domingo, 12 de março de 2017

Cuba, exceção histórica?

Nunca na América se havia produzido um fato de tão extraordinárias características, tão profundas raízes e tão transcendentais conseqüências para o destino dos movimentos progressistas do continente como a nossa guerra revolucionária. A tal ponto que foi por alguns qualificada de acontecimento capital na América e que segue em importância a trilogia constituída pela revolução russa, a vitória contra as armas hitlerianas com as transformações sociais decorrentes e a vitória da revolução chinesa.

Esse movimento, apesar da diversidade de suas formas e manifestações, não fugiu - e não podia ser diferente - às linhas gerais de todos os grandes acontecimentos históricos do século, caracterizados pelas lutas anticoloniais e a transição ao socialismo.

Certos setores, entretanto, seja por interesse ou por boa fé, pretendem ver nesse movimento características excepcionais. Essas características, de relativa importância frente ao profundo fenômeno histórico e social, foram realçadas exageradamente até conferir-lhes importância determinante. Fala-se de excepcionalidade da revolução cubana, se comparada às linhas de outros partidos progressistas da América, e tira-se, como conseqüência, que a forma e os caminhos da revolução cubana são únicos, sendo que nos demais países da América, a libertação dos povos deverá se dar de modo diferente.

Reconhecemos que a peculiaridade da revolução cubana é dada por fatos excepcionais. É um fato claramente estabelecido que cada revolução contra com esse tipo de fatores específicos, mas, do mesmo modo, também está estabelecido que todos elas seguem às leis às quais a sociedade não pode escapar. Analisemos então os fatores dessa pretensa excepcionalidade.

O primeiro, talvez o mais importante, o mais original, é esta força da natureza chamada Fidel Castro Ruz, que em poucos anos alcançou projeção histórica. O futuro saberá avaliar exatamente os méritos do nosso primeiro-ministro. Mas, para nós, ele se iguala às mais altas figuras históricas da América Latina. Quais as circunstâncias excepcionais que cercam a personalidade de Fidel Castro? Existem várias características em sua vida e em sua personalidade que o fazem sobressair nitidamente entre todos os seus companheiros e seguidores. Fidel tem uma personalidade tão forte, que o leva a liderar qualquer movimento do qual participe. Foi isso que aconteceu ao longo de toda a sua vida, desde sua época de estudante até o momento em que se tornou o primeiro homem de nossa pátria e o líder dos povos oprimidos da América. Suas características de grande líder, somadas às suas características pessoais de audácia, força e valor, à sua extraordinária ansiedade de estar sempre respondendo aos anseios do povo, levaram-no a este lugar de honra e de sacrifício que está ocupando hoje. Outras qualidades importantes de Fidel são sua capacidade de assimilar os conhecimentos e as experiências, de compreender todo o conjunto de uma situação dada sem perder de vista os detalhes, sua fé enorme no futuro, sua amplitude de visão para prever os acontecimentos e antecipar-se aos fatos, vendo sempre mais longe e melhor que seus companheiros. Graças à sua capacidade de aglutinar, de unir - opondo-se à divisão que enfraquece -, de dirigir a ação do povo; seu amor profundo por ele; graças à sua fé profunda no futuro e à sua capacidade de prevê-lo, Fidel fez por Cuba mais do que ninguém para construir a partir do nada o aparato formidável que é hoje a revolução cubana.

No entanto, ninguém poderia afirmar que em Cuba havia condições políticas e sois totalmente diferentes das existentes nos outros país da América e que precisamente por causa dessas diferenças se realizou a revolução. Não se pode afirmar também o contrário, ou seja, que Fidel dirigiu a revolução em Cuba, no momento e na forma em que o fez, interpretando as profundas mudanças políticas que preparavam o povo para o grande salto em direção à revolução. Existiam também certas condições que, sem serem específicos de Cuba, dificilmente seriam aproveitáveis novamente por outros povos, pois, contrariamente ao que crêem certos grupos progressistas, o imperialismo aprende com seus erros.

