sábado, 7 de janeiro de 2017

Grandes Revolucionários: Luiz Carlos Prestes

Prestes é um político, por excelência, no melhor sentido. Sua atuação no cenário nacional não tem precedentes em nossa história. Tem sido o exemplo de como se deve fazer política no interesse unicamente do povo. Suas extraordinárias qualidades de líder apuraram-se, por certo, na profunda assimilação do marxismo-leninismo-stalinismo sem o qual não é possível conhecer as leis do desenvolvimento social, não é possível esclarecer e conduzir as grandes massas no caminho da democracia e do progresso. Prestes, como político, surgindo das condições históricas que estão se processando em nosso país, colocou-se a serviço da classe operária e revelou-se um dos maiores líderes do nosso tempo.

Toda a sua vida é uma poderosa ação sempre em marcha e ligada sempre às aspirações e aos interesses do nosso povo. Dai o papel que está exercendo em nossa história, como revolucionário, como patriota, compreendendo as necessidades do nosso desenvolvimento social e pondo-se à frente dos acontecimentos, na direção do seu Partido.

Prestes, Homem Que Faz a História

Prestes declarou há alguns anos que como militar e engenheiro, soldado e operário, homem de ação, portanto, preferia, antes de tudo, participar da história ou fazer a história a escrevê-la. E está claro que a partir de 1922 não se pode falar de nossa história sem colocar no centro dela a figura de Luiz Carlos Prestes.

Na verdade, foi a partir de 1922 que Prestes entrou a participar ou melhor a fazer a história.

"Desde 1922, diz ele, que eu fora envolvido pelos acontecimentos que fizeram estalar do norte ao sul a estrutura política do país." E acrescenta que até então era "quase completo o seu alheamento da política."

Sua existência consistia em estudar afincadamente e trabalhar para a família. A Revolução de 1917 passou-lhe desapercebida. Por essa ocasião destacava-se como o primeiro aluno de sua turma, revelando na Escola Militar um caráter firme, sua inteligência excepcional, uma aplicação exemplar. Vivia entre a dedicação aos estudos e a dedicação à família.

Mas em breve desperta para a vida pública. Seu patriotismo o levava a procurar solução para os problemas do Brasil que já naquele tempo se tornavam graves. Ensaiam-se as primeiras atividades para o movimento de 22. Citemos aqui as próprias palavras de Prestes:

"Em 1921 foi relativamente fácil aos politiqueiros envolver o Exército em suas maquinações. É conhecida a história da carta de Bernardes. O Clube Militar tome a si a questão. Como sócio que era do Clube julguei do meu dever dar o meu voto. Meu raciocínio foi o seguinte: a carta éverdadeira. Bernardes nada mais diz senão o que pensam todos os políticos. Mas poderemos fazer alguma coisa de prático? Estamos nós, oficiais, suficientemente munidos para reagir na altura? Não o creio. E Bernardes já não negou a autoria da carta? Não é isto uma retratação? O mais justo e prudente é, portanto, darmos o incidente por encerrado. Voto contra a perícia que se pretende fazer. Contra essa opinião levantou-se o voto quase unânime da assembléia e, no dia seguinte, senti na Escola Militar onde servia, o desagrado e surpresa que causou entre meus companheiros a atitude independente que assumira e que eles, totalmente envenenados pelo ambiente, não podiam compreender."

Entretanto, reconhecendo que a esmagadora maioria se levantava, e o que restava era o movimento armado, Prestes não hesita:

"Meu lugar só pode ser do lado de cá da barricada".

Verificaram-se os acontecimentos do primeiro cinco de julho. Prestes preso de grave enfermidade não tomou parte da luta. Foi depois transferido para o Rio Grande do Sul.

Para um pequeno grupo ativo e intransigente no Exército da qual Prestes fazia parte, o insucesso do primeiro movimento não constituía derrota definitiva. A maioria assustou-se com as violências e represálias do governo; prisão de companheiros, perseguição de alunos da Escola Militar e outros desatinos. Sucediam-se as defecções, por isso mesmo, como afirma Prestes, o pequeno grupo se tornava "mais homogêneo e eficiente".

