sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sou capaz de educar, fiz isso toda minha vida

ANTES do ano 1959, Nury Díaz Hernández morava com uma família pequeno-burguesa. Apesar das tentativas do pai — que pertencia à classe privilegiada e era opositor à Revolução — de levá-la para fora do país, ela e a mãe ficaram na Ilha.

Ainda lembra o que ela disse ao pai, em uma conversa estremecedora com seu progenitor: «Em Cuba há milhões de pessoas que não sabem ler e escrever e Fidel foi quem me ensinou isso. Onde eu tenho que estar é aqui».

Foi assim como uma garota de apenas 12 anos, que tinha sido educada em um colégio de freiras, foi ao centro do país para dar aulas a camponeses iletrados.

«Quando Fidel convocou a Campanha de Alfabetização, incorporei-me rapidamente. Eu tinha que ir alfabetizar. Todas foram experiências novas. Minha mãe me apoiou. Ela foi criticada porque permitiu que eu me incorporasse dessa maneira. Ela era uma mãe solteira muito avançada para seu tempo».

«Colocaram-me em Fomento, perto do maciço montanhoso do Escambray (localizado ao sul da região central de Cuba). Depois, chegou a orientação de recolher as meninas, por questões de segurança e a presença de foragidos contrarrevolucionários, que se moviam pela zona e me enviaram a Manaquita, no município Santa Isabel de las Lajas, ao norte da central província de Cienfuegos».

«Estando na casa onde alfabetizei nasceu um menino. Para mim aquilo foi uma coisa totalmente nova, com costumes diferentes. As pes-soas mais educadas que conheci são os camponeses».

«Muitos deles nunca tinham visto um lápis. Aprendi mais deles do que eles de mim. Ainda que depois perdêssemos o contato, sei que continuaram aprendendo, porque eu os coloquei no caminho de estudar».

A «BRIGADÍSTICA» PÔDE MAIS

Naqueles anos em que começava a Revolução, Nury não só teve que enfrentar os preconceitos sociais, por ser filha de pais que não estavam casados. Também teve que lidar com inteligência, perante a reticência de algum do que outro pupilo.

«Havia um velhinho que não queria aprender. Ele me chamava ‘a brigadística’ e dizia: ‘Como uma vejiga (menina) vai me dizer o que eu tenho que fazer?’»

«Com o tempo descobri que ele sentia muita atração pelo lampião que eu utilizava para me iluminar e se escondia perto de onde eu dava aulas para escutar. Finalmente, eu lhe disse que se queria ver o lampião tinha que entrar à sala de aulas e aprender como os outros».

Como todos os que alfabetizaram em 1961, Nury participou da campanha com um orgulho que lhe dura até hoje, mas essa não foi sua única experiência como professora.

«Descobri que uma coisa é educar e outra ensinar a ler e a escrever. Não tenho vocação para o magistério, mas sim sou capaz de educar porque fiz isso toda minha vida».

O TREM DA REVOLUÇÃO

Inclusive os cubanos que não viveram esse momento, porque não tinham nascido ou porque não puderam participar, sabem quão emocionante foi o ato realizado na Praça da Revolução, de Havana, em 22 de dezembro de 1961, quando Cuba foi declarada Território Livre de Analfabetismo. Nury estava ali.

«Eu desfilei com o grupo que levava lápis. Estava chovendo e eu queria cumprimentar todo o mundo. Passei por diante de Fidel. Suas palavras foram espetaculares. Falou da criação de um grupo de secundária básica para a nivelação. Aí estive eu».

«Fui à Serra Maestra colher café, fui para as Forças Armadas Revolucionárias e daí para a União Soviética. Aprendi a valer-me na vida, no sentido profissional. Depois traba-lhei no Centro de Pesquisas Pesqueiras.

«Estando aí me incorporei ao movimento de microbrigadas da construção e fui para o bairro Mulgoba, em Havana, construir a creche Amiguitos de la Ciencia. Conheci Fidel na inauguração do recinto de exposições da Expocuba e depois o vi na Vila Pan-americana, também na capital. Esse é o trem da Revolução em que me montei com a alfabetização».

EDUCAR DA MELHOR MANEIRA

Na vida desta mulher também houve amarguras, mas enfrentá-las com uma inteireza que só ela é capaz de avaliar.

«Estando na URSS morreu minha mãe. Tive que criar minha filha sozinha e hoje ela é doutora em Física Nuclear. Eu a eduquei da melhor maneira, por isso digo que sempre eduquei e toda essa educação foi capaz de transmiti-la sem dizer-lhe: ‘Senta ai, que vou lhe dar uma aula’».

«Sinto muito orgulho de tudo isso. Se não tivesse ido alfabetizar, não sei o que teria sido minha vida. Talvez teria sido infeliz».

Yenia Silva Correa
Fonte: Granma 
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