quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Samora Machel e a experiência de Moçambique

História de uma longa e épica luta contra a nefasta ferida aberta pelo colonialismo português, o imperialismo ocidental e o atraso cultural, depois da conquista da soberania econômica e a independência real da África, após décadas de humilhações e ignonímia.

A divisão a qual foi submetido o continente africano entre as potências coloniais europeis, fosse para a obtenção de novas matérias-primas, a exploração de mão de obra barata, a exploração de capitais que acabaram por gerar Estados dependentes para sempre do capitalismo parasitário, ou para abrir novos mercados onde introduzir seus excedentes de superprodução, foi uma das razões subjacentes que propiciaram a Primeira Guerra Mundial, devido à agudização das contradições e rivalidades entre os próprios imperialistas. Um desses países invasores era Portugal, que transmitia sua “missão civilizadora” a base de trabalhos forçados com castigos corporais como a palmatória (instrumento de castigo que consiste em uma pá plana com orifícios que, ao atingir a pele, produz hemorragias por sucção), expoliação de riquezas naturais, exploração e vexames de todo o tipo, em suas possessões de Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Embora a escravidão tenha sido abolida no final do século XIX, as condições desumanas de trabalhos forçados com que os portugueses submetiam à população autóctona não diferiam muito, os protestos e revoltas eram reprimidos a ferro e fogo, a população negra era menosprezada como um ser inferior, relegada à sua utilização como mão de obra barata como única finalidade, e a ocupação e expulsão de suas terras familiares de autoconsumo os convertia em estrangeiros em sua própria pátria.

No passado, o território atual de Moçambique era parte de um império que se estendia desde o deserto do Kalahari até o Oceano Índico. Era o chamado império de Monomotapa, que significa “senhor das minas”. Este império feudal alcançaria seu apogeu no século XV conquistando um grande desenvolvimento em comparação com seus vizinhos, contava com um forte setor de artesãos que trabalhavam o metal (especialmente ouro), comerciantes e mineiros que possuíam uma tecnologia desenvolvida que impressionou os portugueses. Havia importantes núcleos urbanos com grandes construções de pedra e um amplo setor camponês organizado em formas tradicionais. Monomotapa mantinha uma fluida relação comercial com os árabes que instalaram feitorias na costa oriental, para dar saída às reservas auríferas.

A chegada dos portugueses significou a substituição dos árabes e paralisou o canal de intercâmbios comerciais anterior, destruiu o modelo organizativo com a implantação de monopólios privados: portugueses, alemães, ingleses, norte-americanos, sul-africanos e franceses, que exploravam independentemente seus territórios específicos, generalizaram o comércio de escravos com destino à Índia e depois ao Brasil, o que supôs um golpe demolidor à demografia local, e estimulou as divisões tribais. Tudo isso se materializou em um estancamento do desenvolvimento, amplas massas em condições de miséria não conhecidas até então, sem atenção médica adequada e sumidas no embrutecimento e no analfabetismo.

Diante dessa intolerável situação, em 1962 nasce em Dar es Salaam (Tanzânia) a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), dirigida por Eduardo Mondlane. Dois anos depois, 250 guerrilheiros da Frelimo penetram desde a fronteira da Tanzânia até a província de Cabo Delgado em Moçambique, estabelecendo suas primeiras bases e zonas liberadas. Este será o início de uma longa guerra de desgaste que se prolongará durante dez anos.

Mondlane é assassinado em 1969 ao receber um livro-bomba no secretariado da Frelimo, em uma operação da seção da rede Gládio do serviço secreto português (PIDE). Samora Machel, Marcelino dos Santos e Uria Simango seriam eleitos para a direção coletiva como substitutos.

Por meio de operações cirúrgicas, a guerrilha da Frelimo vai adquirindo experiência progressivamente, apesar das muitas baixas iniciais, ao ter que enfrentar soldados profissionais portugueses, com melhor equipamento e que contavam com o apoio da OTAN. Não obstante, União Soviética, China, Alemanha Oriental (RDA) e Cuba ajudam a guerrilha mediante o fornecimento de armas e o envio de assessores militares. As emboscadas guerrilheiras, aproveitando o perfeito conhecimento do terreno, são cada vez mais letais para os portugueses. A injeção de moral pelo apoio popular à guerrilha será determinante para sua capacidade de resistência, ao contrário dos soldados portugueses, que serão vistos como uma força hostil e invasora.

Com o avanço do conflito, as tropas portuguesas vai contando também com o apoio econômico e militar do governo racista e criminoso da Rodésia e da África do Sul do apartheid. Sua ação implacável não pensará duas vezes em bombardear a população civil e destruir sistematicamente escolas e hospitais populares das zonas liberadas pela Frelimo, ignorando o Direito Internacional Humanitário e vulnerando a Convenção de Genebra. Não obstante, esse funesto modus operandi não faria mais do que alimentar o apoio popular à guerrilha em sua luta pela independência total. Em maio de 1970 começa a Operação Nó Górdio, a operação de maior envergadura desencadeada pelo exército português em todas as suas guerras coloniais, composta por um contingente de 35 mil soldados com apoio aéreo do exército da África do Sul, cuja missão é esmagar a Frelimo. A Tanzânia se oferece para colaborar com os guerrilheiros colocando todo o armamento do seu exército a disposição da Frelimo. Quatro meses depois, a ofensiva é neutralizada, sofrendo uma derrota histórica. Daqui em diante ficará constatado que um exército regular invasor não pode alcançar a vitória em uma guerra de guerrilhas bem dirigida e disciplinada que conte com o respaldo popular majoritário, apesar das muitas baixas que possa causar por sua superioridade técnica. Novos guerrilheiros substituirão constantemente os que caíram, aperfeiçoando cada vez mais as emboscadas, golpeando e se retirando em constante movimento, deslizando-se como sombras entre a intransitável selva como aliada, levando os portugueses ao esgotamento físico e psicológico.