Os Acontecimentos de 22-24 e a Coluna

Os acontecimentos que seguiram ao fim da primeira grande guerra mundial em conseqüência da modificação na correlação de forças mundiais tiveram profunda repercussão na vida do país. A crise econômica, o crescimento do proletariado nacional de 1914 a 18, o reflexo da ascensão do movimento revolucionário em todo o mundo após a revolução socialista de outubro, determinaram grandes movimentos como as greves que se alastraram por todo o país entre os anos de 1917-1918.

É também nessa época que se organiza o Partido Comunista.

O ambiente de descontentamento reinante em todo o país atinge particularmente a classe média e daí partem os movimentos de 22 e 24, uma vez que a classe operária ainda não estava com o seu partido de vanguarda em condições de dirigir os acontecimentos. Esta situação tem repercussão entre a maioria dos oficiais do exército — constituída de elementos da classe média — que sentiam as dificuldades do momento, explicando assim a origem do movimento que mais tarde viria chamar-se de tenentismo.

Acentuou-se então o descontentamento em todo o país, novas lutas se anunciavam. Irrompe em S. Paulo o movimento armado dirigido pelo general Isidoro Dias Lopes. Era o segundo 5 de julho. Prestes, no R. G. do Sul, levanta o Batalhão Ferroviário e inicia a marcha da Coluna para encontrar-se com as tropas de Isidoro que se retirara de S. Paulo.

A marcha da Coluna Invicta pelo interior do país durante dois anos foi a maior marcha que se regista na história militar do continente. A respeito explica Prestes:

"Soubemos escolher a linha estratégica que nos permitiu alcançar os objetivos políticos que tínhamos em mira — manter aceso o foco revolucionário, atrair sobre nós as forças legais de maneira que os companheiros das cidades do litoral pudessem mais facilmente levantar-se contra o governo".

Quem apreciar as verdadeiras causas econômicas e sociais dos movimentos militares de 1922 e 1924 pode verificar a falta de orientação política ou ideológica dos seus dirigentes. Declara Prestes:

"Nossa ignorância de tais questões era então completa e politicamente éramos de uma ingenuidade que só posso chamar de infantil. Arrastados pelas forces que não compreendíamos tudo sacrificávamos, a carreira, o sossego, o bem estar de nossas famílias o nosso futuro pessoal, supondo assim lavar a honra do Exército que nos combatia e com a crença ingênua de que substituindo Bernardes por Nilo Peçanha ou por Hermes da Fonseca, todos os males nacionais que apenas começávamos a vislumbrar encontrariam remédio. Mas tudo na vida tem o seu lado positivo e este lado sempre o encontramos quando estamos agindo com sinceridade e temos a energia suficiente para reconhecer erros e investigar suas causas. A marcha da Coluna nos revelou o Brasil. Nascidos e educados no litoral civilizado e europeu, sistematicamente enganados por um falso patriotismo que receia a verdade, que se orgulha de riquezas inaproveitadas nas entranhas da terra e de onde não as podemos ainda arrancar, para deixar de ensinar que o verdadeiro patriotismo é o amor do nosso povo, à grande massa que produz e que geme sob a brutal exploração de uma minoria monopolizadora da terra e dos meios da produção, aquele contacto com as camadas mais atrasadas e sofredoras de nossa gente foi uma espécie de banho lustral que se nos purificava simultaneamente nos obrigava, em consciência, e dali por diante a não depor jamais as armas enquanto medidas radicais não transformassem por completo o quadro doloroso e revoltante que dia a dia, na proporção em que penetrávamos o sertão, se desdobrava ante os nossos olhos horrorizados."

Foi esse encontro direto e brutal com a realidade que conduz Prestes a uma análise mais atenta dos problemas, a um exame mais amadurecido das lutas nas quais participava e dos objetivos a alcançar. E é ainda Prestes que nos diz:

"Foi no contacto com essa realidade que fomos compreendendo pouco a pouco o que havia de ridículo e frágil nos nossos objetivos políticos. Seria uma estupidez prolongar por mais tempo a nossa marcha que tantos sacrifícios exigia quando já havíamos compreendido que a simples mudança de homens no poder nada resolveria. Havíamos visto o problema mas não estávamos em condições de resolvê-lo. Era necessário estudar, investigar sinceramente as causas de tanta miséria, a fim de podermos chegar a uma solução que satisfizesse à nossa razão".

