sábado, 12 de julho de 2014

A Shell e a limpeza étnica no Dombass

O exército ucraniano continua uma ofensiva em grande escala contra as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk. O bombardeio indiscriminado provoca mais mortes civis. Sistemas de lançamento múltiplo de foguetes Grad , Uragan e Smerch foram utilizados em Nikolaevka e praticamente arrasaram da terra esta área populosa. Não há ligação com a cidade de modo que é impossível saber exactamente o número de mortos. Quarteirões residenciais de Semionovka e Slavyansk são regularmente sujeitos a bombardeamento. Os sistemas de saúde em Slavyansk não funcionam; a cidade está cercada e bloqueada. Carros que tentam sair são alvejados.

Os pormenores do banho de sangue devem ser estudados antes de se tornarem conhecidos publicamente. Em fins de Janeiro de 2013, quando o antigo presidente Yanukovych ainda estava no poder, o governo ucraniano e a Royal Dutch Shell redigiram (inked) o primeiro grande acordo de partilha de lucros (profit sharing agreement) para 50 anos de exploração de shale gas. A Shell planeia desenvolver o campo Yuzov nas regiões de Donetsk e Kharkiv. Em Junho de 2014 a companhia confirmou sua intenção de avançar com o acordo tão logo o conflito fosse desescalado e a situação estabilizasse. A informação acerca do acordo é classificada. O governo ucraniano alegadamente não pode recusar a extensão dos seus termos. O território a ser explorado tem 7886 quilómetros quadrados, incluindo Krasny Liman, Seversk, Yasnogorsk, Kamyshevka, etc.


De acordo com o artigo 37.2 do acordo, os residentes locais têm de vender as suas terras e propriedades. No caso de recusa devem ser coagidos a vender a fim de atender os interesses da Shell. As despesas da companhia devem ser compensadas pela Ucrânia a expensas do gás produzido.

O governo assumiu a responsabilidade de encontrar uma solução para todos os problemas com autoridades locais.

Também há outros actores envolvidos em projectos shale gas na Ucrânia:


  • Eurogas Ukraine, algumas das suas acções são de propriedade da British Macallan Oil & Gas (UK) Ltd, a qual pertence à Euro Gas estado-unidense (ver abaixo mapa das concessões na Ucrânia); 


  • Burisma Holdings , em que Hunter Biden , filho do vice-presidente dos EUA, é membro do conselho de administração.


Este é o principal objectivo daqueles que lançaram a chamada "operação anti-terrorista", ou a carnificina do Donbass. Eles querem estabelecer controle total sobre as regiões de Donetsk e Lugansk para abrir caminho para a extracção de shale gas (80-140 mil furos). Assim, terras aráveis não seriam utilizadas para finalidades agrícolas; casas e igrejas terão de ser destruídas para erguer infraestruturas de produção gasistas. A Ucrânia orgulha-se dos seus 27% de terra negra . Terá de vendê-la ao estrangeiro. É difícil fazer isso em tempo de paz, mas o tempo de guerra muda um bocado as coisas. É importante reduzir a população deixando apenas aquela que for necessária para extrair gás. O novo presidente da municipalidade de Krasny Liman, nomeado por Turchinov depois de as tropas ucranianas tomarem a cidade, prometeu aos habitantes locais criar novos postos de trabalho para substituir aqueles que haviam perdido durante a guerra devido aos danos em instalações industriais .

Muitos acreditam que se a resistência for suprimida, o controle sobre as regiões de Donetsk e Ligansk permitirá isolar a Rússia de uma grande parte do mercado europeu de gás. Peritos acreditam que a situação ficará mais clara no Outono de 2014.

A questão explodiu no mês passado após comentários de uma fonte improvável:   o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen. Aquele responsável normalmente reservado, que raramente comenta sobre assuntos energéticos, disse em 19 de Junho ao think tank londrino Chatham House que a Rússia estava, como ele disse, a apoiar secretamente alguns ambientalistas europeus anti-fracking a fim de impedir a Europa de aderir à revolução shale gas dos EUA – e portanto manter o continente dependente de exportações de gás russo. Rasmussen afirmou que aliados da NATO haviam detectado manipulação russa em "refinadas operações de informação e desinformação" dentro de bem organizados grupos anti-fracking da Europa.

A Lei de Prevenção da Agressão Russa (Russian Aggression Prevention Bill) de 2014 foi ao Senado dos EUA em 1 de Maio num ataque violento em ano eleitoral contra a política da administração, em que oito republicanos conduzidos pelo Lider do Partido Republicano Mitch McConnell anunciaram um pacote de penalizações à Rússia, assistência à NATO e exportações de gás natural dos EUA. Os senadores disseram ter esperança de assegurar apoio dos democratas e, no mínimo, forçar a Casa Branca a desenvolver uma estratégia coesa ao invés das suas respostas ad hoc. Isso significa que o objectivo de estabelecer controle sobre as reservas da região Donetsk-Dneprovsk transformou a guerra contra o povo local numa operação de extermínio. Morticínio em massa e propagação do medo, transformando habitantes locais em refugiados, tornaram-se as ferramentas principais de implementação da política das autoridades que tomaram o poder em Kiev após o golpe. Elas servem os interesses de companhias transnacionais ao se envolverem na limpeza étnica da população russa do Donbass. Vidas humanas, normas do direito internacional e regras para travar guerras contemporâneas nada significam para os responsáveis pelo banho de sangue. Alguns peritos (E. Gilbo, por exemplo) dizem que já foram feitas estimativas de quantas pessoas deveriam permanecer naquelas regiões.

Em 4 de Julho o responsável das formações de auto-defesa da República Popular de Donetsk , Igor Strelkov, disse que se a Rússia não alcançar um acordo sobre cessar fogo e não lançar uma operação para fazer a paz, a cidade de Slavyansk com sua população de 30 mil habitantes será varrida da terra em uma ou duas semanas.

P.S. Durante muitas semanas as formações de auto-defesa distraíram grandes forças do exército ucraniano, mantendo-as concentradas em torno da assediada Slavyank. Posteriormente, em 5 de Junho, unidades da milícia romperam o cerco a fim de ganhar liberdade de acção fora daquela limitada área de batalha.

Olga Chetverikova
publicado originalmente em Strategic Culture
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