domingo, 6 de julho de 2014

A América Latina no Olho do Furacão da Crise do Capital

Parece inacreditável o atual processo vivido pela América Latina, particularmente a América do Sul, após todos os acontecimentos que marcaram o final do século passado, entre estes, o desaparecimento da URSS e do Campo Socialista do Leste Europeu. Nem um "futurologista" do imperialismo poderia imaginar o cenário atual; em que Venezuela, sob o comando de Hugo Chavéz; e a Bolívia, sob Evo Morales; se unissem a Cuba, dirigida pelo comandante Fidel Castro, protagonizassem a constituição de uma alternativa de estrutura econômica unitária para o continente, a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), em resposta ao projeto do imperialismo norte-americano da ALCA (Associação para o Livre Comércio para as Américas), com que os EUA planejava manter sua estrutura de dominação histórica sobre a região.

O plano parecia infalível na medida em que se apoiava na ação do imperialismo no século passado, que ceifou todas as tentativas de um desenvolvimento independente da região, em particular os de caráter revolucionário, ao estilo da revolução cubana, desencadeando assim, a repressão em massa dos revolucionários em todos os países do continente através do patrocínio direto de ditaduras militares, terroristas e assassinas, que reduziram os movimentos de libertação a resistências localizadas, como foi o caso das FARC-EP na Colômbia, ou ao isolamento continental, como foi o caso de Cuba, que sofre com seu bloqueio militar, econômico e político-diplomático há 45 anos. Portanto, com a queda da URSS e do Campo Socialista do Leste, a crise que se abateu sobre o movimento comunista internacional, e todo o poderio de mídia na formação de consciência das novas gerações, imaginava que seu plano não tinha como falhar.

E quando o imperialismo pensava que tudo só era questão de cronograma para realizar seu feito, lançando-se além mar para assegurar fontes de energia, mercado e controle da tecnologia militar na região de antigos aliados no combate à influência soviética, o Oriente Médio, onde havia perdido o controle sob determinados governos fornecedores de petróleo, eis que na América do Sul as massas populares entram novamente em ebulição, refletindo contraditoriamente a nova doutrina do imperialismo, imposta a todos para sustentar sua empreitada de novas conquistas geoestratégicas visando a superação da crise estrutural, e geral, que se projetava para eclodir, com toda a força; como se observou no final do século passado, com o crash das bolsas, vaporizando um terço do capital monetário mundial e o mergulho da economia em depressão que perdura até hoje, em certas regiões. É assim que os trabalhadores e massas oprimidas do povo levantam-se em todos os países do continente, destituindo os governos continuístas das ditaduras e elegem novos governantes que buscam uma saída para a situação de miséria e opressão histórica da região: no México, levantou-se o Exército Zapatista de Libertação Nacional; no Chile cai a Ditadura de Augusto Pinochet; no Peru cai o regime de Fujimori; na Argentina, o povo sublevado muda de presidente sem parar; na Venezuela, as massas levam Hugo Chavéz ao governo, no Brasil Luis Inácio Lula da Silva; abrindo espaço para Cuba sair do isolamento.

O imperialismo americano passa a viver, novamente, a síndrome da guerra do Vietnã, com a guerra que desencadeia contra o Afeganistão e Iraque, após os atentados de 11 de Setembro, em Nova Iorque (World Trade Center) e Washington (Pentágono). Por outro lado, o imperialismo europeu, ocupado em levar a cabo a contrarrevolução no Leste Europeu e ex-União Soviética, se descontrola na África, caindo o regime de Apartheid, permitindo a eleição de Nelson Mandela. Em seguida, começa a revolução no antigo Congo Belga, sob a liderança de Kabila, que redundou na constituição da República Democrática do Congo. O mundo do imperialismo parecia fugir aos seus pés, e para culminar, uma crise política se instaura no sistema mundial, no bojo da catástrofe econômica. A juventude, unida aos trabalhadores, se levanta nos centros imperialistas. O movimento antiglobalização e anticapitalista passou a promover greves gerais e manifestações, perseguindo os centros de articulação mundiais das oligarquias financeiras imperialistas: Fórum de Davos, OMC, FMI, G-7, ALCA, etc...

