do pais se entregam 6.650 guerrilheiros, há apenas três meses do golpe. Ficaram as guerrilhas do Sul do departamento de Tolima, (que não acreditaram nas promessas oficiais) entre eles Isauro Yosa, Jacobo Prías Alape “Charro Negro” e Manuel Marulanda Vélez “Tio Fijo”.

Estes grupos guerrilheiros, em sua situação política adversa criada pela aparente generosidade do governo militar de Gustavo Rojas Pinilla, recuam em busca de melhores condições para reiniciar a luta. E em um ano essas promessas de paz e concórdia se transformam em sangue do povo. Um a um vão caindo assassinados os antigos guerrilheiros liberais, outros foram comprados por ilusões econômicas e ofertas de terras. Dramática história que termina com o assassinato de Guadalupe Salcedo, nas ruas de Bogotá, no ano de 1957.

Essa experiência dolorosa marcaria como exemplo indestrutível os futuros movimentos guerrilheiros. Pelo menos se havia criado a dúvida histórica no que se refere a promessas governamentais de paz e de possíveis tréguas. Era a culminação do primeiro período da guerrilha colombiana.


Os novos passos

A guerrilha não depôs as armas, Rojas Pinilla torna ilegal o Partido Comunista. Alguns dos seus núcleos armados decidem esconder as armas para empreender em suas zonas grandes movimentos de massas, por exemplo, em Sumapaz e Villarica. Do sul de Tolima se deslocam dois pequenos comandos, um dirigido por Richard, que marcha para Villarica com o seu pessoal. O outro vai comandado por Jacobo Prías Alape e pelo hoje Comandante das FARC-EP, Manuel Marulanda Vélez, que então era apenas um jovem camponês de 23 anos de idade, mas já um experimentado combatente. Havia sido perseguido como liberal e depois se esconder sua vida na montanha por meses, decidiu fundar a primeira guerrilha em companhia de catorze primos, em 1848, em Quidio, sua terra natal. Em seguida decide marcar para o sul de Tolima para se alistar nas guerrilhas liberais.

Nessas metamorfoses mudou radicalmente sua via como mudou sua concepção política, deixou de ser liberal para se transformar em comunista e algo muito importante, mudou seu nome real, Pedro Antonio Marín, pelo nome de Manuel Marulanda Vélez, imortalizando o dirigente operário assassinado em Bogotá por encabeçar os protestos contra o envio de tropas colombianas para a Coréia. Bela e permanente homenagem. Desde então, há 50 anos, o hoje legendário Manuel Marulanda Vélez não deixou de estar na montanha na luta por seus ideais e pelos de todo o povo.   

Jacobo Prías Alape e Marulanda Vélez marcham para a cordilheira oriental e, em sua longa metamorfose que dura cerca de quatro anos, de 53-57, vão fundando no caminho novas organizações e massa camponesas, entre elas duas zonas que seriam conhecidas posteriormente como Riochiquito e Marquetália.

Estamos já na segunda fase da guerrilha colombiana, em seu conjunto de maioria comunista. Seus epicentros Villarica, a oriente do departamento de Tolima, Cauca, Tolima e Huila. Em Villarica, a terra é defendida metro por metro durante seis meses, uma verdadeira guerra de massas. É a heróica resistência de toda uma população cercada por ar e terra por mais de cinco mil homens. A população abre trincheiras ao longo de duzentos quilômetros e neles assumem plantão dia e noite homens e mulheres, as crianças ajudam atravessando os grandes perigos, levando mensagens da resistência. Feroz resistência que cm sua coragem detém a avalanche militarista.

Seis meses depois de um terrível cerco econômico e militar asi de Villarica, uma das marchas camponesas maiores deste século, cerca de vinte mil pessoas. A população se dispersa em fuga, as famílias tomam rumos diferentes; na sua retaguarda, as pegadas profunas do exercito e no ar os aviões buscando a vida que caminhava em marcha. Essa dramática evacuação será fundadora de duas zonas camponesas conhecida posteriormente com El Pato e Guayabero. Nessa marcha épica sobrevivem os mais capazes para enfrentar os desígnios da morte. O então jornalista de El Espectador, Gabriel Garcia Márquez, escrevia uma das suas mais belas crônicas sobre as crianças órfãs, resultado da infame guerra em Villarica. 