Foi o encontro com a situação de miséria e opressão das massas camponesas — a esmagadora maioria da população do Brasil — que o levou a estudar mais profundamente os problemas, obrigando-lhe a caminho, finalmente, ao marxismo-leninismo. É exilado na Bolívia, após o internamento da Coluna, que Prestes ouve falar pela primeira vez em Marx. Em Buenos Ayres, torna-se assinante da revista teórica da Internacional Comunista. Lê "O Estado e a Revolução", de Lenin, que lhe mostra com clareza o caráter de classe do Estado. Tentando ainda achar uma solução reformista para os problemas nacionais, Prestes aprofunda a sua análise e verifica que não será essa a saída. Em Santa Fé, onde trabalha nas obras de um calçamento de asfalto, desenvolve os seus estudos e firma os seus primeiros passos no caminho da Revolução. Não podemos deixar de reproduzir aqui o depoimento de Prestes a respeito de sua adesão ao comunismo:

"Não posso contar o que foram aqueles anos de exílio, mas é fácil de imaginar o que foram aquelas lutas tremendas que tive que travar comigo mesmo à medida que me convencia do que havia de falso e ilusório no mundo dos preconceitos que haviam sido metodicamente arrumados em minha cabeça. Foi essa especulação teórica em busca da solução de um problema prático que me levou ao marxismo. Não nasci marxista, muito pelo contrário, não foi sem vencer as maiores resistências do meu próprio eu — este mundo de sentimento que se forma pela acumulação sobre a base de nossas tendências orgânicas inatas, de tudo aquilo que nos ensinam desde o berço, na família, na escola, no meio que crescemos — que consegui assimilá-lo. Mas a cultura científica que recebera me levava irrevogavelmente a tudo vencer até encontrar a solução que satisfizesse à minha razão."

Prestes e o Movimento de 30

Aproxima-se a campanha da sucessão presidencial em 1928 e os políticos entram em atividade. Nasce a Aliança Liberal que lança a candidatura de Getúlio Vargas.

A crise mundial do capitalismo em 1929 atinge em cheio a economia nacional, economia deformada pelo imperialismo, e cujo produto básico é o café, economia de sobremesa, monocultura. A crise de estrutura agrava-se com a crise geral. Aumentam em todo o mundo e no Brasil as contradições entre o imperialismo inglês e o imperialismo norte-americano. Os políticos aproveitam o descontentamento popular e o canalizam para a luta de 30. Getúlio e a Aliança Liberal são financiados pelos banqueiros ianques. O movimento em virtude da situação existente, assume características populares. E é claro que mais uma vez foi o povo traído pelos políticos que prometeram tanto para trair ainda mais cinicamente e tal como havia previsto Prestes. O Partido Comunista desmascarou o caráter reacionário da Aliança e a posição antidemocrática e anti-popular do Governo de Washington Luiz. A agitação dos politiqueiros contrários a W. Luiz, que se agrupavam em torno de Getúlio com o apoio de antigos participantes dos movimentos de 22 e 24, os que passaram daí em diante a serem chamados "os tenentes", visava unicamente um golpe para a derrubada do governo. Prestes solicitado para participar do golpe, convidado a assumir o posto de comando militar do movimento, recusou-se e denunciou o golpe à Nação como obra do imperialismo ianque. Em manifestos lançados ao povo brasileiro indicava o caminho da Revolução Brasileira, contra o latifúndio e o imperialismo e pela emancipação econômica do país. Foi justa a posição de Prestes, pois se tivesse participado do movimento, sem ter atrás de si um forte Partido Comunista de massas, seu nome teria sido usado como bandeira do golpismo e restar-lhe-iam duas alternativas: ser esmagado se quisesse impor sua orientação anti-imperialista ou trair a revolução, seguindo o caminho dos "tenentes" que participaram do movimento de 30.

Com essa atitude Prestes aumentou o seu prestígio em contraste com a desmoralização crescente dos participantes do golpe de 30. As previsões acercados objetivos do golpe e de suas conseqüências foram confirmadas pelos fatos. E isso demonstrou a justeza de princípios em que já nesta etapa vinha atuando Prestes a par de seu grande caráter, de sua fidelidade incorruptível ao povo, de sua crescente atividade revolucionária.

