quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

21 de Janeiro, centenário do nascimento de Jacobo Arenas

Nascido a 21 de fevereiro de 1917, quando os canhões de todas as grandes potências se enfrentavam loucamente na Europa, e a escassos dias da queda do czar Nicolau II da Rússia por conta da revolução russa, enquanto em Colômbia se cumpria o governo de José Vicente Concha, Jacobo estaria destinado a encabeçar no país a rebeldia armada contra os poderes estabelecidos e pelo sonho de uma sociedade melhor.

Em Santander, estado em que transcorreu sua infância e juventude, conheceu as grandes notícias de seu tempo, o valoroso debate adiantado na Câmara de Representantes pelo jovem advogado Jorge Eliécer Gaitán, denunciando ao governo de Abadía pelo massacre das bananeiras, o final da longa hegemonia conservadora e a ascensão do partido liberal ao poder em 1930, os efeitos da crise econômica capitalista após a Sexta-feira Negra de 1929.

Sua simpatia pela tese do partido liberal, especialmente pela revolução em marcha, como chamou seu pacote de reformas progressistas Alfonso López Pumarejo, e a substancial atividade política rebelde de Gaitán, haveriam de conduzi-lo a fazer parte das juventudes liberais desse partido em Santander, desde onde seguiria de modo apaixonado as desventuras da República Espanhola, suas vicissitudes na guerra civil e o tenebroso triunfo do fascismo franquista.

Jacobo prestaria seu serviço militar no batalhão Guarda Presidencial na capital do país, onde teria que prestar segurança a dona Lorencita Villegas de Santos, esposa do presidente, do qual sairia para a província de García Rovira a enfrentar a violência conservadora contra as hostes liberais. Eram os anos da Segunda Guerra Mundial, da heroica batalha de Stalingrado, da derrota da Alemanha nazista em mãos da União Soviética.

Josef Stálin e o povo soviético receberam os elogios do mundo inteiro, começando pelos do presidente norte-americano Roosevelt e do primeiro-ministro inglês Churchill. O crime de Jorge Eliécer Gaitán e a violência oficial que se desatou sangrenta desde o governo de Ospina Pérez encontrariam Jacobo Arenas em Barrancabermeja, como protagonista da luta que conduziu aos dez dias de poder popular nessa cidade e depois à resistência armada guerrilheira.

A tática da autodefesa campesina orientada então pelo Partido Comunista coincidiu de modo histórico com o levantamento liberal em grande parte do país. Juan Gabriel Uribe, em seu libro De Laureano a Álvaro Gómex, se encarregaria de revelar a única entrevista radiofónica de Jacobo Arenas com Álvaro Gómez, levada a cabo durante a campanha presidencial que enfrentou ao forte político conservador com César Gaviria e Antonio Navarro após o assassinato de Carlos Pizarro.

Jacobo respondeu à saudação do líder conservador desta maneira: Homem! Nós há quarenta anos estamos esperando a resposta da direção liberal que nos ia mandar auxílios econômicos para as guerrilhas da Planície com o fim de derrubá-los a Vocês e aqui estou esperando ainda. Álvaro Gómez lhe respondeu: Sim... sim, essa foi uma época muito difícil... Não cabe dúvida que o espírito rebelde de Jacobo o situou sempre no olho do furacão de seu tempo.

Por isso mesmo não tardou em militar nas fileiras do Partido Comunista, do qual aprendeu os fundamentos da filosofia, da economia política e do socialismo, matérias nas quais com a luta política e de resistência armada terminaria convertido num autêntico mestre. A guerra fria, a ditadura de Rojas Pinilla e suas investidas contra diversas regiões agrárias terminariam por convertê-lo num convicto da justiça da causa da revolução e do socialismo.

Ademais, a existência da União Soviética e seu papel no campo das relações internacionais, no qual representava um freio às aspirações de dominação mundial do imperialismo norte-americano, constituiu sem dúvida um importante papel nas lutas pela liberação e independência dos povos colonizados de Ásia e África, dos quais emergiram importantes figuras que inspirariam movimento revolucionário universal.