Neste contexto, aquilo que parecia ser o mundo dos sonhos das oligarquias imperialistas, passou a ser o seu inferno. Os países do antigo bloco socialista se tomaram um problema, pois sua passagem ao "livre mercado" não era tão simples. O projeto da AMI não vingou, a OMC em impasse, a OTAN desmoralizada, a ONU também, com as demonstrações de hegemonia dos EUA. Nem mesmo a onda de terror desencadeada pelos EUA conseguiu deter totalmente a situação, o imperialismo mergulhado até hoje na guerra contra o Afeganistão e o Iraque não pode combater em todas as frentes ao mesmo tempo, eis porque surgiu a conjuntura em que floresceu os governos de Luis Inácio Lula da Silva, no Brasil; de Néstor Kirchner, na Argentina; Hugo Chavéz, na Venezuela; e agora Evo Morales, na Bolívia. E diante deste novo quadro, em que as massas exigem cada vez mais posições revolucionárias dos seus governos, para sair da miséria e opressão imperialistas, o sonho do imperialismo americano de desestruturação do Mercosul e imposição da ALCA tomou-se uma quimera, pois, diante desta conjuntura, a estrela de Cuba brilha mais uma vez e Fidel Castro volta a protagonizar a cena histórica no continente, formando com Hugo Chavéz e Evo Morales a proposta da ALBA, em alternativa à ALCA e à falência do Mercosul.

A proposta da ALBA, tendo por base as fontes de energias, como no caso do petróleo e gás, que abundam na região e até ontem eram reservas estratégicas dos EUA, a custo de banana, com o crescente processo de nacionalização produzida pelos governos da Venezuela, através da sua Revolução Bolivariana, e da Bolívia, está colocando os imperialistas de cabelo em pé. Primeiro, porque a integração energética abrange uma base material e real para a integração mais poderosa que simplesmente o comércio; segundo, porque o papel que teve a reviravolta do OPEP na década de 70, no século passado, que projetou todo o processo de crise mundial em que mergulhou o capitalismo, levando-o a mudar sua política econômica oficial do keynesianismo para o neoliberalismo, gerou, em consequência, o retorno das crises cíclicas do capital, em escala mundial, logo, as conjunturas objetivas para as crises sociais e rebeliões nos países da periferia do sistema. E isto explica, sem dúvida, a pressão que sofre o governo Lula, no Brasil, para tomar uma posição fascista em relação à nacionalização decretada sobre as reservas de petróleo e gás natural pelo governo Morales, que a Petrobras, em associação menor com as grandes transnacionais imperialistas, explorava a preço vil e já havia se apoderado violando a soberania daquele país, como faziam com os árabes.

Nestas circunstâncias, o Brasil viverá uma situação parecida com a que viveu a Arábia Saudita, em relação ao nasserismo que existia no Egito e o sonho imperial do Xá Reza Pahlevi, do Irã, subsidiado pelos EUA para combater a influência da ex-URSS na região, como ocorreu na década de 70. Com o Oriente Médio mergulhado em guerra e a OPEP como arma política nas mãos hoje dos árabes, o centro da questão das fontes de energias, que está no bojo da crise estrutural do sistema capitalista, passou para a América Latina um papel decisivo. Nela, a tendência Bolivariana cresce a todo momento, e também a influência de Cuba, e do outro lado, os países que se candidatam ao papel de Israel na região, como são os casos do Chile, Uruguai, Peru e Colômbia, cujos investimentos militares são crescentes. Portanto, ao Brasil, que durante a Ditadura se projetou no continente no papel subimperialista, só resta a opção oportunista de Arábia Saudita, resta saber quem será o rei Faisal desta paródia da história, de inserção soberana na globalização, que foi tão prometida pelos atuais governantes. A recente informação de que o Brasil começou a enriquecer urânio seria uma pista? Se for, o seu papel será o de Israel, muito longe do que sonham as massas proletárias de nosso país. Portanto, cabe avaliar com maior profundidade o processo em curso das eleições presidenciais no Brasil e qual vai ser a tônica dos candidatos.

Desde já, rechaçamos toda e qualquer ação de retaliação à Bolívia! Viva a soberania Boliviana e a nacionalização das reservas de petróleo e gás a favor do povo! Viva a ALBA e abaixo toda a ação imperialista de provocar uma guerra na região para dividi-la!

Nova Friburgo, 16 de maio de 2006 P. I. Bvilla - Pelo OC do PCML
Essa matéria foi publicada na Edição 400 do Jornal Inverta, em 18/05/2006
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