Nos encontros com os políticos que dirigiam o movimento, Prestes conheceu de perto o que eles são na verdade, esses velhos políticos da classe dominante:

"...pude então, eu que nunca tivera contacto com tal gente, compreender o que havia de demagógico, de egoisticamente interesseiro nos menores gestos de tão ilustres senhores. No fim de algum tempo, já me causavam asco, horror e indignação, eles pensavam poder fazer de mim o cavaleiro das esperanças deles mas já não estava longe a hora em que sentiriam desfeitas todas as ilusões".
Membro do Partido Comunista

Enquanto experimentava tamanha decepção e asco diante desses politiqueiros. Prestes tomava contacto com o Partido Comunista. Robustecia e aumentava sua fé nas massas. Em 1931 Prestes segue para a URSS onde vai assistir à gigantesca construção do socialismo e ali toma parte de importantes trabalhos como engenheiro. Encontra na URSS o mundo do futuro onde se está realizando uma milenar aspiração da humanidade em sua luta contra a miséria e a opressão. Viu o heroísmo dos trabalhadores ao enfrentar todas as dificuldades para a execução do primeiro plano qüinqüenal do qual surgiu a base poderosa em que a URSS pôde resistir ao cerco capitalista e mais tarde esmagar as tropas invasoras de Hitler.

Na URSS, os trotskistas então infiltrados no movimento operário tentam envolver Prestes. Procuram dificultar sua vida, mostram-lhe as dificuldades como se elas fossem intransponíveis na luta pela construção do socialismo. Prestes observa tudo isso e ao contrário do que pretendiam os provocadores trotskistas, reforça ainda mais a sua convicção na vitória do socialismo. Compreende a grandeza da luta dos povos soviéticos e sabe que todas as dificuldades serão superadas pelo trabalho constante e orientado pelo Partido Bolchevique. A 1.° de agosto de 1934 entra para o Partido Comunista. A sua entrada no Partido foi uma conseqüência lógica de sua atividade de combatente devotado ao serviço da Pátria, vendo quais os caminhos verdadeiros da luta pela liberdade e o progresso, compreendendo o papel histórico da classe operária no mundo e aqui no Brasil como classe dirigente da Revolução Brasileira, contra o latifúndio e o imperialismo. O patriota que compreendia já que o patriotismo significava servir ao povo, lutar pela independência nacional, por uma Pátria livre e progressista, não poderia deixar de escolher o caminho que o levou ao partido, o caminho de todos aqueles que desejam sinceramente uma vida melhor para o povo.

A ANL — Pão, Terra e Liberdade

Refletindo a situação mundial em que o fascismo começava a sua rápida ascensão, o nosso país, em 1934 atravessava um período de sombrias apreensões. Em vez de medidas concretas em defesa do povo, contra a cobiça imperialista, pela consolidação do regime republicano baseado na Constituição recém-promulgada, o governo dava largos passos para a ditadura, para a fascistização do poder. Para isso contava com a submissão do Parlamento que fornecia ao Governo as armas que este exigia para anular as liberdades constitucionais e abrir caminho para o fascismo. Com as leis de exceção, de fato, concedidas pelo Congresso de traição, o governo pôde preparar o golpe que desfechou em 1937 contra a Nação.

Para enfrentar o avanço da reação e defender a democracia do golpe fascista, surgiu a Aliança Nacional Libertadora, ampla frente popular que colocava já na ordem do dia a solução imediata dos problemas fundamentais da revolução democrático-burguesa, lançava a palavra de ordem de "Pão, Terra e liberdade”, organizando a luta contra o integralismo, contra o latifúndio e a opressão imperialista. Prestes aceita a indicação do seu nome para presidente de honra da ANL. Pouco depois viria fazer parte da direção do movimento operário mundial pois passou a pertencer à comissão executiva da Internacional Comunista, para a qual foi eleito por ocasião do seu VII Congresso realizado em 35.

Prestes envia o seu primeiro manifesto contra a guerra e o fascismo, pela reforma agrária e a libertação do Brasil da escravidão imperialista. O Cavaleiro da Esperança volta ao Brasil para permanecer à frente da grande luta cujo objetivo imediato era barrar o avanço do fascismo. Trazendo a experiência das lutas de 22 e 27, o profundo conhecimento dos problemas nacionais, armado com a ideologia da classe operária, o marxismo criador, instrumento de progresso e de liberdade de todos os povos, Prestes indicava as causas da miséria e do atraso de nosso país e advertia contra o perigo da guerra que vinha sendo preparada pelo fascismo com a cumplicidade dos trustes e monopólios da Inglaterra e dos Estados Unidos.