A queda, em 1974, do regime fascista de Salazar em Portugal, durante a Revolução dos Cravos, precipita a saída portuguesa de Moçambique, que se cristalizará nos acordos de Lusaka, pondo fim à guerra e formando um governo misto de transição para a independência total, declarada em 25 de julho de 1975.

A chegada da Frelimo ao poder e o carisma e firmeza ideológica de Samora Machel se traduziu no estabelecimento de uma República Popular de orientação socialista, nacionalizando os bancos, a terra e as grandes empresas privadas, criando um sistema de cooperativas agrárias ao estilo dos kolkhozes soviéticos, estabelecendo um sistema de propriedade estatal e social de educação, saúde e moradias públicas, e um massivo plano de alfabetização e vacinação infantil, tudo isso através de uma entusiástica mobilização massiva da sociedade nas tarefas de discussão e organização da economia por meio de assembleias populares e da produção coletiva. Na política externa, apoiaram o movimento de resistência do Zimbábue e o CNA da África do Sul em suas lutas contra os regimes racistas. Como era de se esperar, a reação dos capitalistas foi o embargo econômico, a sabotagem das fábricas, granjas e infraestruturas com o fim de estrangular a economia, fomentar os conflitos tribais e avivar as tensões raciais entre colonos brancos e negros para provocar uma guerra racial, acusando a Frelimo de agressões indiscriminadas a brancos como Jacinto Veloso, piloto militar que desertou e sequestrou um avião da Força Aérea Portuguesa, desviando-o para a Tanzânia, onde se uniria à guerrilha da Frelimo, chegando a desempenhar depois da independência o cargo de diretor do SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular). A frente sempre deixou claro que sua luta não era de raças, mas de classes, que na nova República Popular havia lugar para qualquer um que quisesse servir aos interesses gerais da Moçambique livre de exploração, independentemente de sua cor.

Em 1977, Rodésia e África do Sul financiam a criação do grupo terrorista e anticomunista Renamo, iniciando-se uma guerra civil que sangrará o país durante 20 anos, provocando um milhão de mortes. Esse grupo terrorista, que também contaria com assessores da CIA, foi nutrido copiosamente por conhecidos mercenários ocidentais, especialmente britânicos, como Clive Mason, membro da Royal Marine britânica, que posteriormente como mercenário atuaria em Bornéu, Rodésia e Moçambique, onde cairia eliminado durante um combate com a Frelimo. A utilização de assassinos pagos carentes de qualquer tipo de escrúpulo ou moral ilustra perfeitamente a categoria humana que movia as ações dos colonos.

Em 1986, Samora Machel morre em um acidente de avião devido a “falhas técnicas” do piloto, segundo se disse oficialmente. Anos depois, concretamente em 2003, em declarações exclusivas o ex-dirigente das Forças Especiais da África do Sul, Hans Louw, confessou desde a prisão de Pretória, onde cumpria pena por outro crime, ter participado pessoalmente em uma operação secreta do governo sul-africano para assassinar Samora. Segundo ele disse, colocaram um farol falso para confundir o piloto e fazer com que se chocasse contra as montanhas, e se isso falhasse, relatou, tinham colocado estrategicamente dois equipamentos portáteis de mísseis para derrubar o avião. Logo depois, outro ex-agente confirmaria essas declarações. A figura de Samora Machel teve um grande peso nos acontecimentos de Moçambique desde sua posse como comandante em chefe da guerrilha da Frelimo, e posteriormente como um dos melhores dirigentes revolucionários da África, do mesmo porte de Thomas Sankara, Lumumba, Agostinho Neto, Amílcar Cabral ou Nyerere. Depois de seu assassinato, os sucessivos governos da Frelimo tiveram que aceitar reivindicações da oposição da Renamo para conquistar a paz, mediante a abertura de uma economia mista, flexível ao investimento estrangeiro, entrando no FMI e no Banco Mundial e adotando um sistema de mercado.

“Na zona do inimigo os cachorros do rico têm mais vacinas, mais medicamentos, mais cuidados médicos que os trabalhadores que criam a riqueza do rico. Nossos hospitais são centros nos quais se concretiza nossa linha política de servir às massas, um centro de unidade nacional, de unidade de classe, um centro de purificação de ideias, um centro de propaganda revolucionária e organizativa, um destacamento de combate. Os colonialistas vêm com seus aviões bombardear nossos hospitais, nos assaltam com seus helicópteros, lançam suas tropas para assassinar os enfermos, destroem o material e impedem que cheguem os medicamentos. No entanto, um soldado português ferido ou doente, é tratado em nossos hospitais como qualquer um de nós; fazemos isso porque possuímos uma moral revolucionária, uma moral superior, uma moral radicalmente oposta à baixeza do fascismo e do racismo.” (Samora Machel).

FONTE: Diário Liberdade
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