terça-feira, 6 de junho de 2017

Guerra dos Bárbaros: O genocídio que a história oficial não consegue esconder

Em 4 de agosto de 1699, o bandeirante paulista, comandante de Terço (companhia militar criada para combater os indígenas) e mestre de campo Manuel Álvares de Moraes Navarro foi responsável pelo assassinato de 400 índios Paiacu e a prisão de 250, incluindo crianças e mulheres, habitantes da ribeira do Jaguaribe.

Sob o pretexto de combater povos indígenas, inimigos dos colonizadores, entre eles os Carateú, os Icó e os Carati, bem como procurar aliados, chegou ao rancho dos Paiacu acompanhado de 130 homens armados e mais de 200 índios de Terço. Transmitiu aos Paiacu, índios de paz e quase todos batizados, uma comunicação amistosa, convidando-os a participar de um combate, com os Janduí, já previamente aliados ao regimento. De forma dissimulada, instigou discórdias entre as tribos Paiacu e Janduí, inimigas tradicionais, entregando armas e munições a estas últimas para atacar as primeiras. Seu intuito era poder escravizar indígenas e tomar suas terras, com a desculpa de que estariam em guerra.

Sem nada saber, como se acolhe um aliado, os Paiacu receberam-no e sua comitiva com festa. Quando começaram as danças e folgares, como se isso significasse um código, soldados da tropa e índios Janduí iniciaram a matança cujo desforço foi o cruento massacre dos indígenas.

Meses depois do ocorrido, em carta ao governador geral, Navarro relatou os “bons serviços” que tinha feito. Segundo ele, executara apenas mais uma “guerra justa” contra os índios que estavam rebelados há décadas. Como Navarro, outros bandeirantes agiram de forma brutal contra os indígenas na região. Esse é um entre tantos episódios dramáticos da história colonial brasileira que compõe parte da importante, mas não conhecida, Guerra dos Bárbaros.

Ocorrida entre os anos de 1650 e 1720, a Guerra dos Bárbaros envolveu os colonizadores e os povos nativos chamados Tapuia e teve como palco uma área que correspondia em termos atuais a um território que inclui os sertões nordestinos, desde a Bahia até o Maranhão. A denominação Tapuia foi dada pelos cronistas da época, e perpetuada pela historiografia oficial, aos grupos indígenas com diversidade linguística e cultural que habitavam o interior, em distinção aos Tupi, que falavam a língua geral e se fixaram no litoral. Estudos atuais demonstram que esses povos pertenceram aos seguintes grupos culturais: os Jê, os Tarairiu, os Cariri e os grupos isolados e sem classificação. Entre eles podem ser citados os Sucurú, os Bultrim, os Ariu, os Pega, os Panati, os Corema, os Paiacu, os Janduí, os Tremembé, os Icó, os Carateú, os Carati, os Pajok, os Aponorijon, os Gurgueia, que lutaram ora contra ora a favor dos colonizadores de acordo com as estratégias que visavam à sua sobrevivência.

Se por um lado a guerra envolveu diversos povos indígenas, muitos deles inimigos tradicionais, por outro lado os colonizadores também entraram em conflito entre si pelas terras e mão de obra escrava nativa, atraindo os mais variados setores da sociedade colonial em formação, tais como: os sesmeiros, os moradores, os religiosos, os bandeirantes, os foreiros, os vaqueiros, os rendeiros, os capitães-mores, os mestres de campo.

Embora tenha tido uma longa duração, cerca de setenta anos, e tenha sido contemporânea à existência do quilombo dos Palmares, a Guerra dos Bárbaros pouco aparece na historiografia, sendo praticamente desconhecida. A omissão dessa guerra nos livros didáticos e os raros livros de estudiosos especialistas sobre o episódio revelam o desprezo dado ao tema da resistência indígena e do violento processo de conquista lusitano no sertão nordestino.

Genericamente denominado de Guerra aos Bárbaros, esse conflito armado de caráter genocida também foi chamado de Guerra do Recôncavo (em menção ao recôncavo baiano, onde aconteceram as primeiras lutas armadas), Guerra do Açu (em referência à região do Açu, no Rio Grande do Norte, onde ocorreram os principais conflitos) e Confederação dos Cariris (por terem sido esses grupos indígenas um dos mais combatentes).

A designação “bárbaros” era dada pelos colonizadores e cronistas da época aos povos nativos que habitavam à região e ofereciam resistência à ocupação do território pelos portugueses. Essa terminologia etnocêntrica convinha ao discurso colonizador que propagava a catequese e a “civilização” dos povos indígenas nos moldes culturais do europeu ocidental. Eram descritos como povos selvagens, bestiais, infiéis, traiçoeiros, audaciosos, intrépidos, canibais, poligâmicos, enfim, “índios-problema”, pois não se deixavam evangelizar e civilizar. Eram, portanto, considerados os principais obstáculos à efetiva colonização.

Essa imagem reforçou os argumentos do conquistador de impetrar uma “guerra justa” para extirpar os “maus” costumes nativos, satisfazendo tanto as necessidades de utilização de mão de obra pelos colonos quanto à garantia aos missionários do sucesso na imposição da catequese. O resultado foi a criação de dispositivos legais que legitimavam uma guerra de extermínio. É isso que nos confirma o documento datado de 1713, quando os povos nativos já estavam drasticamente reduzidos ou aprisionados e aldeados, no qual o governador de Pernambuco insiste ser “necessário continuar a guerra até extinguirem estes bárbaros de todo ou do menor ficarão reduzidos a tão pouco número que ainda que se queiram debelar o não possam fazer”.

Embora o resultado dessa guerra tenha sido catastrófica para os povos nativos da região, é importante destacar a sua tenaz resistência, que retardou o processo de conquista da terra pelos colonos nos sertões nordestinos por quase dois séculos. Os Tapuia desenvolveram uma forma de luta singular na história da resistência indígena no Brasil. Apesar de um passado caracterizado por conflitos internos entre as diversas tribos, esses povos conseguiram, através de uma série de alianças, alcançar um certo grau de coesão na sua luta contra o colonizador que desejava remover os habitantes indígenas da região para povoá-la de gado (foi o pastoreio que permitiu a ocupação econômica, pelos colonizadores, em todo o interior do Nordeste).

A partir do século XVII, a pecuária foi paulatinamente sendo levada para o interior da região, espalhando-se pelo agreste e alcançando o sertão. A criação de gado permitiu a ascensão econômica e social de alguns habitantes do local, e a Guerra dos Bárbaros tornou-se um meio para alcançar esse fim, pois, por seu intermédio, conquistava-se o direito a sesmarias, condição essencial para a montagem de uma fazenda de gado. A resistência indígena foi a maior barreira à expansão da pecuária, pois ela só se desenvolveu, ampliando o seu mercado, após o final do conflito, quando as terras estavam “limpas” dos indígenas.

Essas sangrentas lutas da chamada Guerra dos Bárbaros, que dizimaram e desestruturaram muitas tribos indígenas, têm um rico significado histórico no quadro da ocupação dos sertões nordestinos na época colonial, representando um dos mais terríveis genocídios que a História oficial não conseguiu esconder.

Maria Idalina Pires

FONTE: Dicionário de Datas da História do Brasil. 
Reações:

0 comentários:

Postar um comentário