A condição que se poderia qualificar de excepcional é que o imperalismo norte-americano estava desorientando e nunca conseguiu perceber os alcances profundos da revolução cubana. Esse fato pode esclarecer e explicar muitas das aparentes contradições do chamado quarto poder norte-americano. Os monopólios, como ocorre muitas vezes nestes casos, já estavam pensando num possível sucessor para Batista, porque se dava conta de que o povo estava farto daquela situação e também o buscava, só que por caminhos revolucionários. Que golpe mais inteligente do que derrubar o ditador que não prestava mais e substituí-lo por "rapazes" que poderiam  mais tarde, com o tempo, colocar-se a serviço dos interesses do imperialismo? Durante algum tempo o imperialismo apostou nisso, mas perdeu dolorosamente. Antes do triunfo, suspeitavam de nós, mas não nos temiam; na verdade jogavam nas duas cartadas com a experiência que têm por esse jogo no qual quase nunca se perde. Muitas vezes, emissários do Departamento de Estado, disfarçados de jornalistas, vieram tomar a temperatura da revolução, mas não conseguiram perceber o sintoma do perigo iminente. Quando quiseram reagir, quando o imperialismo se deu conta de que o grupo de jovens inexperientes que desfilava triunfante pelas ruas de Havana, tinha profunda consciência do dever político e uma decisão férrea de cumprir o dever, era tarde demais. Foi assim que amanheceu, em janeiro de 1959, a primeira revolução social de toda a zona das Caraíbas e a mais profunda das revoluções americanas.       

Não podemos considerar como excepcional o fato de a burguesia, ou pelo menos boa parte dela, se mostrar favorável à guerra revolucionária contra a tirania e, paralelamente, apoiar e promover os movimentos favoráveis a soluções negociadas para substituir o governo de Batista por elementos dispostos a frear o movimento revolucionário.

E, se levarmos em consideração as condições em que se deu a guerra revolucionária e a complexidade das tendências políticas opostas à tirania, não podemos tampouco estranhar a atitude neutra ou pelo menos não diretamente ofensiva de certos elementos latifundiários frente às forças insurrecionais.

É compreensível que a burguesia nacional, estrangulada pelo imperialismo e a tirania, cujas tropas caíam de chofre sobre a pequena propriedade e faziam do suborno um meio quotidiano de vida, visse  com bons olhos esses jovens rebeldes das montanhas castigando o exército de mercenários, braço armado do imperialismo.

Foi assim que forças não-revolucionárias ajudaram de fato a facilitar o caminho do advento do poder revolucionário.

Se quisermos chegar a extremos, podemos acrescentar, como fator excepcional, o fato de que quase todo o campesinato cubano se havia proletarizado, devido às exigências da grande cultura capitalista semi-mecanizada, e entrara numa fase organizativa que lhe dava maior consciência de classe. Pode-se admitir esse dado. Mas, a bem da erade, devemos dizer que no local primitivo do nosso exército rebelde, composto pelos sobreviventes da coluna derrotada que fez a viagem de Granma as raízes sociais e culturais do campesinato aí implantado são diferentes daquelas que se encontram nas zonas de grande cultura semi-mecanizada. Na Sierra Maestra, cenário d nossa primeira coluna revolucionário, refugiam-se todos os camponeses em luta contra o latifúndio. Vinham ali tentar criar suas próprias riquezas, ocupando um pedaço de terra pertencente ao Estado ou a algum latifundiário. Isso os obrigava a estar em luta contínua contra a ação dos soldados, eternos aliado do poder latifundiário, e seu horizonte se limitava à posse do título de propriedade. Concretamente, o soldado que integrava o nosso primeiro exército guerrilheiro de tipo camponês, provém desta classe social que mais agressivamente demonstra seu amor pela terra e pela sua posse, ou seja, que mais claramente demonstra o que podemos chamar de espírito pequeno-burguês; o camponês luta porque quer terra para si mesmo e para seus filhos, para administrá-la, vendê-la e enriquecer-se com seu próprio trabalho.