O Brasil não se havia refeito da crise de 29. Em virtude de sua economia subordinada ao imperialismo, entrava em nova depressão. Em 34 e 35 irrompem greves em S. Paulo, no Rio e outros estados do Brasil que marcam uma nova ascensão do movimento operário no pais. O Partido Comunista, embora pequeno, exerce influência decisiva nesses movimentos grevistas, abrindo condições para a organização da frente de luta contra o integralismo pela mobilização de massas em apoio à Aliança Nacional Libertadora.

Ante as violências do governo e em face da marcha acelerada do fascismo em nossa Pátria, os patriotas e democratas brasileiros levantam a bandeira da luta armada contra a reação e a quinta coluna.

Com a derrota de 35, Prestes é alvo do imperialismo, preso pela polícia de Felinto com a colaboração da Gestapo e da Inteligence Service. Falando acerca do movimento aliancista, Prestes em seu discurso do Recife, em 26 de novembro de 1945, diz o seguinte:

"O movimento de 1935 foi por dez anos difamado, caluniado nos seus verdadeiros objetivos. Em 1935 o mundo marchava para o fascismo. Hitler assumia o poder na Alemanha e no mundo inteiro o fascismo subia e aqui, em nossa terra, um governo reacionário de mãos dadas com os bandidos integralistas tudo fazia para levar o Brasil ao fascismo, entregar o nosso povo ao chicote da Gestapo. Naquela época, ser patriota era ser democrata e ser democrata era saber lutar contra a fascistização de nossa terra. Se a todos nós nos roubavam as mais elementares armas da democracia era dever nosso, de patriotas, de democratas, empunhar as verdadeiras armas e, de armas na mão, continuar lutando contra a fastização do Brasil.

Foi o que fizeram os comunistas desde o início de 1935. Os comunistas estendiam a mão a todos os patriotas e democratas e organizaram a Aliança Nacional Libertadora. Organizaram-na com que objetivos? Com o objetivo de impedir a fascistização de nossa terra. A Aliança Nacional Libertadora era antifascista e com três meses de vida, arbitrariamente, contra o espírito e contra a letra da Constituição, era fechado o movimento aliancista. O povo, no entanto, continuou a afluir às fileiras da Aliança, e, se o fascismo marchava em ascendência no mundo inteiro, se os bandos integralistas atacavam em todas as cidades ao povo que lutava pela democracia, a Aliança Nacional Libertadora à frente do povo e com o Partido Comunista fez uso contra a violência dos dominadores, da violência como única arma de que podiam dispor os verdadeiros patriotas."

Sobre se foi justo ou não o movimento de 35, é ainda Prestes que nos ensina:

"Em 1935 para lutar contra a fascistização de nossa terra, tivemos que empunhar armas. Fomos derrotados, sem dúvida. A derrota nas lutas políticas, como nas guerras, traduzem sempre graves erros. Se fomos derrotados é porque erramos. Esses erros estão sendo estudados pelo Partido Comunista e constituem rica experiência que o Partido saberá entregar a todo o nosso povo. Mas o erro não foi o de empunharmos armas. O erro estava, principalmente, em não estarmos à altura dos acontecimentos, em não termos conseguido ampliar a frente, a União Nacional, em não termos conseguido desmascarar, por completo, a propaganda fascista. Quanto a empunhar armas, não foi erro porque aquele era o dever de todos os patriotas e de todos os democratas."

Prestes assinala ainda que essa derrota foi passageira porque se transformou anos depois na vitória dos nossos soldados nos campos da Itália, que continuaram a luta iniciada em 35.

Prestes Diante da Reação

Marcel Willard, em seu livro "A Defesa Acusa" no qual nos fala da posição dos grandes revolucionários diante dos tribunais da reação assim fala sobre Prestes:

"Inspiremos-nos no seu exemplo. Todo militante deve conhecê-lo, falar sempre dele, estar pronto a segui-lo.

Como Dimitrov, Prestes enfrenta os seus carrascos para acusá-los, confundi-los e fazer de sua defesa uma arma a serviço do povo, uma arma para esclarecimento político, utilizando os poucos momentos que os carrascos lhe deram para "adotar uma linha ofensiva", para desmascarar o inimigo e "fazer penetrar dentro das massas as palavras de ordem de seu Partido".

