sexta-feira, 11 de julho de 2014

A sofrida epopeia do povo palestino

Al Nakba, 62

    Em 15 de maio, a Nakba (palavra árabe para “catástrofe” que designa a criação do Estado de Israel) completou seu 62º aniversário. Neste dia, dirigentes do Hamas e do Fatah marcharam juntos pela primeira vez desde 2007 num ato organizado pela Jihad Islâmica. A rara união destes grupos mostra a importância da data para o povo árabe-palestino, sendo seu resgate histórico fundamental. Na edição passada, traçou-se um histórico da Palestina no século XIX e durante a Primeira Guerra Mundial. Agora, será abordado o momento do mandato britânico e da Segunda Grande Guerra.

Mandato britânico

Em 1919, o Congresso Geral Sírio rechaçou completamente o plano das potências europeias para a Palestina, deliberando não reconhecer o governo francês na Síria; rejeitar as aspirações sionistas ao sul da Síria; rejeitar a imigração, embora se defendesse que a população prévia continuasse a gozar de seus direitos; não aceitar a separação de Síria, Líbano e Palestina; e desejar um Iraque integrado. Além disso, em agosto, a Comissão King-Crane ativada pelos Estados Unidos do presidente Woodrow Wilson colocaria um relatório à disposição das delegações francesa, inglesa e italiana na conferência de paz em Versalhes. Nele, recomendava-se uma modificação do programa sionista, já que a comissão de inquérito apuraria in locoque a população não-judia da Palestina era vasta maioria e posicionava-se contra o projeto de imigração judaica ilimitada e a pressão social e financeira para que os nativos abandonassem sua terra. Apesar de os membros terem começado sua investigação claramente favoráveis ao sionismo, a situação da Palestina fizera-os constatar que “um Estado judeu não pode ser criado sem acarretar um grave prejuízo aos direitos civis e religiosos das comunidades não-judias existentes na Palestina”. O relatório solicitava o exame desta questão pela conferência de paz, uma vez que “nenhum oficial britânico consultado pelos membros da comissão pensa que o programa sionista possa ser aplicado a não ser pela força das armas e seriam necessários pelo menos cinquenta mil soldados só para começar a aplicar este programa”.


A partilha operada em San Remo introduzia uma nova situação para aquela região: antes, tratava-se de um conjunto inteiro submetido à autoridade otomana com províncias relativamente autônomas e, uma vez coletados os impostos, não tinham mais quaisquer contas a prestar. Com o mandato, estabeleceram-se fronteiras artificiais e a presença da Organização Sionista cresceu. Esta entidade substituiria a antiga finalidade religiosa das colônias judaicas que viviam pacificamente com a população não-judaica por uma política de implantação exclusivista. O congresso sionista, realizado em Londres em 1920, passara uma resolução que admitia que todas as terras colonizadas na Palestina pelos judeus fossem consideradas “propriedade inalienável do povo judeu”, não podendo nem sequer serem arrendadas a um não-judeu. Por intermédio do Fundo Nacional Judaico, passou a adquirir domínios e terras na região, garantindo sempre uma cláusula irredutível: “a terra vazia de seus habitantes”. Depois de cercada a terra, seu acesso era proibido ao povo árabe, mesmo que o custo de sua mão-de-obra fosse mais barato. Muitas vezes, a compra de terras não implicava uma exploração agrícola efetiva, tendo apenas o objetivo de excluir os proprietários e trabalhadores árabes. A propaganda sionista utilizaria este exclusivismo para defender um discurso supostamente “de esquerda” no Ocidente de que nunca procurou explorar os trabalhadores árabes, o que, de fato, era verdade. Seu único objetivo era expulsá-los de sua terra.