Apesar desse espírito pequeno-burguês, o camponês aprende depressa que não pode satisfazer seu afã de possuir a terra sem quebrar o sistema de propriedade latifundiária. A reforma agrária radical, a única que pode efetivamente dar terra aos camponeses, confronta-se com os interesses dos imperialistas, latifundiários e magnatas do açúcar ou do gado. Se a burguesia tem medo de chocar-se com estes interesses, não é o caso do proletariado. Desse modo, o próprio processo revolucionário une operários e camponeses. Os operários apóiam a luta contra o latifúndio. O camponês pobre beneficiado com a posse da terra apóia lealmente o poder revolucionário e o define frente aos inimigos imperialistas e contra-revolucionários.

Pensamos não existir nenhum outro fator excepcional. Após termos ido bastante longe na listagem destes fatores, veremos agora quais são as raízes permanentes de todos os fenômenos sociais na América, as contradições desenvolvidas no interior das sociedades atuais e que provocam mudanças que podem atingir a amplitude de uma revolução como a cubana.

Em primeiro lugar, numa ordem cronológica e não de importância no momento atual, figura o latifúndio. Ele foi a base do poder econômixi da classe dominante durante todo o período que sucedeu à grande revolução anticolonialista do século passado. Mas esta classe social latifundiária, que existe em todos os países, está geralmente a reboque de todos os grandes acontecimetos sociais que abalam o mundo. Alguns deles, entretanto, mais vivos e esclarecidos, têm  capacidade de prever o perigo e modificam a forma de investimentos de seus capitais, chegam às vezes a mecanizar a produção agrícola, transferem parte de seus lucros às vezes a mecanizar a produção agrícola, transferem parte de seus lucros para a industria e passam a transformar-se em agentes comerciais do monopólio. Mas, de qualquer maneira, a primeira revolução libertador nunca chegou a destruir as bases do latifúndio, que, agindo sempre de forma reacionária, mantinha o princípio de servidão sobre a terra. Esse é um fenômeno comum a todos os países da América e a base para todas as injustiças cometidas ao longo da história, desde a época em que o rei da Espanha distribuía generosamente enormes extensões de terra aos "nobres" conquistadores, deixando, no caso cubano, pra os nativos, crioulos e mestiços apenas "os realengos", ou seja, a superfície de terra compreendida entre três grandes propriedade circulares e limítrofes.

Na maioria dos países, o latifúndio compreendeu logo que não poderia sobreviver isolado e rapidamente se fez aliado dos grandes monopólios, ou seja, do mais forte e duro opressor dos povos americanos. Os capitais norte-americanos investidos nessas terras virgens, fecundando-as, aumentaram rapidamente. E os capitalistas conseguiram fazer sair desses países divisas que rapidamente compensaram o investimento inicial e proporcionaram altos lucros.

Os vários conflitos ocorridos na América, como s "guerra" entre Costa Ria e Nicarágua; a segregação do Panamá; a infâmia cometida contra o Equador em sua luta contra o Peru; a luta entre Paraguai e Bolívia, são reflexos da gigantesca batalha entre os grandes consórcios monopolistas do mundo. E nessa batalha está claro que quem vencia sempre, desde a Segunda Guerra Mundial, eram os monopólios norte-americanos. A partir desse momento a preocupação do império foi expandir-se cada vez mais e d estruturar-se da melhor forma possível a fim de evitar maior penetração de países imperialistas competidores. Como conseqüencia, temos uma economia monstruosamente distorcida, que foi descrita pelos pudorosos economistas imperialistas por uma palavra suave que demonstra perfeitamente a profunda piedade que têm por nós, os seres inferiores da América, os "subdesenvolvidos" (da mesma maneira, chamam de "indiozinho" nossos índios explorados, maltratados e reduzidos à ignorância, ou "de cor" todos os homens de raça negra ou mulatos desprezados e pisoteados; fazem deles, indivíduos ou classes, instrumentos para dividir as massas trabalhadoras em sua luta por melhores destinos econômico).    

O que é subdesenvolvimento?