Nos departamentos do Cauca, Tolima e Huila também se combatia. O núcleo guerrilheiro deJacobo Prías e Marulanda Vélez havia se fortalecido em homens e em, apoio da população. Eles planejavam e dirigiam os seus homens nos objetivos da luta. Quatro anos de duros enfrentamentos, quatro anos de enriquecimento em sua experiência militar. A resistência dura até o ano de 1957, quando cai a ditadura militar. As classes dominantes liberais e conservadoras, recentes opositoras de morte na guerra declarada por eles mesmos, reúnem-se e conciliam pela cúpula a solução política que foi conhecida mais tarde como a Frente Nacional, que consistia em se alternar no governo a cada quatro anos poer um período de 16 anos (1968-1974) e na paridade administrativa durante 20 anos (1958-1978). A partir desse acordo dos chefes liberais e conservadores começam a desaparecer as diferenças ideológicas entre os dois, ficando somente a diferença de coloração. Fechava-se assim o caminho para outras pções políticas, com a aplicação da antidemocracia legalizada constitucionalmente.    

Em 41957 começa a segunda pacificação com a chamada Reabilitação Econômica dirigida à recuperação das zinas afetadas pela violência. Política que, em ultima instancia, não podia resolver o conflito fundamental existente no campo: a necessidade imperiosa de uma Reforma Agraria.

Autodefesa

Os núcleos da guerrilha comunista se transformaram em grupos de autodefesa de massas, que cumprem com a tarefa de vigiar e defender suas zonas dos ataque de grupos de bandidos a serviço de latifundiários. Em suas áreas de influencia defendem assentamentos camponeses, são repartidas terras entre seus habitantes, criam-se mecanismos de trabalho coletivo e de ajuda para a exploração individual de parcelas, é aplicada a justiça de movimento por decisão coletiva nas assembléias da população. Transformam-se em zonas com uma nova mentalidade, com propostas sociais e políticas diferentes das oferecidas pelo regime. O fator decisivo é a presença do próprio povo. Anos depois estas estas são qualificadas por políticos de direita como supostas “Repúblicas Independentes”,  ao acusarem que estão por fora de controle da Constituição. Mas a tipificação dessas organizações havia sido o produto da própria experiência da guerrilha em sua luta contra a violência. Era o novo que havia surgido nesses terríveis e dramáticos anos.

Posteriormente a burguesia assume o nome das autodefesas para armar gruos de assassinos pagos comprometidos com a defesa dos interesses dos latifúndio, fazendeiros, industriais, empresários e narcotraficantes também conhecidos como esquedroes da morte ou grupos paramilitares que contem com o respaldo de leis da República, recursos, instrução e planos do exercito governamental.




Agressão a Marquetalia

Em 1958 chegou à presidência o liberal Alberto Lleras Camargo (1958-1962). Este homem, membro da Direção Nacional Liberal, foi um dos que deu a ordem às guerrilhas liberais para consumar a rendição. Por esta época e a partir do Senado da Repúblicam Álvaro Gómez Hurtado lançava violentos ataques contra o que ele denominou “República Independente”, isto é, contra os moimentos agrários e de autodefesa camponesas nas áreas para onde se retiram os guerrilheiros que atacavam a pacificação ou os que simplesmente se retiraram. Já se desenvolvia no país, por toda parte dos altos comandos militares, não só a teoria mas a pratica da “Guerra Preventiva”, agora “Guerra de Baixa Intensidade”, sob a doutrina da chamada “Segurança Nacional”.

Durante esse período de relativa pacificação, é realizada no exercito colombiano uma profunda mudança de mentalidade. Havia sido incapaz de derrotar militarmente a guerrilha e só havia obtido, lamentavelmente, baixas por parte da insurreição popular. Então, deixa de ser, como tal, uma instituição dedicada à defesa das fronteiras e se transforma paulatinamente em um exercito para enfrentar unicamente o que eles chamam um Conflito Interno, a Guerra Interna. Sua função essencial seria a de combater uma suposta subversão. O inimigo interno.