Os árabes, por sua vez, não entendiam a “boa intenção” judaica: já haviam estabelecido relações de exploração antes com cobradores de impostos e latifundiários, mas seu vínculo com a terra não fora abruptamente rompido como agora. Não entendiam porque uma transação econômica tornava-os, de uma hora para outra, “estrangeiros em situação irregular” numa terra cultivada desde os seus antepassados. 
Por isso mesmo, ao longo do mandato, os árabes-palestinos passaram a exigir, além da interrupção da imigração, a proibição da compra e venda de terras.
Em 1920, ocorreram as revoltas árabes de Nebi Musa, as primeiras do que se convencionou chamar conflito entre árabes e judeus contra a imigração, a compra de terras e a Declaração Balfour. É interessante notar que, ao contrário do que postula o discurso sionista, a convivência é possível, dado que se trata de uma questão histórica muito recente. Os árabes-palestinos sempre tiveram contatos com os judeus e, se existiram atritos, nunca tomaram uma grande proporção. É possível dizer até que, do ponto de vista religioso, há mais afinidades entre o judaísmo e o Islã do que entre o judaísmo e o cristianismo (judeus e islâmicos lutaram juntos para defesa de cidades nas Cruzadas e resistiram, lado a lado, aos reis católicos na Guerra de Reconquista, por exemplo). No ano seguinte, há revoltas intensas em Jaffa, o que obriga a Inglaterra a lançar o livro branco de Churchill, uma declaração imposta pelo governo em que se pontua a necessidade de lidar com o problema da coexistência e promoção de uma Palestina binacional. Criou-se, neste sentido, o semi-autônomo Emirado Árabe da Transjordânia (atual Jordânia).
Em 1925, organizou-se uma greve geral contra a vinda do Lorde Balfour a Jerusalém e, no ano seguinte, eclodem os primeiros conflitos em Hebron entre árabes e judeus. O ano de 1928 destacaria a liderança nacional do Hadj Amin al-Husayni, conhecido desde 1921 como o “mufti de Jerusalém”. A esquerda árabe compreendia que seu método era equivocado, uma vez que se contrapunha apenas à imigração judaica, sem uma política de combate à dominação inglesa. No ano seguinte, houve uma grande revolta, iniciada por provocações de um grupo militar de Jabotinsky, e a dimensão do conflito dificultaria a repressão britânica. Diante deste fato, a Inglaterra criaria duas comissões de inquérito, a Shaw e a Simpson, que imporiam limites à imigração judaica e criariam empregos para a mão-de-obra árabe.
Em 1930, a Inglaterra lançou o Livro Branco de Passfield, em que admitiria ter assumido compromissos com árabes e judeus e tentaria contemporizar, prometendo terras para os camponeses árabes. Na própria Inglaterra, em Londres, grupos sionistas organizaram protestos contra o Livro Branco, levando o primeiro-ministro Ramsay MacDonald a prometer que uma parte seria anulada. Em 1933, há mais revoltas árabes em Jaffa e em Jerusalém contra a polícia britânica, considerada pró-sionista.  Dois anos mais tarde, a imigração judaica atingiria a cifra-recorde de 65 mil pessoas.
Em 1936, o movimento atinge seu ápice com a grande revolta palestina: o que começou, em abril, como alguns choques entre os árabes de Jaffa e os colonos judeus de Telavive, então subúrbio de Jaffa, transformou-se, devido à dura repressão inglesa, numa grande greve geral que paralisou todo o país. As três reivindicações centrais eram a interrupção da imigração, a proibição de qualquer transação de terras e a criação de um governo de representação nacional palestino. Os britânicos estavam dispostos a poucas concessões e os sionistas tentaram impedir qualquer solução negociada. No dia seguinte, cada cidade constitui seu comitê de greve. A reação inglesa é imediata: Jerusalém e Jaffa são postas em estado de alerta e, em todo o país, as autoridades realizam inúmeras prisões. Pessoas morrem e os transportes ficam paralisados. Neste momento, os notáveis palestinos (lideranças tradicionais), a fim