sexta-feira, 7 de julho de 2017

Limites da restauração neoliberal

Se a direita latino-americana pretendia fazer do triunfo eleitoral de Mauricio Macri na Argentina e do golpe de estado perpetrado no Brasil -que levou à presidência Michel Temer- as metas da reconquista do poder político na região, muito cedo a realidade e a cultura da resistência de nossos povos se encarregaram de revelar os limites da pretendida restauração neoliberal.

Já não se trata só da liderança que mantêm Cristina Fernández e Lula entre amplos setores das sociedades argentina e brasileira, apesar das perseguições midiáticas e judiciais desatadas contra eles; nem da influência que exercem como referentes na cotidianidade política e no perfilhamento de palcos eleitorais no curto e médio prazo (há eleições legislativas na Argentina em outubro e presidenciais no Brasil no próximo ano).

O maior problema que encaram Macri e Temer, e com eles as elites que os respaldam, é a crescente e multitudinária mobilização social de rejeição a suas políticas, o que por sua vez acelera e amplifica a crise de governabilidade em que estão imersos.

A diferença da primeira onda neoliberal dos anos 1990 (a dos Salinas, Menem, Collor de Mello, Cardoso, Sánchez de Lozada, Bucaram ou Fujimori), os governos atuais mostram-se incapazes de consolidar uma base de apoio popular para seus projetos, para além dos enclaves que mantêm entre setores da classe média. Isto se explica, em parte, porque o anzol do consumo e do american way of life não se condiz com o contexto econômico regional nem global de crise prolongada do capitalismo.

Em parte, também, porque a ampliação de direitos sociais, econômicos, políticos e culturais que impulsionaram os governos progressistas e nacional-populares tem permeado na cidadania, que não parece disposta a ceder tão facilmente as conquistas destes anos nem a olhar impávida a deterioração crescente de suas condições de vida, a costa da ortodoxia da austeridade e os ajustes que de novo estão à ordem do dia.

Vistas assim as coisas, a direita realmente tem poucos argumentos para se gabar: no Equador acaba de sofrer a derrota o banqueiro Guillermo Lasso; na Venezuela, o desespero e a violência planificada mantém à oposição empantanada em suas próprias contradições; no México, o torque de corrupção e violência devora o governo de Enrique Peña Nieto; na Colômbia, o desaparecimento e execução de dirigentes camponeses, sindicais, indígenas e sociais converteu-se em prática sistemática à vista e paciência dos governos de Álvaro Uribe e Juan Manuel Santos.

No Chile, os governos do continuísmo neoliberal levam mais de uma década acossados pelas mobilizações sociais de um diverso arco de atores e grupos sociais, que despem as carências da democracia pinochetista; e na América Central, governos como os da Guatemala e Honduras enfrentam, dia a dia, as misérias de sua condição subordinada e dependente, as rémoras do autoritarismo e a impunidade que não desapareceram com a assinatura dos acordos de paz há mais de três décadas.

Vivemos novamente tempos de disputa e de criação. O desafio para as esquerdas latino-americanas arraiga em ser capazes de aprender das próprias experiências de gerenciamento de governo, dos erros cometidos e dos acertos, e particularmente, em compreender a conjuntura que vivemos, suas possibilidades e desafios, para construir um novo projeto que, desde o diálogo permanente com os povos e a partir de seu protagonismo, permita reverter as derrotas parciais e impulsione um novo período de transformações em benefício das grandes maiorias.

Só assim o chamado fim do ciclo progressista deixará de ser a ansiada lápida com que a nova direita quer apagar da história o giro emancipador que abriu no século XXI nuestroamericano, e poderemos o ver então como um recuo temporário, como o ponto de crítica e autocrítica necessário para avançar na busca de sociedades mais justas, mais livres, mais solidárias. E em definitiva, mais nossas.

FONTE: Prensa Latina
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