Um anão de cabeça enorme e tórax potente é "subdesenvolvido" ma medida em que suas pernas fracas e seus braços curtos não combinam com o resto de sua anatomia. Ele é o resultado de uma malformação que impediu seu desenvolvimento. É o que somos nós, na realidade chamados suavemente de "subdesenvolvidos", países coloniais, semi-coloniais ou dependentes. Somos países cujo desenvolvimento foi distorcido pela ação imperialista, que desenvolveu normalmente os setores industriais ou agrícolas em função das necessidades de completar suas próprias economias complexas. O subdesenvolvimento ou desenvolvimentno distorcido provém da excessiva especialização em matérias-primas, que permite manter nossos povos sob a ameaça constante da fome. Nós, os subdesenvolvimentos, somos os países da monocultura, do monoproduto e do monomercado. Um produto único cuja venda incerta depende de um único mercado que imõe e decide das condições, eis a grande fórmula de dominação econômica imperialista que se apóia no velho e eternamente jovem lema romano: "dividir para reinar".

O latifúndio e sua relação com o imperialismo determinam por completo o chamado "subdesenvolvimento", gerando os baixos salários e o desemprego. O fenômeno dos baixos salários e desemprego é um circulo vicioso que provoca salários cada vez mais baixos e taxas de desemprego cada vez mais altas, na medida em que se agudizam as grandes contradições do sistema e, constantemente à mercê das flutuações da economia, criam o grande denominador comum a todos os países da América desde o Rio Bravo até o Pólo Sul. Este denominador comum, que escreveremos em maiúsculas, ponto de partida para todos os que pensam os         problemas sociais, chama-se FOME DO POVO, cansaço de estar sendo oprimido, pisoteado e explorado ao máximo, cansaço por estar vendendo a cada dia e por preço miserável sua força de trabalho (diante da ameaça de vir a engrossar a enorme massa dos desempregados), para que se extraia o máximo proveito de cada corpo humano, logo gasto nas orgias dos donos do capital.

Pudemos, pois, verificar a existência de grandes e iniludíveis denominadores comuns à América Latina, e nós não escapamos a nenhum deles, os quais, interligados, geram o mais terrível dentre eles: a fome do povo. O latifúndio, seja como forma de exploração primitiva, seja como expressão de monopólio capitalista da terra, adapta-se às novas condições aliando-se ao imperialismo - forma de exploração do capital financeiro e monopolista que ultrapassa as fronteiras nacionais – para gerar o colonialismo econômico chamado de "subdesenvolvimento" por eufemismo. As conseqüências são os baixos salários, o subemprego, o desemprego e a fome dos povps. Tudo isso existe em Cuba. Aqui também havia fome, havia uma das taxas de desemprego mais elevadas de toda a América Latina: aqui o imperialismo era mais feroz do que em toda a América Latina e aqui também o latifúndio existia com tanta forma como em qualquer outro país irmão.

Que fizemos para nos livrar do potente sistema imperialista e do seu séquito de governos fantoches, com seus exércitos mercenários a serviço do complexo sistema social baseado na exploração do homem pelo homem? Aplicamos algumas fórmulas empíricas que rapidamente se enquadraram nas explicações da verdade científica.

As condições objetivas para a luta eram dadas pela fome do povo e pela sua reação a esta fome, que gerava o terror, e a onda de ódio desencadeada pela reação para silenciar a revolta. Faltavam na América as condições subjetivas e, entre elas, a mais importante, que é a consciência da possibilidade de vitória através da violência contra os poderes imperialistas e seus aliados internos. Estas condições se criam pela luta armada, que toma mais clara a necessidade de mudanças (e permite prevê-Ias), e pela derrota do exército pelas forças populares e seu futuro aniquilamento (condição indispensável a toda verdadeira revolução).

Assinalando que as condições se completam mediante o exercício da luta armada, teremos que explicar de novo que o cenário desta luta deve ser o campo. Partindo do campo, o exército camponês, que luta pelos grandes objetivos porque deve lutar o campesinato (o primeiro dos quais é a justa repartição das terras), tomará as cidades.

