domingo, 1 de junho de 2014

Crise do Movimento Comunista Internacional e sua superação

Após a crise que abateu a URSS e o bloco socialista, que acarretou no dissolvimento dos países do bloco em 1991, tornou hegemônico no pensamento burguês a ideia de que o socialismo estava fracassado, que suas ideias não tinham mais nenhuma atualidade com a política que rumava para o século XXI, se inaugurava o paradigma chamado pós-moderno que anunciaria de acordo com os vencedores da Guerra Fria, o fim da história, ou seja o liberalismo econômico não sofreria nenhuma ameaça na posterioridade, com isso esse paradigma do campo das ideias completava o novo paradigma econômico que se estabelecia, o neoliberalismo, que em tese  retornava a livre iniciativa, a livre concorrência, mas em realidade significa uma nova espoliação da classe trabalhadora, o fim de direitos conquistados, a privatização de empresas nacionais, concentração dos meios-de-produção, criminalização dos movimentos sociais e o combate aos serviços públicos.

Se o neoliberalismo não cessou a luta de classes,  por que o comunismo como via de superação do capitalismo estaria ultrapassado? Na posição da Plataforma Comunista do PCML (Br), a crise que abateu o Movimento Comunista após o fim da URSS não se tratou de uma crise do Comunismo, mas uma crise ideológica de desvios da aplicação teórica e de princípios do marxismo-leninismo e também uma crise de liderança revolucionária provocada pelo desaparecimento da URSS, cujo as origens dessa crise Ideológica não têm seu início com a queda do bloco socialista ou com o início da Perestroica e Glasnot, mas em 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS (PCUS), nesse congresso a liderança máxima do campo revolucionário sofria seu primeiro golpe que confundiria as mentes e a organização de comunistas em todo mundo.

O então Secretario-Geral do PCUS, Nikita Kruschev denuncia num relatório “secreto” que pouco tempo depois estaria nas manchetes dos principais jornais da imprensa burguesa, os chamados “crimes” de Josef Stalin, que figurou como principal liderança do Partido entre 1923-1953, nesse documento foram desvalidadas as conquistas do URSS durante o período liderado por Stalin, sob a acusação de um processo de repressão massiva.

As acusações de Kruschev contra Stalin, tiveram um resultado desastroso dentro Movimento Comunista Internacional(MCI), resultando em cisões  na maioria dos Partidos fora do poder, e nos Partidos que estavam no poder o afastamento da URSS sobre a denúncia de revisionismo, como no caso da China e da Albânia ou seja a confusão jogada dentro do MCI pelo golpe dos revisionistas liderados por Kruschev resultou em rupturas nos partidos nacionais que hora erraram por aceitar as teses do PCUS sem um estudo profundo das mudanças de orientação políticas ocorridas na URSS, quanto por erros de radicalização de grupos que passaram a negar tudo que vinha da URSS, devido a “traição revisionista”, como é o caso da ruptura a partir da aderência das teses do XX Congresso do PCUS pelo PCB em 1958, que fez o partido cair na passividade e no liberalismo  e ao mesmo tempo resultou em um fracionamento radical pelo grupo que formaria em 1962 o PC do B, que apesar da radicalidade na tática, não reformulou as teses sobre a realidade brasileira e sobre o caráter da Revolução, ou seja continuaram lutando pela Revolução Democrática Burguesa no Brasil.

A figura de Stalin que já era demonizada pelo ocidente desde que a URSS deixa de ser aliada dos EUA no curso da II Guerra Mundial, e volta a ser  inimigo número um do imperialismo, com início da Guerra Fria,  agora têm sua imagem arruinada no âmbito da esquerda, o que se torna muito mais grave, pois a crítica atingiu até mesmo aqueles que eram convictos no socialismo, o comunismo agora tomava a imagem de bruta-montes que agride os direitos democráticos ou para esquerda iniciou-se a acusação de “Stalinismo” que na melhor das hipóteses seria um marxismo ignorante incapaz de compreender o materialismo dialético ou mesmo a tese de “traição” da Revolução bolchevique  já existente na obra de Trotsky que ganha mais préstigio entre a esquerda, tal traição que não possui  nenhuma argumentação sólida que explique o imenso processo emancipação a nível mundial exércido durante o período Stalin, o extraordinário desenvolvimento industrial, tecnológico, o incrível crescimento nível de educação da população e a capacidade da URSS derrotar a maior máquina de guerra da História, o nazismo alemão, e ainda assim reconstruir a economia do país e coloca-la como potência capaz de ser contra ponto a hegemônia dos EUA, desenvolvendo a tecnólogia nuclear e auxiliando a libertação colonial de países da Afríca e da Ásia.