Nos anos sessenta percorre como tempestade sobre a America Latina a formidável influencia triunfal da Revolução Cubana. Era a primeira experiência vitoriosa de uma guerrilha. Na Colômbia, alguns dirigentes estudantis impulsionados por seu fervor idealista, quiseram copiar de forma mecânica aquela experiência. E muitos deles, valiosos e decididos jovens como Antonio Larrota, Federico Arango, o poeta Leonel Brand, ofereceram sua vida no intuito de transformar as cordilheiras colombianas em outras Sierras Maestras.

E nesse mesmo ano, 2 de janeiro de 1960, cai assassinado por “pássaros”, grupos paramilitares oficialistas e liberais a mando do traidor José Oviedo, vulgo “Mariachi” o grande Comandante de guerrilhas revolucionarias, Jacobo Prías Alape, “Charro Negro”.

A tropa chegou a Gaitania, um município do Departamento de Tolima, para incitar o “mariachismo” liberal e houve brigas de combate com os guerrilhos da região de Marquetalia, no Departamento de Tolima, mas logo a agressão foi suspensa.

Em 8 de janeiro de 1962, o exercito intempestivamente voltou a agredir Marquetalia e,m Fe um momento para outro, o operativo foi suspenso e a força pública retirada. O Presidente naquele tempo era Alberto Lleras Camargo (1958-1962).

  Nesses mesmos anos, surgem tendências bandoleiras em antigos grupos de guerrilheiros liberais, que ao perderem a razao de sua existência e da sua luta se dedicam à extorsão e ao assassinato da população civil. E são utlizados pelos latifundiários e políticos da população civil. E são utilizados pelos latifundiários e políticos da região. Logo, em pouco tempo já são uma calamidade pública ao ficarem isolados da população e, denunciados por seus gestores, seus grupos vão sendo aniquilados um por um por um exercito que aplica contra eles sua nova concepção contra-guerrilheira.

No ano de 1964 começa a terceira fase ou período da guerrilha colombiana. Havia-se criado no país uma verdadeira histeria contra as chamadas “República Independente”.

O dirigente do Partido Conservador, Alvaro Gómez Hurtado, e outros Senadores e representantes reacionários, a grande imprensa e os altos comandos militares, voltam a sua virulenta campanha contra as supostas “Republicas Independentes” e já está em curso pela cúpula militar não só a teoria da “guerra preventiva” mas planos concretos, objetivos determinados com absoluta precisão através da acumulação e especificação de inteligência de combate. Em 27 de maio de 1964, sob a presidência do conservador Guillermo León Valencia (1962-1964), as Forças Militares desencadeiam a operação Marquetalia, sob as delineações gerais do plano LASO, Latin American Sucurity Operation, desenhado pelo pentágono americano e pela Embaixada Norte-Americana, para que de uma vez por todas fique claro de onde partiram em ultima instancia as ordens da operação militar.

Começa a operação militar contra Marquetalia, o maior operativo militarrealizado até esse momento na Colômbia. Por meses se combate na montanha e na selva, e o pequeno e destemido grupo de 48 homens transforma-se em guerrilha móvel, dirigidos por Manuel Marulanda Vélez, um mestre da guerra popular guerrilheira. E, enquanto isso, nas cidades eram escritos os gritos de protestos nas paredes. É intenso o impacto internacional produzido pelas denuncias públicas; um grupo de intelectuais franceses, com Jean Paul Sartre, Simone Beauvoir e Jacques Duclós encabeçando o grupo, dirigem uma carta aberta ao povo colombiano, (documento solidário com os resistentes, de protesto contra as classes dominantes do país), em que exigem enfaticamente o fim da agressão á Marquetalia.

O exercito toma simbolicamente a região de Marquetalia, mas foi militarmente impossível para ele, apesar da sua nova concepção contra-guerrilheira de acabar com a semente de luta que havia emergido nessas terras. Essa semente é a raiz das FARC-EP.