Com a base ideológica da classe operária, cujos grandes pensadores descobriram as leis sociais que nos regem, a classe camponesa da América formará o grande exército libertador do futuro, como o fez em Cuba. Partindo do campo, onde amadurecem as condições subjetivas para a tomada do poder, ele conquista de fora as cidades, une-se à classe operária e, aumentando sua riqueza ideológica com esses novos aportes, pode e deve derrotar o exército opressor. No começo será uma luta de combates relâmpagos, armadilhas, escaramuças, mas quando esse exército tiver passado de sua condição de guerrilha para alcançar a de um grande exército popular de libertação se travarão as grandes batalhas finais. A liquidação do antigo exército representa a consolidação do poder revolucionário, como foi dito anteriormente.

Estas condições poderiam se dar em outros países da América Latina em sua luta pela emancipação? É possível ou não? Se é possível, será mais fácil ou mais difícil que em Cuba?

Vamos explicar quais são as dificuldades que, a nosso ver, tornarão mais difíceis as novas lutas revolucionárias da América. Existem dificuldades de ordem geral comuns a todos os países e outras mais específicas, que refletem o grau de desenvolvimento e as peculiaridades nacionais que diferenciam um país do outro. No início deste trabalho dissemos que se poderia considerar como fator de exceção a atitude do imperialismo desorientado frente à revolução cubana e até mesmo a atitude da burguesia nacional, que chegou até a olhar com certa simpatia a ação dos rebeldes por causa das pressões que sofria de parte do imperialismo (esta última situação é, por sinal, comum a todos os nossos países). A experiência de Cuba dividiu de novo as águas; de um lado os que querem o bem do povo e, do outro, os que o odeiam. Cada uma das forças sociais situadas de cada lado desta linha, a burguesia de um lado e a classe trabalhadora do outro, demarcaram mais nitidamente suas respectivas posições no decorrer do processo revolucionário.

Isso significa que o imperialismo aprendeu com a lição de Cuba e não será mais surpreendido em nenhuma das nossas repúblicas, em nenhuma colônia ainda existente, em nenhuma parte da América. Quer dizer que aqueles que querem perturbar a paz dos cemitérios deverão enfrentar poderosos exércitos de invasão. Esse dado é importante porque, se para Cuba foram necessários dois longos anos de combate contínuo, de inquietação e instabilidade, para os outros países da América Latina as lutas serão ainda mais duras.

Os Estados Unidos garantem armamento para os governos fantoches na hora em que se vêem ameaçados e, para isso, assinam com eles pactos de dependência que justificam juridicamente o envio de instrumentos de repressão e morte, e incentivam a preparação militar dos quadros dos exércitos repressivos, para que possam cumprir melhor sua tarefa de esmagar o povo.

Dentro desse quadro, como se situará a burguesia? Em muitos países existem contradições objetivas entre as burguesias nacionais e o imperialismo, que inunda os mercados internos com seus produtos mais competitivos, impedindo o desenvolvimento desse setor burguês. Lutas contínuas travam-se entre o imperialismo e as burguesias nacionais na disputa ás riquezas e de mais-valia.

Quanto à grande burguesia, ela não hesita em enfrentar abertamente a revolução e em aliar-se ao imperialismo e aos latifundiários para combater o povo e impedir seu avanço revolucionário.

Um imperialismo desesperado e histérico, decidido a utilizar todo tipo de manobra, a enviar armas e até mesmo . tropas para ajudar seus governantes fantoches a aniquilar qualquer levante popular; um latifúndio feroz, sem escrúpulos e mestre na utilização das formas mais brutais de f        repressão, e uma grande burguesia disposta a utilizar qualquer meio para impedir o avanço revolucionário; essas são as grandes forças aliadas entre si para opor-se diretamente às novas revoluções populares da América Latina.

Estas são as novas dificuldades objetivas que se somam às citadas anteriormente e que são inerentes a esse tipo de lutas que as revoluções na América Latina terão que enfrentar para conseguir realizar-se.