de conter a radicalização do movimento, apelam a uma reunião entre seus representantes e os dos comitês de greve. Nesta, é criado o Alto Comitê Árabe, sob a liderança do mufti de Jerusalém, cujo papel seria desmobilizar a greve. Entre 1936 e 1937, a comissão real dirigida pelo lorde Peel na Palestina conclui que há uma impossibilidade de coexistência entre as aspirações nacionais árabes e judaicas, recomendando o fim do mandato e a partilha da região em três partes: uma judaica, uma árabe e outra, compreendendo Jerusalém, Nazaré e Belém, sob domínio do mandato. A Comissão Peel foi rejeitada pelos árabes, levando a uma nova eclosão da revolta. Cabe ressaltar que esta perduraria de 1936 a 1939, tendo como resultado três mil árabes, 400 judeus e 140 ingleses mortos. A greve geral traria um grande problema para os árabes: os judeus atuariam como fura-greves, ocupando seus postos de trabalhos. De qualquer forma, muitos historiadores chamam-na de “Primeira Intifada”.
Em 1939, a Inglaterra publicou o livro branco do ministro das colônias Malcom MacDonald, o qual, diante da resistência árabe, contrapunha-se à criação de um Estado judeu. Além de propor uma Palestina indivisível, com um governo partilhado por árabes e judeus, restringiu a imigração judaica a 75 mil pessoas nos cinco anos seguintes, restringiu transações de terras e estabeleceu a permanência do governo britânico na região por mais dez anos. MacDonald alegava que a Inglaterra não conseguia manter a ordem na região, constituindo os sucessivos conflitos uma ameaça ao país. Afirmava ainda que a Grã-Bretanha nunca tivera a intenção de fundar um Estado judeu na Palestina, tendo sido a Declaração Balfour mal interpretada por ambas as partes. Tratava-se, de fato, do maior recuo inglês quanto à criação de um “lar nacional judeu”. Não foram somente as revoltas árabes que influenciaram no passo político do país, a Inglaterra precisava ordenar seus interesses imperiais para preparar-se para uma guerra que decidiria o futuro do império.
Segunda Guerra Mundial
Com o terceiro Livro Branco, a Inglaterra deixaria aos árabes e judeus a responsabilidade de definirem seus respectivos interesses, reservando-se o direito de intervir no caso de as respectivas escolhas não corresponderem com as suas.
Os judeus não tinham muita opção: conheciam o discurso de Hitler e sabiam que, no caso de uma vitória alemã, seriam exterminados. De qualquer forma, apesar de a ideologia nazista estar clara no livro Mein Kampf, o qual discutia longamente sobre o “problema judaico”, deve-se pontuar que houve uma colaboração efetiva entre a Alemanha nazista e os sionistas. Primeiramente, quando os comunistas e os judeus começaram uma campanha de boicote contra os alemães, no começo de 1933, a Agência Judaica e a Federação Sionista da Alemanha mostram-se hostis ao boicote. Em agosto de 1933, sionistas e nazistas firmam o Acordo Ha’avara (em hebraico, “transferência”), segundo o qual cada judeu interessado em ir para a Palestina depositava dinheiro numa conta alemã e este era usado para comprar ferramentas do país a serem exportadas para a região pela sociedade fiduciária Ha’avara and Transfert Office.
A liderança sionista destacava a grande importância da criação de um Estado judeu, mesmo que isso significasse o assassinato de muitos praticantes da fé: Ben Gurion, futuro primeiro-ministro de Israel, diria em dezembro de 1938 que “se me fosse dada a possibilidade de escolher entre salvar todas as crianças judias da Alemanha levando-as para a Inglaterra ou salvar apenas metade delas transportando-as para Eretz-Israel, eu optaria pelo segundo termo da alternativa, pois devemos considerar não só a vida dessas crianças, mas igualmente a história do povo de Israel”. Fazia a avaliação de que, se a energia judaica fosse canalizada para o salvamento de judeus, o projeto sionista do “lar nacional” seria perdido.