Jacobo aprenderia de todas elas, porém sobretudo se apaixonaria por um acontecimento sucedido no Caribe, o triunfo da revolução cubana, que estremeceu até os alicerces da vida política do continente. Cada uma das incidências ocorridas na Cuba de Fidel, a reforma agrária, as nacionalizações, a campanha de alfabetização, a derrota dos contrarrevolucionários, o massacre dos invasores de Playa Girón, entre outros, reafirmaram sua convicção rebelde.

Desde as reformas no regime de terras decretadas por López Pumarejo em seu primeiro governo, os campesinos colombianos e várias comunidades indígenas haviam enfrentado uma desigual luta pela terra, em busca de recuperar o latifúndio das grandes extensões que lhes haviam sido usurpadas. Os distintos governos decidiram se pôr ao lado dos concentradores de terras e exercerem a repressão violenta. A chispa rebelde explodiu em Marquetalia em 1964.

Jacobo chegou ali uns dias antes de cumprir seu encontro com a história. O acompanhava Hernando González Acosta, e, ao recebê-los, Manuel Marulanda lhes expressou que com eles seria muito mais suportável a guerra que se avizinhava. A experiência acumulada por Jacobo no movimento de autodefesas campesinas comunistas se tornou de enorme utilidade quando se sobreveio a operação Marquetalia. Desde então brilhou sua condição de quadro comunista.

De sua mão ficou o testemunho da agressão ordenada pelo governo de Guillermo León Valencia, em desenvolvimento da grande operação LASO projetada no Pentágono, que ficou gravada para a história em seu Diário da Resistência de Marquetalia. Da metralhadora, como chamaram seus companheiros de guerrilha sua máquina de escrever, brotaram infinidade de cartas a personalidades e documentos como o Programa Agrário dos Guerrilheiros que definiriam o talante das FARC.

Logo que as FARC começaram a edição da correspondência entre Jacobo e Manuel Marulanda Vélez, a dupla de legendários comandantes guerrilheiros de cujas mentes e armas surgiu em pulso heroico contra o Estado colombiano a formidável organização revolucionária armada hoje em trânsito à vida legal. No primeiro tomo dela, que leva por título Resistência de um povo em armas, fica plasmada a titânica tarefa de construção da força.

A guerra do Vietnã, verdadeira epopeia da resistência contra a dominação imperialista, trouxe à luz mais que nunca até onde era capaz de chegar a fúria do capital contra os povos. A ela se somariam os golpes de Estado planejados e dirigidos desde Washington, que ensanguentariam nações inteiras afundando-as no terror. Então Jacobo se inteirou do ensino sobre a doutrina imperialista de segurança nacional, que denunciou até sua morte.

A década dos oitenta em Colômbia traria à luz a decomposição de sua sociedade. Desde o regime, o nefasto governo de Turbay Ayala punha de presente que o poder real permanecia em mãos das forças militares, ao tempo em que a classe política colombiana, liberal e conservadora, se inclinava acomodada e servil ante os nascentes cartéis do narcotráfico, que se aliavam com as forças armadas e seus planos contra insurgentes para criar o paramilitarismo.

Em setembro de 1982 declarava a Caracol Radio: Não é senão revisar essas declarações... estão nos números 73 e 74 do boletim Resistencia. E depois no número 75, onde fazemos a apresentação concreta de que o presidente Betancur, inclusive como Chefe de Estado, venha a falar conosco. Lhe pedimos que constitua uma ampla Comissão de Paz, com as faculdades necessárias para conversar conosco e chegar a acordos.
Ao perguntarem os jornalistas por que as FARC não haviam decaído em sua atividade de luta, deixaria para a história estas palavras: Porque nós, desde o primeiro momento, desde que se iniciou a agressão a Marquetalia e organizamos a resistência dos campesinos, o primeiro que apresentamos foi a questão de organizar um exército. E imediatamente depois, isso foi a 20 de julho de 1964, numa assembleia de guerrilheiros, proclamamos o programa agrário.