Mesmo diante das situações mais difíceis Prestes mantém a convicção da vitória final da luta do seu povo contra os exploradores. Ao ser condenado em 1940 a mais algumas dezenas de anos de prisão, Prestes escrevia à sua companheira Olga: "Ontem fui condenado a mais algumas dezenas de anos de prisão. Como vês, prisão perpétua." E ironizando a estupidez dos senhores da reação acrescentava; "...como se houvesse algo de perpétuo neste mundo!"

Quando foi condenado a 30 anos de prisão diante do tribunal, congratula-se pela passagem de mais um aniversário da Revolução Socialista que se registrava no dia em que foi levado a ouvir a sentença. Os longos anos de incomunicabilidade, de torturas morais e físicas, a deportação de sua companheira entregue às garras da Gestapo não lhe abateram o espírito revolucionário. Ao contrário. Compreendia que isso faz parte da luta de classe, a luta da classe operária e de todos os democratas contra os que acreditam em deter a marcha da história. Discípulo de Lenin, fiel à linhagem dos grandes vultos de nossa história, seguindo a tradição de um Tiradentes ou de um Sabino Vieira, Prestes durante os longos anos de cárcere demonstrou, na prática, que não tem apenas um "temperamento de revolucionário", demonstrou que não só domina a arma da teoria revolucionária como possui um caráter sólido, com uma "inflexibilidade de bolchevique", sabendo o que vai fazer e com a coragem de o fazer, pronto sempre a fazer, a todo transe, o que pode verdadeiramente servir à classe operária, capaz de subordinar toda a sua vida aos interesses do proletariado, tal como ensina Dimitrov.

Prestes, o Homem do Partido

Como homem e construtor do Partido, Prestes assumiu nestes dois anos o comando da vanguarda do proletariado e do povo, com o devotamento, a flexibilidade e a firmeza de um autêntico quadro bolchevique. Sem presunção nem vaidade, Prestes sabe como escolher e dirigir os homens, exercer, como ninguém, a democracia interna dentro do Partido, organizar os quadros e orientá-los para um trabalho coletivo, como fazer uma crítica e uma autocrítica no interesse de fortalecer cada vez mais o Partido, ajudando os quadros, dando-lhes confiança em si mesmos e confiança na luta em que estão empenhados. É um inimigo da improvisação e da superficialidade como também da passividade e do sectarismo. Com paciência infinita ouve centenas e centenas de pessoas de todas as classes que o procuram e lhe fazem perguntas. Suas sabatinas e audiências com os trabalhadores foram a introdução de um novo método de propaganda política, contra o atraso em que nos debatemos e teve excepcional alcance para a educação das massas, para a divulgação da palavra de ordem do Partido, para que, enfim, a democracia pudesse dar novos passos adiante, com o incentivo da organização popular.

A par de sua importante e crescente tarefa em que se empenha tão a fundo na organização e construção do Partido, um grande partido de massa, Prestes soube, teoricamente, à base dos fatos objetivos, colocar, de maneira clara e justa, os problemas fundamentais da revolução democrático-burguesa com que arma o Partido para uma luta firme, mais conseqüente e mais ligada às massas. Mostrou amplamente que o progresso e a democracia em nossa terra dependem, fundamentalmente, da abolição do monopólio da terra e da liquidação do controle da nossa economia pelo imperialismo. Acentuou que a reforma agrária está intimamente ligada à luta contra o imperialismo e vinculado a todos os problemas da revolução democrático burguesa, dentro das condições atuais do mundo. E assim na atividade ideológica e na atividade prática, Prestes afirma-se cada vez mais como um poderoso comandante, um homem do Partido que se projeta no país e no mundo com a grandeza de um dos maiores líderes do movimento operário, como um patriota a serviço das lutas pela independência nacional, lutador anti-imperialista cujo nome é uma bandeira de paz e de libertação para todos os povos coloniais e semi-coloniais, e principalmente para os povos da América Latina que lutam por sua independência.

Sua paixão pelo trabalho, sua coragem de dizer a verdade nas ocasiões mais difíceis e perigosas como, por exemplo, contra o golpe de 29 de outubro e na sabatina com os serventuários de justiça em que desmascarou as provocações guerreiras, demonstram que mais do que nunca é um comandante à altura dos atuais acontecimentos. Seu otimismo a respeito da atual situação mundial e nacional não o impediu de ver o perigo de longe e de advertir o povo contra ele e de saber e indicar a maneira pela qual se deve orientar o povo na luta dentro das condições novas que se apresentam. Nunca teve ilusões quanto ao caráter reacionário do governo Dutra. Foi o primeiro a mostrar com justeza que Dutra enveredava pelo caminho da ditadura e o primeiro a lançar a palavra de ordem de Resistência, a palavra de ordem de seu Partido, contra Dutra.