Existem           outras dificuldades mais específicas. Os países nos quais existem altas concentrações populacionais em grandes centros, devido a um processo inicial de industrialização, têm mais dificuldades em preparar a guerrilha. A influência ideológica dos centros urbanos inibe a luta guerrilheira e incentiva as lutas de massas organizadas pacificamente.

Esta concepção gera uma visão de "institucionalidade" quando, em períodos mais ou menos "normais", as condições são menos duras do que as que se dão habitualmente aos povos. Chega-se inclusive a conceber a idéia de possíveis aumentos quantitativos de representantes revolucionários no parlamento, até o dia em que esse crescimento quantitativo permita uma mudança qualitativa.

Não acreditamos que essa via possa realizar-se em qualquer país da América Latina nas condições' atuais. Sem descartar a possibilidade de que em algum país a mudança se inicia pela via eleitoral, as condições objetivas desses países tornam muito remota tal possibilidade.

Os revolucionários não podem prever de antemão todas as variantes táticas a serem utilizadas no processo de sua luta por um programa libertador. A qualidade de um revolucionário se mede por sua capacidade em encontrar táticas adequadas a cada mudança de situação, em ter sempre em mente as diversas táticas possíveis e em explorá-las ao máximo. Seria um erro imperdoável descartar por princípio a participação em algum processo eleitoral. Em determinado momento ele pode significar um avanço do programa revolucionário. Mas seria imperdoável também limitar-se a esta tática sem utilizar outros meios de luta, inclusive a luta armada como instrumento indispensável para aplicar e desenvolver o programa revolucionário. Sem essa condição, todas as conquistas são insuficientes e incapazes de dar as soluções necessárias, por mais avançadas que possam parecer.

Quando se fala em alcançar o poder pela via eleitoral, nossa pergunta é sempre a mesma: se um movimento popular ocupa o governo de um país sustentado por ampla votação popular e resolve em conseqüência iniciar as grandes transformações sociais que constituem o programa pelo qual se elegeu, não entrará imediatamente em choque com os interesses das classes reacionárias desse país? O exército não tem sido sempre o instrumento de opressão a serviço destas classes? Não será então lógico imaginar que o exército tomará partido por sua classe e entrará em conflito com o governo eleito? Em conseqüência, o governo pode ser derrubado por meio de um golpe de estado e aí recomeça de novo a velha história; ou, outra solução, é que o exército opressor seja derrubado pela ação popular armada em defesa de seu governo.

O que nos parece difícil é que as forças armadas aceitem de bom grado reformas sociais profundas e se resignem pacificamente a desaparecer enquanto casta.

A nosso ver, tratando-se dos centros urbanos, até mesmo nos casos de atraso econômico, é aconselhável desenvolver a luta fora dos limites da cidade e com características de longo prazo. A presença de um foco guerrilheiro em alguma montanha, num país onde se encontram grandes centros urbanos, permite manter sempre aceso o foco de rebelião, pois é muito difícil para a repressão acabar a curto ou longo prazo com guerrilhas que contam com bases sociais, se situem em terreno favorável para a luta guerrilheira e cujos componentes empreguem conseqüentemente a tática e a estratégia próprias para este tipo de guerra.

Nas cidades seria muito diferente: a luta contra o exército repressivo pode desenvolver-se ao extremo, mas só poderá se dar frontalmente quando existir um poderoso exército capaz de lutar contra o outro. Não se pode iniciar uma luta frontal contra um exército poderoso e muito bem armado quando se conta com pequeno grupo.

O confronto direto só poderá acontecer quando se possuírem muitas armas. Mas como consegui-las? Elas não existem em qualquer canto, têm que ser tomadas dos inimigos e, para isso, tem-se que lutar, mas não frontalmente. Por isso a luta ' nas grandes cidades deve iniciar-se de modo clandestino, com o objetivo de capturar grupos militares ou de tomar armas, uma após outra, em assaltos sucessivos.