Modestamente o chamamos assim, ainda que é um programa de governo. Ali fazemos o traçado do que seria um governo democrático, progressista, revolucionário em Colômbia. Assim que nós estamos perfeitamente claros na mensagem política que levamos às massas que nos apoiam e por isso não temos outros movimentos. Não somos desses movimentos que crescem como bolhas de sabão e aos três ou quatro anos não existem ou estão debilitados.

Nós somos algo completamente distinto: um grupo de pessoas que tem uma concepção política muito clara, que se propôs uma missão tal como é implantar aqui em Colômbia um governo democrático, patriótico, de libertação nacional. A maior aspiração nossa é que se chegue a um acordo pela pacificação progressista, para a busca de uma saída a esta situação de crise que a sociedade colombiana vive... Vamos ver como nos vai o doutor Betancur.

Ano e meio depois a Colômbia conheceria os Acordos de La Uribe e logo veria florescer a União Patriótica. O mundo já havia contemplado como o governo de Ronald Reagan massacrava ao movimento de renovação em Granada mediante uma impiedosa invasão dos marines. E como a empreendia contra a triunfante revolução sandinista que havia arrancado do poder a Somoza, o títere de Washington na Nicarágua. O extermínio da UP estava cantado.

Nessa época Jacobo se converteu no contraditor público número um de todas as versões nascidas desde o poder para justificar os crimes e enlamear o crescente prestígio das FARC ante o país e o mundo. Sem vacilação alguma denunciou a campanha da CIA, Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, contra o movimento revolucionário, a democracia e o progresso dos povos, ao insistir em acusá-los de atividades com as máfias do narcotráfico.

Explicou até à saciedade que se os campesinos das zonas abandonadas semeavam coca era porque careciam de alternativa, não tinham como levar seus produtos a um mercado. A orientação das FARC era não lhes proibir, pois se tratava de um fenômeno generalizado. Porém comprem gado, montem suas granjas, higienizem suas casas, eduquem a seus filhos, porque um dia isto da coca vai terminar. O povo simpatiza com essa orientação... e tem que aceitá-la.

A saída da Colômbia do labirinto em que a haviam introduzido as classes dominantes reacionárias e sua grande imprensa exigia reformas democráticas fundamentais que tivessem a virtude de abrir à participação política as grandes maiorias ignoradas, alienadas e perseguidas. Por isso sua voz promovendo e convocando a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte encontrou eco em diversos setores. Inclusive do regime que a manipularia.

Por sua vez, a década dos oitenta seria testemunha da grave guinada que se desenvolveu na União Soviética com o acesso ao poder de uma facção pequeno-burguesa, que, por trás da linguagem da modernidade e da tolerância, envolta em palavras como glasnost e perestroika, se empenharia em desbarrancar o projeto socialista de Lênin. Em inícios de 1990 as FARC seriam estremecidas pela denúncia de Jacobo Arenas acerca da restauração capitalista na URSS.

Os fatos subsequentes terminaram por dar-lhe toda a razão. Os problemas do desenvolvimento econômico, social e cultural do socialismo real tinham que ser tratados com critérios comunistas, nunca com teorias neoliberais camufladas de discurso progressista. A morte o surpreendeu em 10 de agosto de 1990, a poucos meses do desmantelamento da União Soviética pelas mãos de Gorbachov e Yeltsin. Morria com o século, acusando aos culpados pela derrocada.

Jacobo Arenas jogou um papel esclarecedor em cada uma das conferências nacionais das FARC. Redator dos informes a cada uma delas, seu talento ficou comprovado para o futuro nas conclusões da Sétima, que traçou os lineamentos gerais do Plano Estratégico e significou um salto qualitativo da organização em todos os sentidos. Vitória insurrecional ou solução política ao grave conflito armado que o país vivia, essa foi sua grande herança.

Como um farol, o pensamento de Jacobo Arenas se encarregaria de iluminar o caminho da organização até meio século depois de sua morte. No futuro, a maioria dos quadros que deveriam integrar o Secretariado do Estado Maior das FARC foram escolhidos e formados por ele. Sem qualquer dúvida que o Acordo do Teatro Colón assinado em 24 de novembro de 2016, leva sua impronta. "O destino da Colômbia não poder ser a guerra", tinha dito ele.

Gabriel Ángel
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