domingo, 20 de julho de 2014

Deus não estava no Maracanã

Lionel, apelidado “o Messias”, levantava os braços para o céu; porém, daí não choviam para suas pernas os gols e a glória prometida. Correram o Ungido e seus dez acólitos durante cento e vinte minutos e o gramado foi faixa do Calvário. Messi ruminava seu desamparo, a solidão de filho abandonado na cruz. De nada valeu que os milhares de fãs argentinos rezassem, se persignassem, para conspirar pelo milagre desde a grade. A escassos minutos do final do jogo, o tento de Götze retumbou como martelada de Thor: tinham vencido os descendentes dos deuses pagãos, da tosca mitologia germânica desprezada pelos cristãos.

Deus não estava no domingo no Maracanã. De que outro modo entender que permitisse ganhar a competição os nativos do país de um Papa que abdica e não os conterrâneos do pio Francisco, que hoje dá a cara da cadeira do Vaticano?

Tampouco esteve quando do “Mineiraço” de uns dias atrás. Nessa quarta-feira de cinza, onde o povo que se ufana de que “Deus é brasileiro” e adora Pelé, o ídolo de ébano, foi castigado com sete golaços olímpicos. Um marcador de escândalo: nada menos que 7 –o número mágico- tantos contra o bom anfitrião, da equipe ganhadora de 5 Copas, das hostes iluminadas pelos Neymar Jr. E David Luiz...

Como assimilar que Deus permitisse a coroação de um adventício na América, na comarca que uma vez foi o Novo Mundo ou Paraíso na Terra? Mais ainda se os bem-aventurados foram os netos desses rudes vikings que disputam a primazia do descobrimento a São Cristóvão, o padroeiro dos viajantes; o Colombo que empreendeu travessia sobre três caravelas benzidas por Reis Católicos...

Chamem-me de herege, apóstata, o que queiram. Porém repito: Deus não esteve na Copa do Mundo do Brasil. Ainda que, mais bem, cabe dizer que não estava em nenhuma parte, porque nem sequer viu do outro lado do mundo como os de Judeia, seu povo eleito, demoliam os Mandamentos e as casas e os corpos dos palestinos.

Toda a Alemanha festejou o regresso de sua Mannschaft, uma legião triunfante de rosto múltiplo: Müller, Klose, Neuer, Kross, Schurrle, Özil, Lam, Khedira… Uma tropa de elite, sim. Porém, não endurecida em fráguas de Vulcano nem iluminada com os raios do todo-poderoso. Em todo caso, uma partida moldada com a herança do rei Odin e seus corvos negros, Hugin (pensamento) e Munin (memória), que são características tidas também por nós, os humanos. O mérito é do técnico Low, quem aprendeu de derrotas anteriores e aperfeiçoou tática e estratégia. Quem colheu o fruto de um salto evolutivo, desde os pesados tanques de guerra que foram, até a virtuosa orquestra de Berlim que hoje é. Pelo meio houveram anos de paciência e dissipação de recursos e energias para melhorar a pedreira e ordenar a Bundesliga.

Argentina queria coroar Messi como um novo Deus, como o legítimo continuador daquele DEUS do 86, Dieguito Maradona, o qual pôs sua mão de menino malandro, de filhote rebelde do potreiro, para burlar a imperial hoste de Albión e se sacou um gol interpretado como mediação do Eterno.

Porém a Glória, que tão perto esteve, também longe ficou; e os naturais da terra do tango triste e de Borges o Cético tiveram que conformar-se com o regresso dos anjos caídos. De um esquadrão com o olhar posto no solo e não nas nuvens, encabeçado pelo chefinho Mascherano, e seguido por um “Lío” mais parecido com o garoto rosarino de talento imenso e transtorno do crescimento que do gênio dos 91 gols com o Barcelona; atrás, Di María com a coxa contundida, e Lavezzi, Garay, Demichelis, Rojo...

Dando o destino seu giro mais afortunado, e acaso inesperado, a pátria alviceleste logo enxugou as lágrimas e acolheu seus compatriotas com aplausos. A torcida batia no peito para dizer: “Esta equipe argentina ficou em meu coração. Deixaram a alma no terreno”. Assim, esquecendo-se de maravilhas celestiais, premiaram os rostos do heroísmo humano: a humildade, a simplicidade, o espírito coletivo, o esforço.

Chamem-me de ímpio. Mas a grande lição do Maracanã é que não vivemos tempo de deuses. E o futebol é uma simples questão de homens.

*O autor do artigo(Rafael Grillo),é um jornalista cubano. Escreve artigos sobre literatura, cinema e artes visuais. É chefe de Redação da revista cultural cubana El Caimán Barbudo.

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