Esse procedimento pode chegar até um ponto muito avançado e não nos ocorreria negar a possibilidade de êxito de uma rebelião popular com base guerrilheira no interior da cidade. Ninguém pode chegar a essa conclusão teoricamente e não é a nossa intenção. Cabe-nos apenas ressaltar como seria fácil, neste terreno, eliminar os chefes da revolução. Eles estariam à mercê de uma delação ou das buscas sucessivas da repressão. Em vez disso; ainda considerando que se efetuem na cidade todas as manobras possíveis, que se recorra à sabotagem organizada, que se desenvolva esta forma particularmente eficaz da guerrilha que é a guerrilha suburbana, mas mantendo o núcleo da guerrilha em terrenos favoráveis à luta guerrilheira. Mesmo que o poder opressor derrote e aniquile todas as forças populares da cidade, o poder político revolucionário permanece intacto, por se encontrar relativamente a salvo das contingências da guerra. Quando dissemos relativamente a salvo é porque não se trata de ele se situar tora da guerra, nem de dirigi-la a partir de outro país ou de lugares distantes; ele deve estar junto com seu povo, lutando. É por isso que, mesmo levando em consideração países em que o predomínio urbano é muito grande, continuamos achando que o foco central político de luta deve desenvolver-se no campo.

No caso de estarmos contando com células militares que nos ajudem a tomar o poder e nos forneçam armas, existem dois problemas a serem analisados: um primeiro caso seria se parte desse exército se une efetivamente às forças revolucionárias considerando-se, enquanto núcleo organizado, com autonomia de decisão; neste caso uma parte do exército daria um' golpe dirigido contra a outra parte, mas se manteria intacta a estrutura de casta do exército. O outro caso no qual o exército se uniria de forma espontânea e massiva às forças revolucionárias só pode existir, a meu ver, depois de esse mesmo exército ter sido derrotado violentamente por um inimigo poderoso e persistente, ou seja, no momento de derrubada iminente do poder constituído. Quando o exército está derrotado e desmoralizado, este fenômeno pode ocorrer, mas para isso os combates anteriores são necessários. E voltamos ao ponto inicial, que é de saber como se realizam esses combates. A resposta está no desenvolvimento da luta em terreno favorável, apoiada pela luta nas cidades e contando sempre com a mais ampla participação possível das massas trabalhadoras, guiadas evidentemente pela sua ideologia.

Já analisamos o suficiente as dificuldades que teriam que enfrentar os movimentos revolucionários da América Latina e agora temos que nos perguntar se existem ou não dificuldades na etapa anterior, a de Fidel Castro na Sierra Maestra.

Aqui também pensamos que existem condições gerais que facilitam a deflagração de focos de rebelião e condições específicas de alguns países que os facilitàm ainda mais. Devemos destacar dois fatores obje~tivos, que são duas das conseqüências mais importantes da revolução cubana: a pri:neira é a consciência da possibilidade de vitória, como o mostrou aquele grupo ao longo de seus dois anos de luta na Sierra Maestra. Demonstraram que se pode realizar um movimento revolucionário que atue desde o campo, que se ligue às massas camponesas, que se desenvolva, que destrua o exército num enfrentamento direto, que ocupe as cidades a partir do campo e que reforce e amplie, através das lutas, as condições subjetivas necessárias à tomada do poder.

Esse fato é tão importante que fez surgir quantidade incrível de "excepcionalistas" nesses momentos. Eles são esses seres especiais que pensam que a revolução cubana é um acontecimento único e sem possibilidade de acontecer novamente em qualquer outra parte do mundo, dirigida por um homem que cometeu erros ou não, conforme o excepcionalista se situar à direita ou à esquerda, mas que, de qualquer modo, conduziu a revolução por caminhos que se abriram para deixar passar somente e exclusivamente a revolução cubana. Nada mais errado. A possibilidade de triunfo das massas populares da América Latina está ligada à existência de um exército camponês, à aliança dos operários e camponeses, à derrota do exército através do enfrentamento direto, à tomada da cidade a partir do campo e à dissolução do exército como primeira etapa da ruptura total da superestrutura do mundo colonialista anterior.