Diferentemente da Primeira Grande Guerra, a Palestina não seria neste momento palco de conflitos, mas um enorme aquartelamento militar, o que aumentaria a presença de soldados estrangeiros e proporcionaria oportunidades de emprego. Depois de um primeiro ano de guerra em que a economia local esteve paralisada, a região viveu um surto de desenvolvimento econômico e um afrouxamento das hierarquias e estruturas tradicionais. A vida das mulheres árabes e judias mudaria consideravelmente: as primeiras passaram a ocupar postos de trabalho nunca antes desempenhados por mulheres, além de se tornarem socialmente mais independentes, e, para a maior parte das segundas, houve uma mudança na estrutura familiar tradicional.
Na guerra, o movimento sionista lutaria ao lado da Inglaterra contra o Eixo e roubaria armas do país, com as quais formaria grupos de milícia judaica, destacando-se, entre eles, o Haganah, futuro exército oficial de Israel. Sua liderança exploraria a guerra ainda para proporcionar à juventude um treinamento militar. Ao mesmo tempo, o movimento continuaria a estimular a imigração ilegal.
No caso árabe, em muitos lugares, uma parcela considerável da classe dominante aplicou uma lógica simples: torcer pelo inimigo do inimigo e, no caso, os inimigos dos ingleses eram os nazistas. Destaca-se o mufti de Jerusalém. Para escapar da perseguição britânica, Amin al-Husayni segue para o Líbano e, posteriormente, para o Iraque. Em 1941, encontra refúgio, acompanhado de outros membros do Alto Comitê Árabe, na Alemanha nazista, onde serviria de propaganda para a máquina de guerra de Hitler. Deve-se ressaltar que, na sua ausência, foi criada outra liderança oficial que se opunha ao Alto Comitê: a Autoridade Nacional, chefiada por Raghib Al-Nashashibi e apoiada pelos hachemitas. O mufti se comportaria como um diplomata: encontraria com líderes muçulmanos da Bósnia e da Albânia, tentando angariar apoio à Alemanha, e visitaria os países do Eixo, buscando, sem sucesso, apoio para a questão no Oriente Médio. Esta aproximação com o nazismo foi muito utilizada pela propaganda sionista depois da guerra.
Não seria apenas o mufti, no Cairo, dominado pelos ingleses desde os anos 1880, houve manifestações conduzidas por políticos locais que gritavam “Avante Rommel”, com base na idéia de que a Alemanha jamais tivera qualquer relação de dominação nem com o Egito nem com nenhum outro país árabe. No Iraque, os dirigentes nacionalistas, por sua própria história, eram anti-britânicos ferrenhos. Um deles, Rachid Ali Kilani, tornara-se primeiro-ministro em março de 1940, recusando-se, quando a Itália entrou na guerra, a romper relações diplomáticas com o país.
No final da guerra, os britânicos apresentaram uma série de programas de paz, propondo um híbrido entre a partição e a continuação do controle britânico. Todos eles foram rejeitados pelas lideranças opostas. A última, também recusada, foi apresentada em janeiro de 1947 pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernest Bevin. Em fevereiro deste mesmo ano, a Inglaterra, com um contingente militar na região maior do que o presente no subcontinente indiano e envolvida em constantes conflitos diretos contra ambas as partes, registrando já muitas baixas militares, estava farta de tentar manter a Palestina. Somava-se a isso a campanha de terror desenvolvida por milícias sionistas extremistas, com atentados cada vez mais audaciosos e freqüentes. Entre os diversos grupos existentes, o Stern Gang era o mais famigerado. O ápice destes ataques foi a explosão, em julho de 1946, do quartel-general britânico no Hotel King David, em Jerusalém, com um balanço de 88 mortos. Entre 1946 e 1947, um inverno rigoroso e a dura atitude ianque quanto à dívida inglesa estimularam o processo de descolonização, principalmente na Índia e na Palestina.
VMC, Sucursal São Paulo
Essa matéria foi publicada na Edição 446 do Jornal Inverta, em 24/08/2010
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