quinta-feira, 5 de maio de 2016

Stratfor, a CIA privada atua no Brasil

Uma das deficiências costumeiramente apontadas no modelo de inteligência praticado pelos serviços das potências imperialistas é o fato da estreiteza de sua visão de mundo levar a uma incapacidade de se compreender a mentalidade dos povos, normalmente subestimando todas as manifestações culturais que lhes são alheias.

Pela posição que ocupa, a classe dominante é incapaz de uma visão dialética e integral de nossa sociedade cindida, sob pena de deixar de ser classe dominante. Apenas a classe operária é capaz de identificar e atuar sobre as raízes concretas dos problemas que afligem a humanidade.

Essa é uma das razões para as dificuldades que os Estados Unidos têm em manterem sua influência no cenário internacional em tempos de crise do capital. Influência essa que decresceu em algumas regiões, como é o caso da América Latina, e que só pôde ser mantida, ou mesmo estendida, em outras regiões nas quais atuaram com força bruta, seja através da guerra convencional, ou da contratação de mercenários, como o Norte da África.

Afinal, a política externa do império estadunidense é dominada por neoconservadores, que a enxergam apenas do ponto de vista da tarefa de se impedir a emergência de uma nova superpotência rival, algo pouco funcional em um mundo que inexoravelmente se torna cada vez mais multipolar e dividido em blocos econômicos regionais.

Esses analistas se utilizam de modelos lógico-matemáticos conhecidos como teoria dos jogos, criados na Guerra Fria para embasarem a tomada de decisões. Porém não enxergam que as premissas básicas desses modelos são falhas, já que as mesmas presumem que cada indivíduo atua sempre de forma racional para maximizar seus ganhos pessoais, o que é o núcleo do paradigma liberal. Qualquer forma de altruísmo, de solidariedade, ou mesmo de sacrifício, não faz sentido se não for em prol do objetivo final de beneficiar cada “jogador” individualmente. Esquecem que o mundo não é um tabuleiro de xadrez, no qual as regras e os objetivos do jogo são imutáveis.


Do ponto de vista desses analistas, que é herdeiro do racismo colonial do Império Britânico, os árabes sempre serão os agressores contra um vitimizado Estado de Israel, os africanos sempre serão incapazes de se autodeterminarem sem ingerência estrangeira, os latino-americanos são pessoas com uma afinidade especial a caudilhos populistas. Dessa forma, erram feio na hora de selecionarem suas fontes e seus analistas.

Uma nova tendência no levantamento de inteligência pode ser apontada como uma das causas que levam a uma preocupação menor na manutenção de fontes fiáveis, a coleta de informação a rodo através das redes sociais. Muito já foi alertado sobre o fato de plataformas como o Google e o Facebook serem na verdade formas de se aglutinar informações sobre indivíduos a serem controlados, pretendemos tratar disso com mais especificidade em outra matéria.

Voltando à unilateralidade presunçosa dos analistas do Império, é muito interessante notar o desespero dos diplomatas e militares dos Estados Unidos com a ascensão do governo bolivariano na Venezuela e sua crescente influência na América Latina. É o que transparece dos 700.000 correios eletrônicos recentemente publicados pelo Wikileaks dos quais 17.231 contêm o nome de Hugo Chávez, presidente dessa nação.

Essas mensagens foram obtidas de servidores da empresa de inteligência privada estadunidense Stratfor por hackers em uma operação destinada a chamar atenção para o tratamento desumano recebido na prisão por Bradley Manning, um jovem soldado que é o suposto responsável pelo vazamento dos cabos diplomáticos que deu fama mundial ao Wikileaks e de um vídeo que mostrava como de um helicóptero apache, do exército dos EUA, executou dezenas de pessoas indiscriminadamente, inclusive 02 jornalistas da Reuters.

Posteriormente entregues ao Wikileaks, os emails publicados demonstram como atua a Strategic Forecasting, ou Stratfor, empresa comumente chamada de CIA das sombras, que ficou famosa durante a Guerra na Iugoslávia e que, cooptando diversos antigos diplomáticos soviéticos que mudaram de lado, prometia ser capaz de fazer previsões sobre a evolução do conflito nos Bálcãs.

Oferecendo caras assinaturas por seus boletins de notícias e se apoiando em diversos jornalistas da imprensa nazifascista, a Stratfor é um grande negócio que tem entre seus clientes corporações como a Dow Chemical, que foi responsável pelo desastre de Bhopal, no qual milhares de pessoas morreram na Índia por exposição ao isocianato de metila. Tanto a Dow Chemical, quanto a Coca Cola contrataram a Stratfor para obterem informações sobre manifestações de ativistas.

No Brasil a Stratfor atua em duas áreas distintas. Na obtenção de fontes, tarefa na qual, pelos emails divulgados, a empresa obteve um sucesso parcial, já que, se por um lado ficou demonstrado que tiveram acesso a diversos funcionários de alto-escalão do governo brasileiro, como o secretário-adjunto do Gabinete de Segurança Institucional do Planalto, José Antônio de Macedo Soares, ou o general-de-brigada João Cesar Zambão da Silva, por outro a leitura que fazem do Brasil é apoiada principalmente em fontes também neoconservadoras, como Sérgio Fausto, diretor do instituto FHC e o jornalista Nelson During, editor-chefe de um portal que tenta ser uma espécie de Stratfor versão tupiniquim. Dessa forma podemos deduzir que a visão deles do Brasil peca pelo mesmo unilateralismo já tratado.

A segunda área é uma relação com seus clientes, entre eles os órgãos da grande imprensa brasileira, na qual há um fluxo duplo de informação, como descrito em um email que fala sobre o acordo assinado com a Folha de São Paulo. Nesse sentido, com o fluxo de lá para cá, a Startfor auxilia bastante em garantir que os jornalistas desses meios de comunicação sustentem posições alinhadas aos interesses do imperialismo.

Muito abalada pelo escândalo que desnudou seu funcionamento interno, suas fontes e seu modus operandi, a Stratfor busca se reinventar como negócio, inclusive oferecendo boletins gratuitos. No Brasil a empresa pode sempre contar com uma quinta-coluna de mentalidade colonizada embrenhada no Estado e também com o apoio da grande imprensa, que, na hora de defender seus amos de Washington, são mais realistas que o próprio rei.

Júlio P. S.

Fonte Jornal Inverta
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