Mesmo com a recuperação de um certo prestígio do MCI nas décadas  de 60 e 70, com o avanço das lutas de libertação nacional nos países coloniais, tendo a frente os Partidos Comunistas locais com auxílio da URSS, a chegada ao poder de uma camada liquidacionista no PCUS em 1985, que tem como referencia o seu secretário-geral Mikhail Gorbachev, ressuscita toda as palavras de ordem empunhadas por Kruschev na luta contra o “monstro” stalinista. Sendo assim o combate ao burocracismo e aos supostos erros da era stalinista, tomam como palavra de ordem para desmembrar o país colossal formado por 15 repúblicas e a inserir-las num sistema neoliberal, esfacelando as conquistas de 7 décadas do governo soviético, das mais de 20 milhões de vidas que se sacrificaram na luta contra o nazismo, do trabalho árduo na luta pela coletivização da agricultura, pela industrialização, do combate ao atraso educacional,   todas essas conquistas desvalidadas, demonizando o passado de vitórias da URSS, sobre acusação do país ser governado por um “burocracia sanguinária” e jogando a população das ex- repúblicas soviéticas num regime de desemprego, violência policial, perda das garantias sociais e vendas de praticamente toda industria nacional a empresas imperialistas e a mafiosos que enriqueceram com o desmonte da economia planificada.

O desaparecimento da URSS não apenas reforçou a crise ideológica que foi inaugurada em 1956 e aprofundada com a Perestroica e a Glasnot de Gorbachev,  mas inaugurou uma nova crise, que foi a crise liderança, perdendo os PC’s de todo mundo a referência do campo revolucionário e grande trincheira da luta das ideias. Os erros e desvios ideológicos tiveram um movimento de degenerescência de princípios na URSS, a partir do XX Congresso do PCUS com  a denúncia dos “crimes” de Stalin e seu aprofundamento nos XXI e XXII Congressos, com teses equivocadas como o fim das classes sociais na URSS, a passagem de um Partido de Quadros, mantendo o Partido como órgão dos comunistas revolucionários mesmo no poder para o Partido de Massas, que absolutamente qualquer um sem qualquer critério passou a ser parte do PCUS, resultando na infiltração  de elementos não comunistas e degeneração política  e no MCI a crise se manifestou a partir da aplicação mecânica de teses elaboradas pela III Internacional sem um estudo profundo de como as mesmas se enquadravam em cada realidade local.

A crise ideológica desenvolvida no MCI demanda um estudo complexo que deve ser levado em conta as conquistas e o erros da URSS e do próprio MCI ao longo de suas história, buscando compreender as dificuldades de aplicação teórica que resultaram no retrocesso do movimento ao que remete aquilo que já havia sido exposto na obra de Marx no célebre “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, “Voltar ao que parecia resolvido antes (...) recomeça-la outro vez”, e o problema a que se colocam os comunistas desde a queda da URSS, reconstruir o movimento revolucionário, a partir de uma autocrítica e reavaliação da teoria revolucionária e um estudo aprofundado da realidade nacional junto a conjuntura internacional e ao grau de dependência que uma economia se submete a outra.

Nesse momento de elevação do MCI com a falência da farsa pós-moderna e do modelo neoliberal, que resultaram na crise estrutural e cíclica do capital, encontra a América Latina como cenário decisivo da luta de classes através da resistência histórica da Revolução Cubana, a manutenção dos governos do bloco Boliviariano liderado pela Venezuela, e o próprio embarreiramento do avanço da direita neoliberal do Brasil, se colocam como pontos de suma importância para acumulo de forças e prestígio dos comunistas na América e traçar a contra-ofensiva ao imperialismo na América Latina, assim como é fundamental para os comunistas revolucionários a solidariedade à resistência anti-imperialista na Síria e na anti-fascista na Ucrânia, e fundamentalmente a realização da principal tarefa para o reerguimento do MCI, a criação dos meios subjetivos que sustentem teoricamente e ideologicamente o proletariado, o fortalecimento das estratégias, táticas e meios organizativos da classe trabalhadora.

Gustavo Santos

                                                Essa matéria foi publicada na Edição 471 do Jornal Inverta, em 12/03/2014.
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