O segundo fator subjetivo é que as massas, além de saberem das possibilidades de triunfo, conhecem agora seu destino. Têm cada vez maior certeza de que quaisquer que sejam as tribulações da história por momentos curtos, o futuro pertence ao povo, porque o futuro pertence à justiça social. Esta convicção ajudará a levantar, ainda mais do que agora, o fermento revolucionário da América Latina.

Podemos citar ainda alguns fatores menos genéricos e que variam de país para país. Um deles é que há mais exploração camponesa em todos os países da América do que houve em Cuba. Devemos recordar àqueles que querem ver no período insurrecional o papel da proletarização do campo, que, a nosso ver, a proletarização do campo serviu para acelerar consideravelmente a etapa de cooperativização no momento imediatamente posterior à tomada do poder e à reforma agrária. Mas, no primeiro momento, o campesinato, centro e medula do nosso exército rebelde, é o mesmo que está hoje na Sierra Maestra, orgulhoso dono de sua parcela de terra e individualista intransigente. Claro que existem particularidades: um camponês argentino não tem a mesma mentalidade q'le um camponês comunal do Peru, Bolívia ou Equador, mas a fome pela terra está sempre presente em todo o campesinato da América Latina. Pelo fato de o camponês ser ainda mais explorado em outros países do que foi em Cuba, as possibilidades de esta classe se levantar em armas são acentuadas.

Existe outro fator que diferencia o exército cubano do dos outros países americanos. É que o exército de Batista, apesar de seus enormes defeitos, era estruturado de tal forma que todos, desde o soldado raso até o general mais graduado, eram cúmplices da exploração do povo. Eram exércitos mercenários completos, o que dava certa coesão ao aparato repressivo. A maioria dos exércitos da América Latina contam com uma oficialidade profissional e recrutamentos periódicos nos escalões inferiores. Cada ano novos recrutas engrossam as fileiras do exército. São, na maioria dos casos, jovens de famílias pobres em contato direto com a miséria e a injustiça social. Se algum dia são enviados como carne de canhão para lutar contra uma doutrina que sentem instintivamente como justa, sua capacidade agressiva estará profundamente abalada. Com um bom esquema de divulgação, mostrando a justeza e as razões da luta, conseguir-se-ão resultados ainda melhores.

Podemos dizer, após este estudo sumário do acontecimento revolucionário, que a revolução cubana é marcada por fatos excepcionais que lhe dão sua peculiaridade e por outros comuns a todos os povos da América, que expressam a necessidade interior dessa revolução. Vimos também que existem novas condições que tornam mais fácil o despertar dos movimentos revolucionários: a consciência que as massas têm do seu próprio destino; a consciência da necessidade e a certeza da possibilidade. Outras condições dificultam o acesso rápido das massas ao poder: a aliança estreita entre o imperialismo e as burguesias latino-americanas para derrotar as forças populares. Dias sombrios esperam a América Latina, e as últimas declarações dos governantes norte-americanos parecem indicar que dias negros esperam o mundo: Lumumba selvagemente assassinado aponta na grandeza do seu martírio os trágicos erros que não podem ser cometidos. Uma vez iniciada a luta antiimperialista, é indispensável ser conseqüente, golpear firme e onde dói mais, sem trégua, sem um só passo para trás. Sempre em frente, sempre contragolpeando, sempre respondendo a cada agressão com uma pressão ainda maior das massas populares. Eis o caminho da vitória.

Verificaremos em outra oportunidade se a revolução cubana, depois da tomada do poder, caminhou por estas novas vias revolucionárias com fatores de excepcionalidade ou se, também neste caso, seguiu fundamentalmente um caminho lógico decorrente das leis fundamentais dos processos sociais, apesar de certas características especiais.

Ernesto Guevara de la Serna


FONTE: Cuba: excepción histórica o vanguardia en la lucha anticolonialista? In: Obras. 1957-1967. Havana, Casa de las Américas, 1970.
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