sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

1959: Ano de fundação de uma epopeia cultural

“O que é a arte, senão o modo mais curto de chegar ao
triunfo da verdade, e de colocá-la por sua vez, de maneira
que perdure e brilhe nas mentes e nos corações"?
José Martí

O triunfo da Revolução marcou uma nova etapa para a cultura cubana, na qual o calendário da Ilha comemora seu Dia especial relembrando, em 20 de outubro de 1868, aquela data histórica na qual se misturou consciência patriótica e arte.

Carlos Manuel de Céspedes, depois Pai da Pátria, com sua inicial ação de luta, em Yara, contra o regime colonial espanhol, tomou então a cidade de Bayamo, depois de atear-lhe fogo antes de a entregar, e Perucho Figueredo revelaria ali a letra de La Bayamesa, que resultaria o Hino Nacional, verdadeira aliança do espírito independentista e a música.
Fidel Castro conversa com integrantes do Ballet Nacional de Cuba

Esse prólogo magnífico de uma guerra de independência prolongada quase um século, permite então entender porque nos mais difíceis momentos do chamado ‘período especial’, nos anos 90, Fidel manifestasse que o primeiro que era preciso salvar era a cultura.

Todo começou com a Revolução. A epopeia cultural desenvolvida em mais de cinquenta anos tem cultivado o espírito dos cubanos e a cultura é um direito conquistado.

No próprio ano 1959 nasciam algumas das múltiplas instituições artísticas e culturais fundadas já no país. Pareceria não ter motivo para surpreender-se quando se fala que, em março, foi criado o Instituto Cubano da Arte e a Indústria Cinematográfica (Icaic) e o hoje Instituto Cubano do Livro (nascido como Imprensa Nacional), e em abril, a Casa das Américas, instituições ícones da cultura do país.

E, contudo… a surpresa está indissoluvelmente relacionada a essas ações iniciais. Tanto por fazer! e a cultura esteve na gênese.

O Engenhoso Hidalgo

Apenas três meses depois da vitória, foi fundada a Imprensa Nacional e no ano seguinte, por iniciativa de Fidel, ou por sugestão de Alejo Carpentier (fala-se em ambos como iniciadores, e em verdade são), foi editado uma edição já lendária de cem mil livros do clássico por excelência da literatura espanhola, O Engenhoso Hidalgo Dom Quixote da Mancha, de Miguel de Cervantes.

Seria a Imprensa Nacional a responsável por editar, em 1961, as cartilhas e os manuais da Campanha Nacional de Alfabetização, quando quase um milhão de cubanos aprendeu a ler e escrever. Está sendo comemorado, então, o 55º aniversário daquela primeira conquista da Revolução, um fato cultural transcendente.

O livro resultou ser primordial para o cubano, sempre qualificado de ávido leitor, como demonstra, cada ano, a Feria Internacional que em Havana lota grandemente a antiga fortaleza colonial San Carlos de la Cabaña.

Vinte e quatro Imagens por segundo

Março foi um mês de sorte. «Sob a certeza de que se queremos cinema nossa melhor definição é reafirmá-lo oficialmente», nasceu por decreto o Instituto cubano da Arte e a Indústria Cinematográficas (Icaic).

Uma mostra de como o cinema já faz parte consubstancial da espiritualidade do cubano; baste dizer Festival Internacional de Novo Cinema Latino-americano, onde qualquer diretor da região ou de outras partes do mundo, pois os filmes não conhecem fronteiras, fica sempre surpreso e cativado pelo inúmero, cálido e conhecedor público que frequenta as salas de cinema.

Caminhando no tempo, faz agora 30 anos, foi criada a Escola Internacional de Cinema e Televisão (Eictv), de San Antonio de los Baños, à distância de 30 quilômetros de Havana, como diria Alfredo Guevara, «sob a sombra de Fidel», por Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura 1982, o cineasta argentino Fernando Birri e o cubano Julio García Espinosa.