Marquetalia é, portanto, o símbolo desta etapa prolongada do movimento guerrilheiro moderno em nossa pátria. Ali, a guerrilha revolucionaria mostrou do que é capaz um núcleo de combatentes com consciência política, com opção de classe, altiva e beligerante, do que é capaz um núcleo de vanguarda, um núcleo armado e valente que Poe em seu acionar a arte da guerra de guerrilhas moveis; e foi esse reduzido núcleo de 48 homens que enfrentou a 16.000 soldados do exercito.

O objetivo político da resistência de Marquetalia foi tornar difícil uma operação militar calculada para três semanas e desprestigiar a classe política governante, o governo e os altos comandos militares. E assim foi. A operação militar calculada para três emanas, tornou-se uma guerra que faz 34 anos e há não são 48 homens, porém mais de 60 frentes guerrilheiras, em sete blocos de frentes, com presença em todo território nacional.

Em meio ao fragor da luta de Marquetalia, em 20 de julho de 1964, uma assembléia Geral de Guerrilheiros proclamou o Programa Agrário dos Guerrilheiros, atualizado pelas oito Conferências Nacionais, que ao final incluímos, e desde então é bandeira de luta do movimento revolucionário e particularmente das guerrilhas revolucionarias, no qual os combatentes de Marquetalia deixam de ser combatentes com uma visão de luta camponesa para pregar uma visão mais ampla, com a bandeira de luta pelo poder político para todo o povo.

É o começo desta outra história, a história do atual movimento guerrilheiro colombiano. Surgem na mesma época outros grupos guerrilheiros com diferentes formas de organização e distintas concepções ideológicas de luta;   aparece o Exército de Libertação Nacional (ELN), com uma influencia direta da Revolução Cubana. Em suas fileiras morre combatendo o inesquecível sacerdote Camilo Torres Restrepo. Gestor de um gripo de movimento de massas, conhecido como Frente Unida e quem perseguido pelas ameaças continuas e esgotadas as condições legais de luta, optou por se vincular à guerrilha. No monte encontra a morte, mas convencido do que nunca de que a terra deve ser paraíso para os homens.

Em seguida aparecerá o Exercito Popular de Libertação (EPL), que decorre como origem nas concepções da Revolução Chinesa e tem sua base principal em antigas zonas de lutas guerrilheiras e agrárias. Nos anosa 70 surge o M-19, integrado por jovens da cidade, de diferentes vertentes políticas, como a ANAPO, entre outras, com uma concepção de luta essencialmente nacionalista e sem definição ideológica clara.

Tempos de duras e novas perspectivas

Em bom lembrar que 1950 é um ano crucial na história da insurreição armada colombiana. Governa o país o liberal Julio César Turbay Ayala, um governo de cara civil, mas dirigido de fato pelo General Luis Carlos Leiva, seu Ministro de Guerra, que restringe a democracia ao máximo, ao impor o Estatuto da Segurança. Fazem um governo com uma vocação definida de regime militar. A tortura se institucionaliza, tornando-se um fato cotidiano; os desaparecimentos forçados são o pão nosso de cada dia, os cárceres se enchem de homens e mulheres que apenas buscam um modo de vida melhor para todo um povo esmagado pelas necessidades e pela violência do Estado. A repressão trata de isolar a insurreição armada da população; nas madrugadas, é esperada com temor brutal a chegada da tropa governamental, para levar alguém para ser torturado e em seguida fazê-lo desaparecer. O mundo civilizado vê com horror como um governo supostamente democrático afronta os seus cidadãos com a tortura, o desaparecimento e a morte. Então a luta pelos Direitos Humanos adquire uma dimensão nunca antes conhecida, na luta da razão contra a brutalidade, na lutaa para defender a liberdade do homem; mas a intensidade da repressão não detém o crescimento da guerrilha. Tampouco consegue calar  a voz do protesto popular; a repressão é respondida com grandes mobilizações de massas. Porém, o militarismo cresce ferozmente, a Justiça Civil desaparece sufocada pela “Justiça Militar”, que atua com a rapidez das ordens que saem dos quartéis. Dá-se uma grande polarização da luta política. A pressão não tem limites, a arbitrariedade não descansa pela ação das tropas em defesa dos interesses dos oligarcas.      



FONTE: FARC-EP, Esboço Histórico. Publicado pela Comissão Internacional das FARC-EP.







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