Prestes, "esse operário da causa operária", nos indica, pelo exemplo do seu trabalho, pelo domínio da teoria marxista-leninista-stalinista aplicada à realidade brasileira, pela fidelidade à causa do povo, a unidade na luta pela democracia, a resistência contra a agressividade da reação e do imperialismo.

Em dois anos de Parlamento, Prestes deu também o maior exemplo de como deve proceder um verdadeiro representante do povo. Exemplar foi a sua vigilância a tudo que se fazia na Constituinte e no Senado, a seriedade com que estudou e ventilou todos os assuntos ali discutidos, utilizando a tribuna parlamentar para educar as massas e desmascarar os inimigos do povo, os provocadores de guerra e os vendidos ao imperialismo. Sempre ligou o seu trabalho parlamentar com o extra-parlamentar que serve de ensinamento e experiência à luta da classe operária em nosso país e no mundo. Seus combates parlamentares por uma Constituição democrática, pela solução dos problemas fundamentais de nossa economia como o da reforma agrária, contra a guerra e o imperialismo assinalam um período culminante na história do nosso parlamento em que predomina a maioria absoluta dos representantes das classes dominantes dos latifundiários e agentes do imperialismo.

Prestes Aponta o Caminho da Resistência

Ao comemorarmos o cinqüentenário de Prestes, encontramo-lo à frente do seu Partido, comandando a grande luta dos trabalhadores brasileiros pelo progresso e pela independência da pátria.

Em todo o mundo travam-se grandes batalhas entre as forças da democracia e da paz e as forças da reação comandadas, pelo imperialismo norte-americano. Acentua-se cada vez mais a divisão do mundo em dois blocos, o bloco das forças democráticas e progressistas e o bloco antidemocrático, dos imperialistas e restos do fascismo. No Brasil as forças da reação, a classe dominante dos latifundiários, de mãos dadas com o imperialismo americano, desesperadas ante o crescimento das forças democráticas, golpeiam as liberdades e passam à violência contra o povo. A legalidade já não existe e Dutra rasgando a Constituição implanta no país uma ditadura que tem, por objetivo, esmagar a resistência popular para entregar a nação aos banqueiros do Wall Street. O golpe contra os parlamentares comunistas foi sem dúvida, um grande passo dado nesse caminho. As ordens de Washington foram cumpridas. Em verdade já não temos um governo brasileiro e sim um governo americano.

E Prestes, guia do Partido e das grandes massas, adverte a todos que essas medidas da reação foram possíveis porque a debilidade do movimento de massas não nos permitiu liquidar as bases econômicas da reação que são a grande propriedade latifundiária e o predomínio do capital estrangeiro em nossa economia.

Diante dessa situação, em que Dutra e sua camarilha nos roubam as armas democráticas, como resolver os problemas da revolução democrático-burguesa? É ainda o camarada Prestes que vê claro os acontecimentos e convoca as massas para a resistência à ditadura. Sabemos ser impossível hoje resolver esses problemas através de um parlamento de traição em que predomina uma maioria à serviço dos latifundiários e do imperialismo americano, um parlamento que nessas condições nada faz pelo povo e que, ao contrário, procura aumentar os lucros do pequeno grupo de exploradores do povo à custa de sacrifícios ainda maiores das massas trabalhadoras das cidades e do campo.

O Partido aponta às massas o caminho da luta contra a fome e a miséria, o caminho da organização para resolver, com os meios de que dispuser, as suas reivindicações mais sentidas. Será esta luta constante, diária, em cada setor, que possibilitará a formação de uma ampla frente única capaz de derrotar o governo de traição que ora nos oprime e nos esfomeia. Este o caminho para resolver os problemas da Revolução Brasileira na situação atual.

Esta a imensa batalha política dos nossos dias. À sua frente, com a firmeza e a flexibilidade já reveladas até aqui, estará o grande partido da classe operária, o Partido Comunista do Brasil, o partido do progresso e da grandeza nacional. E seu dirigente é Luiz Carlos Prestes.

Armenio Guedes

Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 6 - Janeiro de 1948.
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