Alicia e Casa (SUBT)

A Casa das Américas foi fundada, em abril, pela heroína cubana Haydée Santamaría, como espaço de encontro e diálogo para os intelectuais e criadores latino-americanos e caribenhos e seu Prêmio Literário é hoje um dos mais prestigiados do continente.

O balé, uma arte que se considera associada às minorias, em Cuba é totalmente de massas. A diretora do Ballet Nacional de Cuba, a distinta ballerina Alicia Alonso, disse em múltiplas ocasiões que sempre teve uma colaboração imediata de Fidel, que o percebia como arte elevada, que o povo merecia conhecer e desfrutar.

No mês de maio de 1961, dias antes da vitória de Playa Girón, o próprio Fidel criou a Escola Nacional de Instrutores de Arte, com a ideia de que ministrassem seus conhecimentos aos povoadores do campo e da cidade e os qualificou de singulares promotores da cultura. Depois, chegaria a Escola Nacional da Arte e o Instituto Superior.

Palavras aos intelectuais

Em junho... Os dias 16, 23 e 30 de 1961, os intelectuais cubanos reuniram-se na Biblioteca Nacional com o líder cubano e seu discurso final, que ficou para a história como Palavras aos intelectuais tem permanecido como eixo de todas as ações desenvolvidas no campo da cultura, nelas ficou traçada a política cultural da Revolução.

O diretor da Biblioteca Nacional de Cuba José Martí, o professor Eduardo Eduardo Torres Cuevas, ao relembrar, em junho deste ano, o 55º aniversário daquele encontro afirmou:

«Era um discurso nascido da originalidade cubana, da tradição revolucionária e cultural cubana, de suas raízes mais profundas, da cultura dos homens de 1868, 1895 e 1933, e todo isso, como força criadora para aqueles que fazem a cultura nascente de uma nova sociedade construída desde a tradicional cultural da resistência ao colonialismo, ao neocolonialismo, à intervenção e ao imperialismo».

Em outro contexto, mas em semelhante comemoração, o poeta Miguel Barnet, atual presidente da União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac) — criada pela força de «Palavras aos Intelectuais» menos de dois meses depois — significaria: «ao longo da história tem se querido descontextualizar o famoso pronunciamento do Comandante: ‘Dentro da Revolução tudo, contra a Revolução nada’, mas essas palavras de unidade, coerência, foram a plataforma inicial do que é hoje nossa política cultural: aberta, flexível, com liberdade de tendências».

Quando, em 2010, o 7º Congresso da Uneac outorgou por aprovação, para o líder histórico da Revolução, a condição de Membro de Mérito da Uneac, foi feito não somente por sua trajetória como jornalista, escritor e orador de excelência, mas também como o principal impulsor das instituições culturais do país.

O general-de-exército Raúl Castro Ruz, primeiro secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, no ato político em homenagem póstuma ao Comandante-em-chefe da Revolução Cubana, Fidel Casto Ruz, em 3 de dezembro passado anunciou: «Fiel à ética martiana de que ‘toda a glória do mundo cabe em um grão de milho’, o líder da Revolução recusava qualquer manifestação de culto à personalidade e foi consequente com essa atitude até as últimas horas de vida, insistindo em que, depois de falecido, seu nome e sua figura nunca fossem utilizadas para denominar instituições, praças, parques, avenidas, ruas ou outros sites públicos, nem erguer em sua memória monumentos, bustos, estátuas e outras formas semelhantes de tributo».

Não haverá mármores, mas será cantado e lembrado. No poema «Para Fidel Castro» (Canção de gesta/1960), Pablo Neruda escreve: «Fidel, Fidel, os povos te agradecem/palavras em ação e fatos que cantam».

Ainda mais, foi dito por outro poeta, o argentino Juan Gelman, Fidel é «Como um fogo ateado contra a noite escura».

Mireya Castañeda

Fonte: Granma
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